quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Trauma do Magneto e a Biologia Molecular do Pós-Stress Traumático



O Magneto é um super-herói trágico que emerge da barbárie. Impossível que ao conhecermos sua estória, não o diagnostiquemos como vítima da Síndrome Pós-Stress Traumático (SPST). A experiência existencial desse personagem dos quadrinhos foi marcada de forma irremediável com o extermínio racial promovido pelo governo nazista alemão e pela concorrência no pós-guerra de outras tragédias pessoais cumulativas, expressas na perda de uma filha, no desaparecimento da mulher amada, na traição do melhor amigo e na instabilidade do Estado de Israel, eventos existenciais compreendidos como derivados da violência que disciplina a transcendência da História entre gerações. O personagem, contudo, nasceu em 1960, bem antes que o conceito de SPST fosse definido vinte anos depois.
Mas, afinal, de que matéria se constituiria essa síndrome? - talvez nos perguntasse o detetive Sam Spade, repetindo a pergunta definitiva do filme O Falcão Maltês.
Na Síndrome Pós-Stress Traumático, também comparece a matéria dos sonhos na forma de pesadelos recurrentes. Em termos descritivos observamos que, de acordo com os termos originais da primeira descrição da SPST incluídos no Manual Diagnóstico Estatístico de Desordens Mentais-III [Diagnostic and Statistic Manual of Mental Disorders - III/ DSM-III], diz-se que a síndorme está relacionada a evento catastrófico superior ao alcance habitual da experiência humana, estabelecendo com base na externalidade aterrorizante da etiologia não só a sustentabilidade do conceito, mas a sua imprescindível distinção com os estados psíquicos reativos aos dramas costumeiros da experiência existencial dos homens. Em termos clínicos suscintos, vê-se que o paciente experimenta uma clara incapacidade de relacionar, controlar e superar sentimentos de ansiedade, medo, raiva e violência, relacionados à evocação das lembranças traumáticas. Mas há mais, para além dos sinais e sintomas clínicos, ou melhor, bem antes deles anunciarem presença.
Nas últimas duas décadas o diagnóstico da SPST foi absolutamente clínico, contudo pesquisa recente sinaliza que adiante poderemos ter o auxílio complementar de métodos baseados em biologia molecular. Pesquisadores da Universidade de Minneapolis e Minesotta identificaram por contraste com indivíduos normais a expressão de um sinal bioquímico no cérebro de 74 veteranos das Forças Armadas norte-americanas, clinicamente acometidos de Síndrome Pós-Stress Traumático. Para registro diagnóstico foi utilizado método complementar denominado magnetoencefalografia. O estudo inédito, publicado hoje no Journal of Neural Engineering, reforça que em termos de evidência científica, na saúde e na doença, nós humanos não somos mais que a expressão gênica de reações elétricas e bioquímicas em termos de resposta evolutiva às influências culturais e de meio ambiente.

3 comentários:

Carlos Barretto disse...

Forte, isso tudo, não?

Itajaí de Albuquerque disse...

Há um mundo que ainda estamos engatinhando para desvendar seus mistérios.
Não à toa, há quem diga que existem duas biologias, uma antes e outra depois do advento da biologia molecular.
De qualquer modo, como diz a música, e para a nossa consolação, mistérios sempre haverão de estar por aí.

Anônimo disse...

Considerei o artigo em acordo com as fronteiras de pesquisa em neurobiologia e sinalização celular. Não entendi por que o doutor achou que fosse forte. Poderia explicar?