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sábado, 15 de junho de 2013

Hanseníase: A Negligência Está Marcada no Genoma


Utilizam-se no tratamento da Hanseníase os mesmos medicamentos, os métodos de diagnóstico e o mesmo modelo experimental, há décadas. No jargão técnico dessa doença é impossível encontrar termos como vacinas, biosimilares, métodos para diagnóstico precoce e modelos experimentais geneticamente modificados.  Por essa razão o Mal de Hansen é classificado como doença negligenciada pelos governos e pelos riquíssimos fundos privados que financiam pesquisas científicas nos países hegemônicos do hemisfério norte, apesar do agente causador da doença, o Mycobacterium leprae, ter sido identificado em 1873 e, desde então, elucidado seu mecanismo silencioso e alongado de infecção. 
A lógica cruel é de que o investimento numa linha de pesquisa e desenvolvimento tecnológico nessa área dificilmente atenderia a agenda de saúde dos países ricos, com maior carga centrada nas doenças crônicas não infecciosas, ficando a potencial inovação quase que relegada a fatia do mercado farmacêutico dos países pobres e em desenvolvimento, com características de menor rentabilidade segundo as pouco transparentes fórmulas que calculam a remuneração do valor agregado das tecnologias novas de saúde. Para os acionistas e as bolsas de valores internacionais que pregoam as ações das companhias farmacêuticas, é de menor relevância que nos últimos 20 anos cerca de 14 milhões de seres humanos tenham sido tratados de uma doença que, sem dúvida, impacta o desenvolvimento econômico de seus países e está nitidamente vinculada com o ciclo geracional de pobreza.
Pesquisas recentes, porém, têm revelado uma evidência que redimensiona a tibieza com que a ciência tem atendido a Humanidade em luta milenar contra a Hanseníase. A partir do mapeamento do genoma de M. leprae, coletado de múmias européias da Idade Média, pesquisadores decidiram buscar resposta para uma pergunta que responderia qual o nível de dificuldade para o advento de novas terapêuticas para a doença: Em sendo o Mal de Hansen uma doença da Antiguidade, com exemplos citados entre os povos do Velho e Novo Testamento, teriam acontecido mutações nesse microrganismo ao longo dos milênios? 
A resposta foi iluminadora. O genoma do M. leprae dos dias de hoje é exatamente igual ao do espécime que infectou as múmias medievais. Ele está imutável, há milênios, à espera de que algum Hansen da pós-modernidade o desafie novamente. Mas a exploração da genética dessa bactéria revelou dois outros fatos esclarecedores, o de que a doença foi transportada ao continente americano pelo colonizador europeu e, segundo, que houve de fato uma grande mutação, entretanto no genoma humano, que teria conferido a algumas populações a competência de resistir à infecção, explicando assim o porquê  da Hanseniáse haver "sumido" da Europa Ocidental na Época das Cruzadas.
Detalhes da investigação sobre o genoma do Mycobacterium leprae podem ser encontrados na Science desta semana.


sábado, 6 de abril de 2013

Mortalidade das Mulheres nos EUA Escandaliza Hillary Clinton




Quando uma mulher não é capaz de se manter saudável, como poderá ela assegurar o desenvolvimento de seus filhos? 
Bill Gardner - professor de Pediatria.

David Kindig e Erika Cheng examinaram as tendências das taxas de mortalidade masculinas e femininas nos períodos de 1992-96 e 2002-06, em 3140 condados norte-americanos. Os pesquisadores descobriram que as taxas de mortalidade do sexo feminino aumentaram em 42,8%, enquanto as taxas de mortalidade masculina aumentaram em apenas 3,4%.  
A razão da desigualdade é multifatorial e de comportamento diverso. Fatores como  escolaridade de ensino superior e taxas baixas de tabagismo foram relacionadas a menores taxas de mortalidade. Variáveis ​​de cuidados médicos, tais como  acessibilidade a cuidados de saúde primários não estiveram associadas a taxas mais baixas.  
A vista do mapa não há como deixar de reconhecer que a situação é crítica no Sul e Centro-Oeste dos EUA. Os achados do estudo sugerem que a melhoria dos resultados de saúde em todo os Estados Unidos, em especial no que concerne a população feminina, necessitam maior investimento público e privado com respeito a determinantes sociais e ambientais da saúde, além de foco no acesso a cuidados de saúde ou de comportamento individual. 
A publicação do estudo mobilizou a atenção da ex-senadora democrata Hillary Clinton, que fez o seguinte comentário sobre o assunto, quinta-feira última, no Quarto Encontro Mundial da Mulher :

"Pensem nisso por um minuto. Somos o país mais rico e poderoso do mundo, entretanto, hoje,  mulheres norte-americanas estão vivendo vidas mais curtas do que suas mães, especialmente entre aquelas com menos educação. Isso é uma inversão histórica, que rivaliza com a redução da esperança de vida dos homens russos após a desintegração da União Soviética. As mulheres não são vítimas, somos agentes de mudança, condutoras de progresso, somos fabricantes de paz e tudo que precisamos é de uma chance para lutar."

O acesso ao estudo Even As Mortality Fell In Most US Counties, Female Mortality Nonetheless Rose In 42.8 Percent Of Counties From 1992 To 2006 é restrito aos assinantes da revista Health Affairs, mas está acessível nas universidades brasileiras por meio da plataforma Periódicos Capes  (Coordenação de Aperfeiçoamento de Ensino Superior).

terça-feira, 2 de abril de 2013

Macro-Economia É Crítica Na Prevenção de Doenças Não Transmissíveis?


Segundo Richard Smith, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, a prevenção efetiva de doenças não transmissíveis exigirá modificação na forma como hoje vivemos, o que acarretará mudanças econômicas importantes. Ainda se desconhecem quais populações, setores econômicos ou países sofrerão impactos positivos ou negativos com essa medida. Avaliar esse cenário é importante para que as políticas tenham efeitos benéficos tanto para a saúde quanto para a economia.
Para leitura do artigo publicado na revista Science clique aqui.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Desvantagem Comparativa do Sistema de Saúde dos EUA

Os Estados Unidos gastam mais em saúde do que qualquer outro país do mundo, mas os seus resultados em saúde são geralmente piores do que os de outros países ricos. As pessoas nos Estados Unidos apresentam taxas mais altas de doenças e ferimentos e morrem mais cedo do que pessoas de outros países de alta renda. Embora esta desvantagem de saúde tenha aumentado ao longo de décadas, a sua escala só agora tem se tornado mais evidente.
Pesquisas com pacientes acometidos de doenças crônicas em até 11 países demonstraram que os norte-americanos são mais propensos do que os pacientes de outros lugares a relatar falhas na qualidade da assistência e na segurança hospitalar. Ademais pacientes norte-americanos parecem mais propensos para requerer visitas do departamento de emergência ou readmissões por causa da alta precoce e de problemas no atendimento ambulatorial. Confusão, falta de coordenação e falta de comunicação entre médicos e pacientes são relatados com mais freqüência nos Estados Unidos.
Comparações entre países também demonstram claramente que pessoas nos Estados Unidos, nomeadamente as crianças, estão morrendo mais cedo e enfrentando doenças e lesões a taxas maiores do que as observadas em outros países com o mesmo padrão de renda nacional. Para além das consequências humanas e econômicas que afetam atualmente  adultos e a força de trabalho, as desvantagens de saúde enfrentadas pelas crianças norte-americanas implicarão em outros problemas sanitários, quando se tornarem os adultos de amanhã, com repercussões na economia do país e para a segurança nacional. Agora, a questão é  saber o quanto a sociedade norte-americana está preparada para fazer uma mudança radical no modelo de saúde do país.

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O artigo - The US Health Disadvantage Relative to Other High-Income Countries Findings - foi publicado em 10 de janeiro deste ano, no JAMA - Journal of the American Medical Association. Clique aqui para ter acesso livre ao texto completo.
 

domingo, 27 de maio de 2012

Nanomedicina: Medicamentos Emergentes do Século XXI

"A aplicação da nanotecnologia no processo de desenvolvimento de medicamentos permite que os pesquisadores projetem e desenvolvam produtos farmacêuticos na escala nanométrica. Em virtude do seu tamanho e propriedades de superfície únicos, as nanopartículas são também capazes de direccionamento ativo para as células doentes, a fim de entregar drogas em uma concentração mais elevada. Essa propriedade de direcionar a molécula da substância para um alvo permite a redução de efeitos secundários, prevenindo ou reduzindo a interação com as células normais. A administração de drogas através de nanopartículas permite a manipulação da absorção, distribuição, metabolismo e eliminação (ADME) de drogas e aumenta o efeito terapêutico global".

O artigo completo Nanomedicine: Emerging Therapeutics for the 21st Century pode ser acessado na íntegra, clicando aqui.

sábado, 19 de maio de 2012

Mortalidade Materna Em Queda no Brasil


Em termos comparativos, no decêncio 1990-2010, o relatório Tendências da Mortalidade Materna: 1990 a 2010 informa que a mortalidade materna no Brasil involuiu de 120 para 56, representando uma queda de  51%.  Em que pese o descenso virtuoso na curva de mortes maternas, que expressa o efeito de um agregado causal de iniquidades operando sobre o mais belo momento das espécies, ainda resta ao Brasil muito trabalho para alcançar a meta de reduzi-la em 75% até 2015, de modo a cumprir a meta de reduzir em 3/4 a mortalidade materna entre 1990-2015, conforme previsto nos Objetivos do Milênio que foram pactuados entre os estados membros da Organização Mundial da Saúde.

sábado, 28 de abril de 2012

Um Legado É um Legado: O Governo LULA e a Mortalidade Infantil

Em dez anos o número de óbitos de crianças menores de um ano, para cada mil nascidas vivas, caiu de 29,7% para 15,6%. Isso representa um decréscimo de 47,6% na taxa brasileira de mortalidade infantil. A maior queda verificada ocorreu no Nordeste - de 44,7 para 18,5 óbitos -, apesar de ainda ser a região com o maiores índices. O Sul manteve os melhores indicadores em 2000 (18,9‰) e 2010 (12,6‰).


A expressiva redução é explicada pelo IBGE pela concorrência de diversos elementos relacionados a políticas públicas adotadas no Brasil, nos últimos 10 anos: em especial ao aumento do salário mínimo e a ampliação dos programas de transferência de renda, direcionados principalmente à parcela mais pobre da população.

Nesse caso a redução da mortalidade infantil expressa que o Brasil no período se tornou um país menos desigual. 
O dados divulgados foram obtidos no Censo 2010, realizado com a participação de aproximadamente 190 mil recenseadores, que visitaram os mais de 5.565 municípios brasileiros entre 1º de agosto a 31 de outubro de 2010.

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Texto construído a partir de informações publicadas pelo portal do Governo Federal, IBGE, UOL e outras páginas da internet.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Economia É Causa para Aumento da Malária

Escreveram que o aumento mundial dos casos de malária estaria relacionado ao aquecimento global. Eu particularmente descri dessa afirmação reducionista para o fato. Hoje vi confirmada minhas suspeitas com a publicação de artigo no Malaria Journal, assinado por uma equipe de pesquisadores norte-americanos. 
O estudo é uma revisão sistemática da literatura científica mundial, de artigos publicados em inglês, francês e espanhol sobre as causas da recrudescência da malária. Os revisores identificaram cerca de 75 episódios em 80 anos de revisão da literatura, em diferentes partes do planeta. 
A conclusão foi de uma clareza absoluta e serve de evidência para o fortalecimento da gestão do combate à malária: 
  • 91% dos episódios de ressurgência registrados na literatura mundial foram relacionados ao enfraquecimento dos programas de prevenção e controle da malária, principalmente por  restrições de financiamento. 
  • 50% desses episódios foram atribuídos ao aumento do potencial para a transmissão da malária.
  • 30% foram relacionados ao mosquito transmissor ou a resistência do Plasmodium a medicamentos.
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O artigo Malaria Resurgence: A systematic review and assessment of its cause (Ressurgência da Malária: Uma Revisão Sistemática e Avaliação de suas Causas) tem acesso livre no Malaria Journal desta semana.

O Desperdício e a Miséria da Fome.

Na década de 80, Dom Helder Câmara (1909 - 1999) gravou no belíssimo disco de Milton Nascimento - A Missa dos Quilombos -, um libelo contra a miséria e a fome, pedindo intercessão de Maria de Nazaré pelos homens. Registrava para a história o Arcebisto Emérito de Olinda, que só não venceu o Nobel da Paz por conta de uma operação internacional montada pela ditadura militar que governava o Brasil:
Basta de alguns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano.
Passados mais de trinta anos da gravação do disco, o cenário da fome no mundo mudou para pior. Hoje, contudo se sabe que o abismo que separa os saciados dos famélicos tem origem multicausal.  Reconheçamos algumas delas:
1. DESPERDÍCIO, relacionado a precariedade tecnológica para conservação de alimentos e a falta de educação popular quanto ao aproveitamento dos alimentos: 
  • 42% da perda de alimentos acontece tem origem domiciliar, segundo a FAO. 
  • 180 milhões de toneladas de comida por ano são desperdiçados a cada ano, só nos EUA e União Européia. 
  • Na União Européia o desperdício anual de alimentos chega a 179 kgs/pessoa.
  • Calcula-se que no mundo, até 2020, o desperdício de comida aumentará em 40%, a menos que medidas preventivas e corretivas sejam de imediato implementadas pelos governos.
2. FALTA DE CONSENSO INTERNACIONAL, que reconheça a fome e a insegurança alimentar não como produto da escassez de produção de alimentos em relação ao aumento da população mundial, em especial aquela residente nos países mais pobres e em desenvolvimento:
  • A produção mundial de grãos aumentou de 824 milhões de toneladas em 1960 para cerca de 2,2 bilhões de toneladas em 2010.
  • 27 milhões de toneladas tem sido adicionados à produção mundial de alimentos a cada ano. Se a produção agro-global continuar nesta tendência, o aumento na produção de grãos em 2050, comparada com os números de hoje, será suficiente para alimentar a população do mundo.
  • Apesar das perdas - 14% da produção total pós-colheita; 15% na distribuição e no lixo doméstico -, três quintos da oferta total necessária até 2050 poderiam ser alcançados se acaso os países centrais ou hegemônicos parassem de desperdiçar comida.
  • É mínimo o desperdício de alimentos nos países em desenvolvimento, e qualquer desperdício de alimentos nesses países é devido principalmente a ajustes fiscais e a insuficiência técnica e tecnológica ao longo de toda a cadeia nacional de produção de alimentos. 
  • Hoje a FAO calcula que 963 milhões de pessoas passam fome no mundo, o que corresponderia a 72 % da população da China.
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* Dados procedentes da Resolução do Parlamento Europeu, de 19 de janeiro de 2012, sobre como evitar desperdício de alimentos: Estratégias para aumentar a eficiência da cadeia de produção de alimentos na União Européia ( European Parliament resolution of 19 January 2012 on how to avoid food wastage: strategies for a more efficient food chain in the EU).

**  O sermão de Dom Helder:




domingo, 15 de abril de 2012

SUS e Saúde Suplementar São Sistema de Vasos Comunicantes

Nada direi da polêmica estampada nos jornais e divulgada de forma quase viral nas redes sociais, sobre a rejeição do trabalho da pesquisadora Lígia Bahia (UFRJ) pelo Cnpq (Conselho Nacional de Pesquisa /Ministério da Ciência e Tecnologia). Em assuntos dessa natureza estou de acordo que a melhor forma é buscar a conciliação das partes envolvidas, evitando-se sempre que possível a exploração dos fatos por canais que privilegiam a polêmica sem construtividade.
Entretanto, pelo porte da pesquisadora e a importância do tema investigado para o Sistema Único de Saúde (SUS), li o sumário executivo de Dinâmicas e Tendências do Mercado de Saúde Suplementar no Contexto da Regulação: Reestruturação Empresarial e Profissionalização da Gestão. Nessa leitura observei que o trabalho representa espécie de advocacy do usuário dos seguros ou planos de saúde que integram o componente suplementar do sistema de saúde brasileiro.
Entretanto tive dúvidas quanto a seleção amostral que apresentou 30 empresas "inovadoras", com base na oferta de menor valor mensal de comercialização, ranqueadas conforme o porte de clientela. Ainda que o custo menor possa indicar maior acesso da população de menor poder aquisitivo (classes C e D) a esse tipo de produto comercial, cumpre reconhecer que esse quantitativo de consumidores tem expressão amostral de uma população maior que é atendida por outros planos, não selecionados no estudo, mas com grande peso político-econômico nesse mercado hoje bastante aquecido pela estabilidade econômica, a melhoria do emprego e da renda dos brasileiros.
Ainda que desconheça quais os detalhes do que o edital do Cnpq tenha encomendado à pesquisadora, vejo que o trabalho traz dados importantes e de interesse para melhor estruturação do sistema de saúde brasileiro, especialmente no que concerne a bidirecionalidade de relações entre o SUS e o Sistema de Saúde Suplementar. Nesse tópico é ilustrativo o acanhamento de alguns planos de saúde no que respeita a relação número de usuários por hospital contratado.
A análise do comportamento dessa variável de pesquisa apresenta um cenário preocupante. Se considerarmos em termos gerais que 7 a 9% da população pode ser hospitalizada durante um ano, no caso de um plano de saúde, que foi vendido a 1.041.856 usuários, teremos que cerca de 94.000 dessas pessoas poderão procurar no ano os 45 hospitais contratados; e aqui não estamos considerando a variável especialidade, nem possíveis superposições de credenciamento dos hospitais por outros planos, o que mudaria todo o cenário de vagas disponíveis para a internação, sem a garantia de que veríamos situação melhor.
Certo, portanto, que a pesquisa nos traz fortes indicativos de que em termos hospitalares os planos pesquisados estão sub-dimensionados para atender a demanda de seus contratantes. O roteamento dessa demanda reprimida ao SUS agravará o impacto na rede hospitalar pública, que se comportaria como porta de saída para a ineficiência de cobertura dos seguros suplementares de saúde. Nesse sentido, a pesquisa demonstra que é imperativo que os dois componentes do sistema de saúde brasileiro - o SUS e a Saúde Suplementar - ajustem entre si modelo e procedimentos regulatórios que lhes garantam uma dinâmica operacional eficiente, visto estarem regidos pelos princípio geral de um sistema de vasos comunicantes. Contas públicas e usuários de planos ficariam agradecidos.

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O sumário da pesquisa Dinâmicas e Tendências do Mercado de Saúde Suplementar no Contexto da Regulação: Reestruturação Empresarial e Profissionalização da Gestão pode ser lido na página da Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrasco. A doutora Lígia Bahia é pesquisadora do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da UFRJ e vice-presidente da Abrasco.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

(Des) Semelhanças na Produção Científica dos BRICS

O padrão de publicação científica nas quatro economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia e China está se tornando cada vez mais próximo ao de países desenvolvidos do G7. Para chegar a essa conclusão, pesquisadores de cientometria selecionaram artigos publicados em uma ampla gama de disciplinas, nos anos de 1991, 2000 e 2009, e descobriram que a produção científica dos BRICs mudou gradualmente, para mais se assemelham aos países do G7.
Dos quatro países incluídos no grupo BRICS, foi observado que a China, em particular, havia diversificado sua produção científica, de maneira a obter um maior equilíbrio que se ajustasse ao rápido crescimento econômico que o país experimentava naqueles anos. Seus avanços em Matemática, Física e Engenharia permitem fazer associações com a política de desenvolvimento desse país.
O estudo também demonstrou que
após a Segunda Guerra Mundial, a China, Rússia e países do Leste Europeu deram atenção sustentada para a pesquisa básica, inclusive na ciência nuclear. Uma exceção a essa tendência é o Brasil. Enquanto os Estados Unidos e a Grã-Bretanha continuam líderes nas ciências da vida, o Brasil aumentou seus trabalhos publicados nessa área do conhecimento em 50 a 70 por cento.
Segundo Yang, um dos autores do estudo publicado na revista Scientometrics (14/03), "O Brasil tem sido tradicionalmente forte em biotecnologia e o governo do país tem estimulado o seu desenvolvimento". "Além disso, o Brasil é mais aberto para cooperar com o Ocidente e aprender com suas experiências, o que é diferente da ênfase chinesa em 'inovação auto-dependente".
Não há contudo consenso quanto a robustez dessas considerações. Para o pesquisador belga Ronald Rosseau, estudos sobre o comportamento dos BRICS na produção científica deveriam considerar não apenas a produção nacional de artigos científicos publicados, e sim associar a essa variável outras referentes à qualidade ou à eficácia dessas investigações, descrevendo qual seria o correspondente impacto social do que foi publicado.
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Adaptação do texto publicado no SciDev - Net. Em inglês e completo acesse-o aqui. 

Robôs na Medicina: O Quanto É Próxima a Fronteira?


Enquanto isso na sala de cirurgia:
- Como vocês podem ver, eu operei com instrumentos que atravessaram os tecidos por via da 4a. dimensão! Observem como esta cápsula curativa, em contato com o fórceps, também ajusta sua forma a quarta dimensionalidade...
(Adventure Comics, n. 303/1960)

Uma das fronteiras descritas pela ficção científica, na literatura e no cinema, são os robôs. É um mito que remete tanto a superação da queda no Gênesis, quanto ao esforço humano em superar-se rumo à imortalidade.
Em que pese estejamos distantes do pesadelo científico, narrado em Blade Runner (Caçador de Andróides), o uso dessas tecnologias em Medicina tem alcançado significativos avanços, especialmente em cirurgia.
Cabe porém salientar que o futuro da medicina robótica ( mais um campo de especialidade médica!) tem ainda um longo caminho à frente, que será pavimentado com base na aceitabilidade dos custos, na eficiência do treinamento de pessoal a ser especializado e na comprovação de que os resultados obtidos com o seu uso sejam, em termos de segurança e eficácia, superiores aos métodos convencionais. 
Na linha desse debate, e como introdutório a um tema que de rotina é explorado apenas como curiosidadade nas páginas de divulgação científica, recomendo o artigo de revisão Robotic Surgery (Cirurgia Robótica), publicado no BJOG An International Journal of Obstetric and Ginecology.

domingo, 1 de abril de 2012

Câncer, o Permanente Desafio

Anos atrás, para fins didáticos, alguém que esqueci o nome definiu o câncer como comparável aos eventos revolucionários: O câncer é a revolução das células, foi dito. Apesar de superficial, a comparação não apresenta uma relação em si descabida, se considerarmos que em ambas as situações a ordem regular dos eventos e seus processos estão alterados para que uma situação nova e antagônica - desafiadora - se estabeleça no lugar de outra antiga. 
O fato é que o câncer se inicia a partir do momento em que uma célula modifica a fisiologia da divisão celular e principia um crescimento desordenado, levando a um desequilíbrio que alcança o máximo no momento em que os limites de localização tecidual são quebrados e a célula evadida é deslocada para outros lugares do organismo, o que a Biologia Celular denomina de metástase.
Mas, se há anarquia na divisão celular, de onde exatamente surge a ordem para o desregramento que até hoje desafia o controle resolutivo da doença,  e, mais ainda, quando a neoplasia maligna não mais pode ser considerada localizada, porque distribuída em outros orgãos do ser vivo?
A resposta não é simples, embora saibamos que o câncer é uma doença genética devido ter origem no dano à integridade do DNA, lesão que pode ser provocada por inúmeros fatores e cofatores, aos quais em alguns casos - para aumentar o tamanho da encrenca - também se associam a predisposição familiar e individual.
Segundo pesquisa conduzida por pesquisadores do UK London Research Institute o evento ordenador dessa revolução é extremamente complexo, origina pluralidades e se faz presente durante toda a dinâmica da doença, o que nos obrigaria reconhecer a validade do termo cânceres ao invés de câncer, visto que essa última flexão apontaria para uma singularidade que a rigor inexiste.
O artigo Intratumor Heterogeneity and Branch Evolution Revealed by Multiregion Sequency, publicado em 08 de março na revista The New England Journal of Medicine, foi resumido e explicado de forma brilhante por "Henry" no Science Update Blog daquele instituto de pesquisa. O estudo possui relevância para a avaliação do paradigma terapêutico vigente, porque sua conclusão possui potencial portador de futuro em termos de desenvolvimento de tecnologias inovadoras para o diagnóstico e o tratamento de neoplasisas malignas, de modo que possamos reverter as curvas de mortalidade, em especial nos casos em que o oncologista não confronta a doença localizada.
Segundo os pesquisadores do centro de pesquisa inglês, não existem duas amostras geneticamente idênticas em um mesmo paciente da série analisada, nem mesmo entre as células do tumor original. Por sua vez, as células secundárias (metástases) também foram do ponto de vista genético significativamente diferentes daquelas relacionadas ao local primário da doença. 
Essas evidências permitiram aos pesquisadores concluírem que há marcante heterogeneidade genética no tumor, nas metástases e entre ambos, conclusão semelhante a aquela descrita por Xiaochong Wu e colaboradores, que em artigo publicado na Nature demonstraram que as células secundárias ou metastáticas de um tumor de células imaturas, o meduloblastoma, são geneticamente diferentes de suas congêneres encontradas no tumor primário. 
Ambas as pesquisas, portanto, trazem de forma contundente questões que confrontam nossos paradigmas quanto ao diagnóstico e aos protocolos clínicos para tratamento efetivo dos cânceres. Por outro, devemos considerar que os resultados descritos em ambos os estudos estão perfeitamente correlacionados com a Teoria da Evolução, estabelecida por Charles Darwin no século XIX. 
Se considerarmos esses eventos celulares à luz darwinista, haveremos de reconhecer que estão em acordo com o fundamento de que a evolução é fenômeno indissociável do processo vital,  existe não somente entre espécies distintas, mas dentro de uma mesma espécie e, conforme as evidências acima descritas, num mesmo indivíduo, nas suas células, mesmo que sejam cancerígenas. Ou seja, a evolução além de permanente é tão vertical quanto horizontal, no sentido mais extensivo que possamos admitir.
Por essa razão a extrema heterogeineidade genética descrita pelos pesquisadores ingleses, não pode ser entendida senão como fosse estratégia  celular de sobrevivência à diversidade do meio, conforme exemplificado no Science Update Blog:
Isto é muito desafiador: tumores malignos são capazes de lidar com substâncias químicas que eles nunca "viram" antes. São uma espécie de superpotência biológica que superam as estratégias adaptativas dos agentes causadores de doenças infecciosas. Basta para isso pensarmos o tempo que bactérias "resistentes a múltiplas drogas" levaram para evoluir. No entanto, células cancerígenas podem fazer isso em questão de meses, ou mesmo semanas, quando confrontadas com um meio ambiente tornado hostil pela quimio ou radioterapia. 
Assim, em primeiro plano,  aqui temos um monstruoso desafio só comparável àquele que Édipo decifrou nas portas de Tebas, ao encarar a temível Esfinge: se os cânceres são doenças capazes de levar à morte, no fundo, em nível celular e molecular, são os mecanismos adaptativos de proteção à vida que continuam a operar para garantir cegamente esse desfecho mortal. Como interromper essa lógica cruel que confronta o ser pluricelular e o conhecimento, esse representa nosso maior desafio no campo das ciências.

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Referências citadas: 

Gerlinger, M. et al (2012). Intratumor Heterogeneity and Branched Evolution Revealed by Multiregion Sequencing. New England Journal of Medicine, 366 (10), 883-892.

Science Update Blog


sábado, 31 de março de 2012

A Fronteira do Conhecimento por Hipócrates

Disse-o Hipócrates (460 - 377 A.C) : Há menos perigo nas doenças que se relacionam com à constituição, hábitos, idade e com a estação, do que naquelas que não guardam essas relações. 
Nas palavras de nosso tempo: Inquietava-o os agravos à saúde que estão na fronteira do conhecimento de uma época, que representam maior risco ao indíviduo exposto devido às impossibilidades ou fragilidades impostas à compreensão das causas e dos mecanismos dessas doenças, e também porque serão instáveis as intervenções conexas de cura, de recuperação, de alívio e de controle, comprometendo as políticas públicas que venham a ser desenhadas para o enfrentamento daqueles problemas.
Na História da Ciência são exemplos desse drama a Aids, as doenças causadas por príons, o câncer, o Alzheimer e as viroses de variada virulência e letalidade, que desafiam nosso conhecimento e o uso de intervenções efetivas: isto é, aquelas que funcionem com superioridade no mundo real e confirmem o que antes foi verificado no mundo controlado dos laboratórios científicos quanto ao seu uso e segurança.
No aforismo hipocrático há também a sutil presença do conceito de determinantes sociais de saúde, que apenas viria a ser desenvolvido de forma plena a partir dos anos 70 passados, depois da Conferência de Alma-Ata em plena Guerra Fria. Significa compreender, a partir desse exemplo, que o conhecimento é substantivo, transitivo e incremental, o que lhe confere enorme valor agregado, quer o classifiquemos no relevo e nos caminhos de suas planícies e planaltos como tácito (know how) ou explícito (know do).

sexta-feira, 16 de março de 2012

Saint Pancras e o Hipocampo

O chamado hipocampo é uma região do cérebro, localizada nos lobo temporais, que está relacionada com a memória, o equilíbrio e a navegação espacial. Em 2000 Maguire e colaboradores, utilizando um teste baseado no traçado londrino, publicaram interessante artigo científico no Proceedings of National Academy of Sciences*, onde foi concluído que a região do hipocampo dos motoristas de táxi em Londres maior que o habitual observado entre não taxistas.

Minha família e meus amigos consideram que possuo um excelente senso de orientação espacial e memória, contudo estou convencido de que existem estruturas naturais ou artificiais que desafiam a capacidade resolutiva de qualquer hipocampo. É o caso da sinalização na bela estação de metrô internacional Saint Pancras, em Londres.

Pois nessa estação me perdi de forma inquietante, após viajar só 2 horas de Paris para Londres, e atravessar o canal da Mancha por 38 quilômetros de Eurotúnel, a 45 km abaixo do solo do mar. Nas suas dependências gastei quase uma hora para ter êxito em achar a parada de um ônibus que fizesse um circuito turístico pela cidade. Fui redimido quando meu sobrinho lembrou que não seríamos os únicos a terem vivido tal situação, pois Harry Potter também experimentara dificuldades semelhantes para orientar-se na vizinha estação de Kings Cross.

Descontadas as confusões de sinalização e desorientação, Saint Pancras é uma jóia histórica que não merecia de forma alguma ser demolida, como foi pensado na década de noventa, e sim restaurada e modernizada como hoje a vemos. O projeto de resgate arquitetônico e de atualização funcional do logradouro considero um sucesso, no que vi, utilizei e usufrui. Simpática, segura e informatizada, nela encontrei de fato um wifi público e eficiente, como não encontrei em lugar algum de Paris.

No retorno para a França, depois de um dia de passeio pelas ruas londrinas, não tive problemas de orientação na estação internacional de trens. Embora fisicamente cansado, desta vez os hipocampos, animados pelas novas informações recebidas, estavam funcionando a toda prova.

*Proc Natl Acad Sci USA. 2000; 97 (8): 4398 - 403

terça-feira, 10 de maio de 2011

Cruzamentos do Conhecimento na Modernidade

Enquanto leio Medicine & Kindred Arts in the Plays of Shakespeare, tese de doutorado do clínico John Moyes (Universidade de Glasgow, 1896. 1a. ed.), o tuíter surpreende-me e anuncia que, pela primeira vez, pesquisadores desenvolveram modelo experimental que explica como um elemento fundamental para a origem da vida, o carbono, surge na natureza. Os resultados experimentais permitem que a produção do elemento vital seja reprodutível em ambiente extra-terrestre; nas estrelas por conseguinte.
O artigo foi publicado no Physical Review Letters: Phys. Rev. Lett. 106, 192501 (2011) , mas uma síntese pode ser lida aqui.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Promotoras de Pobreza

O professor Carlos Morel, da Academia Brasileira de Ciências e do Instituto de Economia da UFRJ, publicou hoje, no Jornal Valor Econômico, artigo sobre doenças negligenciadas. No texto são apresentados o desenvolvimento histórico do conceito de doenças negligenciadas e o porque desses agravos, que impactam de forma negativa o desenvolvimento de um país, serem ítens obrigatórios nas agendas governamentais. O artigo foi licenciado para publicação e livre acesso na página da Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrasco.

No Gosto Inglês: O Programa Saúde da Família

O Programa Saúde da Família - PSF, implantado em praticamente todo o Brasil, foi objeto de matéria elogiosa no tradicional The British Medical Journal (BMJ). Bom que seja avaliado dessa forma. Ao menos assim, quem sabe, os tribunais de penitência ajustem suas lentes na União, nos Estados e Municípios para resultados, e assim contribuam de modo positivo para a qualificação da gestão, no lugar de perseguir gestores, a partir da interpretação fria da lei, apenas porque implantaram o PSF nos seus municípios sob a pressão do vazio assistencial frente à doença, à morte e à pobreza. O artigo do BMJ, traduzido para o Português pela Organização Pan-Americana de Saúde, está disponível para leitura aqui.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cólera: o Velho e o Novo do Mesmo

Então com indômita violência atacou a cólera toda a cidade,
varejou as casas dos ricos e pobres, as espeluncas imundas
como os palácios asseados;
antes que o mês terminasse,
podiam-se já contar sem exagero
seis a sete mil atacados,
isto é, mais de um terço da população.

(Arthur Vianna. As Epidemias no Pará. Diário Oficial, 1906)


O cólera foi descrito pela primeira vez por Robert Koch em 1883, trinta anos depois de termos os primeiros casos da doença no Brasil. A primeira epidemia brasileira surgiu em Belém, na então província do Grão Pará, em que aportara o navio Defensor, procedente de Portugal, como transporte de colonos portugueses para a Amazônia. Na ocasião, havia epidemia de cólera na Espanha e em algumas cidades portuguesas, sem contudo haver registro de sua presença na cidade do Porto, de onde o navio levantara suas âncoras em direção ao Brasil.
Segundo o clássico de Arthur Vianna (Op. cit.), as condições higiênicas de bordo eram péssimas, propício à transmissão de doenças infecciosas entre os passageiros. Contudo, apesar do governo imperial e do Pará estarem alertas sobre a epidemia de cólera na Europa, a saúde dos portos paraenses errou ao acreditar nas palavras tranquilizadoras do médico de bordo, e apiedada com a condição dos colonos, liberou o navio da quarentena e autorizou o desembarque. O erro foi gravíssimo, pois os registros de bordo evidenciavam que 36 passageiros haviam falecido de um quadro diarreico agudo e incontrolável, compatível com a clínica coleriforme.
A primeira epidemia brasileira de cólera foi, em consequência do estado da arte da ciência médica e das condições sanitárias existentes na época, uma verdadeura tragédia nacional. Rapidamente a doença se disseminou pelo país, acometendo a população das capitais e das cidades polo de atividade econômica; tanto a brancos, quanto aos escravos e índios, na cidade e no campo. Conta Lycurgo Santos Filho (História Geral da Medicina Brasileira. USP, 1991) que em Santo Amaro, na Bahia, a mortalidade foi tamanha que a administração pública autorizou a incineração dos mortos pela impossibilidade de dar-lhes enterro convencional.
O governo imperial reuniu então os médicos e os acadêmicos de medicina do país e os despachou para as cidades do Norte e do Nordeste para auxiliar nos trabalhos. Vários deles pereceram da doença junto com outras autoridades, dentre as quais o próprio presidente da Província do Grão-Pará, Angelo Custódio Correa, que se deslocara em socorro de Cametá, então a segunda maior cidade paraense, uma terra que a epidemia tornara inabitável - de onde todos procuram fugir! - como registrou a imprensa na época.
A cólera depois de sua entrada triunfal entre nós no século XIX sempre esteve presente como surto ou epidemia. Segundo alguns historiadores, na Guerra do Paraguai afligiu impiedosamente os soldados em luta, conforme os horrores descritos na Retirada da Laguna, de Taunay. Nos anos 90, a partir de uma epidemia no Perú, a doença voltou a entrar no Brasil. Por essa época, entre 1991 e 1994, foram registrados mais de 100 mil casos e pouco mais de 1000 óbitos.
O mais recente aparecimento da cólera no continente foi no Haiti, país caribenho devastado por guerra civil, corrupção, pobreza e catástrofes naturais. Nesse caso, porém, há uma característica importante a ser destacada com respeito a doença, que é o fato de ser provocada por um novo tipo de vibrião cólera que pela primeira comparece nas Américas. A introdução da variante do Sul da Ásia pode ter graves consequências para além da população haitiana, caso não se estabeleça efetivo controle sanitário. O tipo introduzido de vibrião cólera possui maior resistência aos antibióticos além de maior capacidade de provocar formas graves da doença, elevando a curva de mortalidade a ela relacionada. Segundo um grupo de pesquisadores, em artigo publicado este mês no The New England Journal of Medicine, é provável que no ecossistema caribenho aconteçam trocas de material genético entre o vibrião relacionado à cólera clássica, já antes presente na região, e o novo, com o risco de aumentar ainda mais a virulência do microorganismo. A despeito dessas complexidades genéticas, está claro que a oferta de saneamento adequado, a implantação de medidas de educação em saúde e a oferta de água potável à população do Haiti, assim como a restauração da democracia nesse país, são fatores essenciais para controlar e prevenir a propagação da doença.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uma Americana na Terra dos Vikings
























Petrus Christus. Retrato de uma jovem (circa 1460)


Considera-se que Cristovão Colombo foi quem introduziu na Europa os primeiros ameríndios, para lá conduzidos quando retornou das viagens que lhe garantiram lugar na História. Hoje, parece, a história não transcorreu exatamente desse modo. Estudo de demografia genética realizada em 80 membros de um família islandesa demonstrou a constância de genes que eram únicos no país, capazes de serem rastreados até o início do século XVIII.
O aprofundamento das pesquisas demonstrou um padrão genético caribenho, compatível com a presença de uma mulher ameríndia na Islândia, pelo menos há 1000 anos, quando o país esteve praticamente isolado de ondas migratórias. Como teria então essa mulher chegado a uma ilha tão longínqua quanto gelada?
Provavelmente, ao modo como aconteceria com seus conterrâneos 500 anos depois: fora para lá conduzida por guerreiros vikings, que antes de Colombo já circulavam pelo continente americano, conforme registro das lendas nórdicas. O desafio agora dos pesquisadores é buscar estabelecer com maior precisão o tempo em que esses fatos aconteceram. Os resultados da pesquisa estão publicados no American Journal of Physical Anthropology.

P.S. A publicação do Retrato de uma Jovem de Petrus Christus, pintor medieval flamengo, não possui qualquer relação de inferência com a pesquisa que revelou a presença de genes ameríndios na Islândia. Entretanto, quando eu iniciei a leitura da obra prima de Johan Ruizinga - O Outono da Idade Média -, fiquei inquieto tanto com a riqueza das vestes e adereços da modelo, quanto com o formato do seu rosto e olhos inegavelmente de fenotipo asiático. Eu então me perguntei como essa garota dos Países Baixos, que viveu pelos meados da Idade Média, havia adquirido esses olhos tão exóticos quanto belos? A possibilidade de miscigenação com povos asiáticos, pela contiguidade continental entre Ásia e Europa, foi a resposta que satisfez minhas dúvidas. Pois é: o conhecimento tem seus mistérios, encantos e enganos.