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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A Atualidade do Professor Pirenne

    Alicja. Fotografia de Agata Serge 

 Na curvatura do tempo
o homem igual ve-se de reverso
um ponto na indecisão do geometra 
  a  desmedida que flutua no silêncio
na envergadura imprecisa, sem fim 

Estes são tempos de retorno ao sombrio, tem se dito com insistência nesses últimos anos. O avanço dos partidos conservadores, suas bandeiras eleitorais e sua assunção ao poder pelo voto ou pela força, parece devolver o mundo aos princípios dos anos 30 do século passado, a provar o artifício dos recortes cronológicos no contínuo histórico. Como havia nos alertado Hobsbawn, o longo século XX resiste estendendo com suas náuseas e angústias irresolvidas ...
Este pequeno excerto trago do livro "Lembranças do Cativeiro na Alemanha"*, em que o acadêmico belga Henri Pirenne (1862 - 1935) registra suas impressões como prisioneiro político na Primeira Guerra Mundial. Nele foram apontadas questões importantes sobre a interseção perigosa entre a técnica esvaziada de historicidade, a morte da política e a usurpação da cidadania em favor de governos reacionários e não raras vezes desumanos. 
Em tempos de projetos como "Escola Sem Partido", de propagandas oficiais do tipo "Não Fale em Crise, Trabalhe (não seria uma variante de "O Trabalho Liberta"?), das panelas que pediam golpe de estado e hoje silenciam  frente a um governo desastroso e antinacional, mas, principalmente, por ser narrativa escrita ex-ante a grande derrota humana exposta na legitimação do nazifascismo na Europa, que nos levou a II Guerra Mundial com seus milhões de mortos mediante a banalidade do mal, o texto do professor Pirenne, cem anos depois, impõe-se atual para a reflexão. Vamos até ele ... 
 
"De repente, eu descobria que depois de tantas viagens e estadas realizadas além do Reno, depois de tantas conversas com professores e de tantas sessões de congressos, eu nada adivinhara, nem mesmo suspeitara das idéias políticas de homens que, no entanto, eu me gabava de conhecer muito bem. E ao mesmo tempo começava a me dar conta das causas de meu erro. Parecia-me que, na ausência de toda espécie de vida política , o alemão acha-se confinado ao campo de sua especialidade profissional. Nela se concentram todas as forças e toda a sua atenção. Seu ideal não vai além disso. E essa concentração num objetivo, sempre o mesmo, sem dúvida confere ao trabalho o "rendimento"extraordinário que admiramos tanto na indústria quanto na erudição, do qual nada se perde. Mas todos esses homens absorvidos por uma tarefa especial deixam para o governo, que consideram também um especialista, a preocupação de dirigir  e proteger a nação. Habituados há séculos ao absolutismo, não lhes passa pela cabeça a ideia de que o Estado são eles mesmos. Fazem dele um ser em si, uma espécie de entidade mística, uma potência dotada de todos os atributos de força e inteligência. No mesmo azado, todos estão prontos a obedecer-lhe, não como cidadãos, mas como servidores. Vestindo sua túnica de oficiais da reserva, professores, magistrados, comerciantes, empresários não serão mais do que simples militares, simples instrumentos de poder que os mobilizou para seu serviço. Aceitarão deles sem a menor crítica a direção e as palavras de ordem. Pensarão como ele, porque não reconhecem em si o direito e a competência de pensar por si mesmos a não ser em seu gabinete, diante de seu auditório ou em sua fábrica. Eu me espantava muitas vezes com a aspereza e a violência das polêmicas científicas na Alemanha. Não se deveria buscar-lhe a causa na importância única, exclusiva que o alemão atribui a seu trabalho? Tão logo o Estado o arranca dele, esse homem tão arrogante diante de seus colegas ou de seus concorrentes não pensa em outra coisa senão em obedecer passivamente à disciplina. Entrega-se com confiança à força que o impulsiona, e muito naturalmente, para justificar sua obediência aos próprios olhos, glorifica o senhor a quem serve. Repete docilmente as lições que recebe dele, consagra-se à apologia de sua conduta, aceita todas as suas ambições e realiza de antemão todas as suas esperanças."

*Pirenne, Victor. Lembranças do Cativeiro na Alemanha: Março de 1916 a Novembro de 1918. Edusp, 2015.

domingo, 15 de março de 2015

Uma Rede de Amigos



  São José, Carpinteiro. 
Georges de La Tour. Museu do Louvre.

A Rede de Amigos de Stefan Zweig/ Sua Última Agenda/ 1940-1942, publicação organizada por Alberto Dines, Israel Beloch e Kristina Michahelles (Casa Stefan Zweig [www.casastefanzweig.org], 2014), representa uma interessante experiência de arqueologia do saber no campo da biografia.
A partir da última agenda de endereços do renomado escritor austríaco, que, no Brasil dos anos 40, psicologicamente exausto e esgotado veio a falecer, os autores fazem uma reconstituição biográfica da rede constituída de 198 nomes que constituiam os contatos de Zweig, demonstrando a partir da comparação com outras suas agendas escritas na Inglaterra e nos EUA a progressiva redução de contatos, a medida em que o exílio e o isolamento foram se aprofundando num mundo francamente hostil à integridade moral da humanidade.
Em meio aos nomes chamou-me a atenção referência a Irwin Edman, um filósofo hoje esquecido e autor de Luz na Escuridão: Um pós-escrito ao desepero (Candle in the Dark: a postscript to despair), que publicou em 1939. Curioso com o título instigante, fui ao Google Books é encontrei esse livro escrito no calor de fatos mundiais gravíssimos. Ainda mantem a atualidade. 

Este é um trecho que refere-se à ciência:

A fé na ciência deveria talvez ser examinada em primeiro lugar, pois foi no método científico, até um quarto de século atrás, que tínhamos depositado a maior parte de nossas esperanças. A dolorosa ironia está no fato de que, dentro de certos limites, nada há que nos desiluda, e a nossa dependência do método científico tem sido mais do que justificada, na medida que para os homens  há quase nada que estejam impedidos de realizar no seu domínio sobre as coisas.
Se não há limites para o que o homem pode realizar, por outro lado resta a questão para o que o seu poder sem precedentes não deve ser usado. A ciência que era para tornar a vida bonita tem o seu lado hediondo. Chovem bombas sobre cidades indefesas, bem como música celestial sobre ouvidos extasiados. Tanto produz torturas indizíveis como os prodígios da arquitetura moderna. A ciência traz aos nossos lares os acordes elegantes de uma afinada música de câmara, mas também a voz de demagogos e de ditadores.
A ciência que nos dá abundância não impede a fome em meio à abundância. Se a ciência nos dá vida mais longa, também nos dá morte mais rápida.A cirurgia recupera maravilhosamente homens destroçados, com precisão igualmente maravilhosa.  Somos capazes de realizar transformações incríveis de recursos incalculáveis, e demonstramos que podemos alcançar tudo, exceto a segurança e a paz. Enquanto campos de grãos e rebanhos de ovelhas são destruídos, químicos talentosos inventam substitutos para o pão e a lã. A mesma capacidade infinita que pode tornar o mundo mais justo, é a mesma usada para nos destruir.
  
O link para acesso é: http://tinyurl.com/ktxypoj

 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Nietzscheanas

O que distingue o nosso século XIX não é a vitória da ciência, mas sim a vitória do método científico sobre a ciência.

O conhecimento terá, em uma espécie superior de seres, também novas formas, que agora ainda não são necessárias.




domingo, 27 de janeiro de 2013

O Dia do Holocausto com Tamara Kamenszain



No dia da Memória às Vítimas do Holocausto (Yom Hashoá), lembrei da poesia de Tamara Kamenszain. É poeta argentina de larga influência, traduzida em várias línguas, que descende de judeus russos e romenos. Já não lembro em que sebo paulista e quando adquiri "O Gueto", edição brasileira em pequeno formato para encarte. 
A autora não viveu os horrores dos pogroms e das guerras, senão pela memória oral que as histórias de família legaram. Entretanto, como guardiã dessas dores e pelo filtro de uma poesia densa, dura e sofisticada, Tamara alcança momentos de rara reflexão sobre um drama que não é apenas étnico na bacia dos preconceitos europeus, mas de alcance universal. 
O Holocausto da II Guerra Mundial não é uma ilusão ou fato corriqueiro na História, como querem alguns fazer crer ultimamente. Foi o momento em que o Homem conjugou as mais poderosas forças de seu intelecto - a ideologia, a técnica e a tecnologia - para destruir em escala industrial culturas e povos.
Sua existência nos desafia para a conclusão de que sua possibilidade só aconteceria no estágio de pleno desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo moderno, no cenário de permanente disputa entre estados nacionais com pretensão hegemônica mundial.  Seu legado moldou gerações e futuro.
Mas vamos ao poema de Tamara Kamenszain, onde fiz pequeno ajuste, por discordar da versão oferecida pelo livro.

GENTIOS

Deus escreve a diferença
no espelho da desordem genética
se me olho desconto meu duplo
se te vejo acrescento tua metade.
Diferença idêntica
faz rir de tanto nos parecermos
àrea à semita judia e ariano
loucos soltos fechados juntos
protegidos sob a intempérie à distância
como animais ante seu próprio enterro
disperso nas amplitudes do campo
Nesse lugar descampado
nesse perímetro que nos concentrava
eu sou aquela que morreu por ti
e por tua gentileza ainda sou
a que te deixou
                        morrer.
Deus nos arquivará distintos
em seu livro dos parentescos
no velho eu você no novo
dois testamentos na fossa comum
e depois
              que nos identifiquem.



domingo, 26 de agosto de 2012

Jorge Luis Borges e o Conhecimento

"...En aquel Imperio, el Arte de La Cartografia logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa Del Imperio, toda una Provincia. Com el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaran un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente com él. Menos Adictas ao Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguintes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y de los Inviernos. Em los Desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruínas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra relíquia de las Disciplinas Geográficas.

SUÁREZ, MIRANDA: Viajes de varones prudentes,
Libro Cuarto, Cap. XLV, Lérida, 1658."

Conforme publicado no livro El Hacedor (Obras Completas. Vol 2. Emecé, 2a. ed: 2009).

Borges é mestre em criar labirintos mentais. Nesse pequeno parágrafo ele alude ao erro e à falibilidade científica por desajuste metodológico. É o quanto nos basta ver em algumas obras antigas, que ao analisarem uma questão científica nos apresentam conclusões não raro fantasiosas. Mas a ciência também requer da fantasia alguma forma superior de abstração que anime a hipótese. Formular a proporção com que esses ingredientes contribuem para o conhecimento, não prescinde da advertencia de Paracelso no século XV: A diferença entre o remédio e o veneno é a dose.
  

  

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Ciência em Si



Hoje completa anos um dos mais criativos compositores da música brasileira. A inquietude filosófica do soteropolitano Gilberto Gil levou-o, no nascedouro do século XXI, a gravar um de seus mais belos discos: Quanta. Nele estão registradas suas reflexões sobre ciência, tecnologia e inovação. Essa é a mensagem de Ciência em Si, cuja autoria divide com Arnaldo Antunes.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

As Histórias em Quadrinhos Vão ao Museu

HQ representa um instrumento interessante para a difusão do conhecimento. Nos últimos anos tem sido frequente o lançamento de livros na forma de narrativa gráfica, abordando diferentes temáticas, desde temas filosóficos, de história e de ciência a biografias. Este acesso que descobri na rede mundial de computadores, enquanto buscava hoje um outro tipo de fonte bibliográfica, interessa principalmente aos fãs do gênero. Divirtam-se no  The Digital Comic Museum

domingo, 17 de junho de 2012

Literatura, Saúde e Doença na Amazônia

Ora, entre as magias daqueles cenários vivos, 
há um ator agonizante, o homem. 
O livro é, todo ele, este contraste.
(Euclides da Cunha: Prefácio a Inferno Verde/ 
Cenas e Cenários do Amazonas 
[Alberto Rangel. Genova, 1908])

A literatura não científica representa uma fonte de informações sobre a situação de saúde em determinada época. Utilizar autores não necessariamente "científicos" constitui-se em excelente ferramenta didática. Questões de saúde e a doença estão presentes em autores célebres como Balzac, Shakespeare, Camões, entre outros. Na prosa da Amazônia, por exemplo, a leitura atenta dos autores revela alí e acolá as condições sanitárias da região, onde há clara prevalência das doenças infecciosas e da pobreza, e uma esmagadora desassistência motivada pelo vazio tecnológico, a insuficiência de recursos e a falta de uma política de saúde que fosse de inspiração cidadã, não indigente.
É o que reflete o romance O Rio Corre Para o Mar, do hoje quase esquecido - injustamente - Nelio Reis (Editora A Noite. Rio de Janeiro, 1941):
"Há quase um mês era assim, desde o dia da sua ida para os lados do Igapó das Velhas, lugar clélebre e temido. Impaludismo  chegou alí parou!, diziam todos, batendo na boca esconjurando e benzendo-se contra a sezão. Pois ela fora por lá, metera-se pelo mato de perto, porque ao menos alí tinha certeza de não encontrar alguém que se pusesse a olhá-la da cabeça aos pés, como o povo da terra dera para fazer cada vez que a via. Veio a febre depois; febrezinha de nada que passou logo. (...) No dia seguinte a febre voltou. Voltou no outro. Chica Feitiço veio e garantiu logo: maleita, sezão na certa!
- Quinino, nela, meu povo.
Mas seu Lauria da farmácia não quis vender o remédio por uma razão:
- Vocês estão doidos, então? Onde já se viu dar quinino para mulher prenha? Vocês querem matar a criança, ou o que querem?
- Mas a moça não pode ficar assim daquele jeito - objetou D. Estrela com aprovação de todos: 
- Lógico!
- Pode sim - garantiu seu Lauria. Quanto tempo falta pro troço do parto?
- Um mês.
(...)
Seu Lauria então cortou a coisa pela raiz:
- É isso mesmo. Não deem quinino para ela. Deixem vir o trololó primeiro, depois sim.
E não vendeu o remédio."
Encerro essa reflexão com a narrativa do recentemente falecido Armando Mendes, registrada com precisão, em palavras não desmedidas nem caudalosas, no memorialístico A Cidade Transitiva / Rascunho de recordância e recorte de saudade da Belém do meio do século (Imprensa Oficial do Estado. Belém, 1998):
"Anciãos Precoces
Também não é preciso recorrer a rigorosas pesquisas, baseadas em minuciosas séries históricas dos indicadores sociais, para perceber que a esperança de vida, em Belém, nos anos 40 e 50, eram sensivelmente inferior à atual. E assim no Brasil. Como lembra meu irão Oswaldo, os repórteres não se acanhavam em chamar de anciãos pessoas que tinham chegado aos 50 anos: "Ao atravessar a rua, o ancião Não Sei Quem, 52 anos incompletos, foi atropelado e morto..." 
E a mortalidade infantil, a morbidade e a mortalidade em geral eram bem superiores aos índices de hoje, por menos brilhantes que estes sejam. Casal de "remediados", isto é, de classe média, de nossas relações, para relatar só um ilustrativo caso real, havia perdido dois filhos recém-nascidos. Mas as fotos dos "anjinhos", em seus pequenos caixões brancos, eram candidamente expostas na sala de visitas, junto às dos irmãos que vingaram, aliás vivos e sãos até hoje - coisa que sempre me impressionou sobremodo, a ponto de não a ter esquecido jamais.
A hanseníase, alías, a "lepra", ainda era um terror bastante generalizado nos subúrbios e no interior. Mas não só entre pobres. Já falei no caso dos cantores líricos Ulisses e Helena Nobre. A lembrar também o poeta Antonio Tavernard. As doenças infantis, inclusive a poliomielite, grassavam e matavam. E a simples leitura do obituário que os jornais publicavam rotineiramente é suficiente para dizer, por exemplo, como eram numerosos os casos de falecimentos por meningite e tuberculose, sem falar no onipresente impaludismo, malária, maleita ou sezões. 
Os que sofriam do "peito"eram muitos. O clima era considerado hostil à saúde, especialmente aos brônquiso e pulmões. Faziam-se "pneumotórax" com notável frequência. Médicos importantes da época eram tisiologistas ou "pneumologistas", como Epílogo de Campos e Luiz Romano da Mota Araújo. Este último, inclusive, procurou desfazer o preconceito existente contra o clima da Cidade. 
A tese versa, precisamente, sobre O Clima de Belém e o Tratamento da Tuberculose Pulmonar. Para ele, contrariando idéias arraigadas, "A tuberculose é doença da hipoalimentação: as nossas classes pobres alimentam-se mal: a tuberculose campeia, e vai ceifando vidas a granel". Tese comentada pelo seu sobrinho, Roberto Santos, que chama a atenção para a hipótese de que, provavelmente, as famílias econômica e socialmente decadentes, por força da prolongada crise da borracha, estariam a esse tempo sentindo crescentemente o ataque do bacilo de Koch por semelhantes causas, ligadas a carências.
Os mais abonados, ignorando o argumento do Dr. Luiz Araújo, mandavam os seus familiares enfraquecidos para temporadas de repouso, cura ou recuperação, na Serra de Guaramiranga, no Ceará (Jacques Flores escreveu uma crônica relatando uma ida até lá), ou na de Garanhuns, em Pernambuco, ou ainda em Belo Horizonte, ou em Campos do Jordão, ou mesmo na Europa.
Em compensação, não se ouvia falar em cólera ou dengue, e muito menos AIDS, que viria a ser dianosticada muito tempo depois. Mas havia, sim, extensamente, "doenças de massa", em especial nos arredores da Cidade, à época menos extensa e não saneada."

*****

domingo, 27 de maio de 2012

Sabedoria Rabínica


Rabi Eleazar, filho de Azarias, disse: Podemos passar sem a ciência, mas não sem a inteligência; e quando sem a inteligência, de jeito algum passaremos sem a ciência. Porque até se pode ficar sem pão, mas não sem a Torah; e quando sem a Torah, de modo algum sem pão.

(Máximas Rabínicas. Livro III, 21)

Moral da história: Ciência, inteligência, Torah e alimento são imprescindíveis ao homem.

Adaptado do francês pelo blogger, a partir de citação de Joseph Toledano em Une Histoire de Familles. Editions Ramtol. Jerusalem, sd.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Kabuki - Viagem à Memória e a Construção do Objeto

Capa do catálogo da exposição

A construção do objeto do conhecimento se dá por sucessivas aproximações.
 
 A primeira notícia que tive do teatro Kabuki foi nos meados dos anos 70. Na época formava com Rômulo Paes, Antônio Carlos de Andrade Monteiro e Elias Israel um pequeno grupo de jovens secundaristas interessados em cinema, que tomaram para si a responsabilidade de organizar e conduzir um pequeno cinema nas dependências do Serviço Social do Comércio (SESC), no qual, além da projeção da película em cartaz, fosse garantido à platéia algum debate, de preferência com a presença de algum crítico ou professor universitário. Era uma forma de nos formarmos e também de contribuírmos para a formação de uma platéia em cinema, entre comerciários.
Embora sofressemos vigilância institucional, para evitar qualquer incidente com filmes pouco palatáveis à ditadura militar - então estávamos no governo do general Geisel -, conseguíamos regularidade e títulos interessantes, projetados na técnica hoje antiga, em máquina de projeção mecânica para bitola 35 mm, obrigando a troca dos rolos e as vezes a emergência de emendar o celulóide de súbito rompido. 
Foi um belo tempo de formação. Mas não lembro exatamente como chegamos a projeção daquele documentário sobre o teatro Kabuki, que é expressão milenar do teatro japonês, representado até hoje exclusivamente por atores por determinação de decreto imperial, ainda que na origem tenha sido criado e interpretado por atrizes. Quem sabe o fornecimento do filme tenha sido algum gesto de cooperação e amizade do Consulado Geral do Japão, em Belém, capital brasileira que possui uma comunidade japonesa expressiva desde os meados do século XX.
Estimulado pelo que assisti, procurei aprofundar a informação recebida, contudo sem obter muito êxito diante da excentricidade ou do exotismo do tema para a época, nas bibliotecas da cidade paraense. Nos anos seguintes, entretanto, na medida em que o ambiente de informação cultural foi se ampliando pelo território quase continental do Brasil, sempre havia em alguma revista ou jornal uma ou outra reportagem sobre teatro Kabuki, que eu logo reunia aos fragmentos da experiência vivida no antigo cineminha do SESC, como fosse um dos tantos cacos de uma xícara incompleta, deixada na mesa da memória.
Então nesses últimos dias de férias, eu caminhava no metrô e minha esposa me chamou a atenção para um poster com a informação de que na sede da Fundação Pierre Bergé - Yves Saint Laurent estava em cartaz, de 7 de março a 15 de julho, a exposição Kabuki: Costumes du Théâtre Japonais. Confesso que de início não animei muito, mas a perseverança da descobridora do anúncio, lembrando-me de seu interesse no evento, levou-nos três dias depois à exposição dos trajes teatrais.
Pois fiquei maravilhado com a exuberância da exposição; sumarizada nos 30 exemplares de vestimentas trazidas do Japão até Paris. E desse espetáculo saí com a certeza de que havia acrescentado uma importante parte nas minhas lembranças começadas no SESC de Belém. Hoje estou com a certeza de que a última parte que corporificará a tal xícara fragmentária do Kabuki na minha memória, seu desencantamento como objeto do conhecimento, será assistir ao vivo uma peça dessa grande manifestação cultural da humanidade.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Vamos Plantar Estrelas

Então, vai...
Joga fora os teus números
Joga fora os teus relógios
Joga fora o amanhã
Ei, Akira!
Vamos plantar estrelas no campo

*

Nanao Sakaki (1923-2008)

poeta e sábio taoísta contemporâneo

So, go on.../ Throw away your numbers/ Throw away your clocks/ Throw away tomorrow/ Hey, Akira!/ Let's plant stars in the field.

Tradução/interpretação do blogueiro.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

De Preguiçosos, Bestas e um Esperto que Seria Doido.

Estava no conforto de casa, quando atendi ao convite de um amigo, de passagem por Brasília-DF, para que juntos jantássemos. A companhia e a comida alemã combinaram a decisão. Porém, antes de chegar ao restaurante, resolvi ir ao super-mercado e comprar umas pilhas para fazer funcionar uma lixeira eletrônica de 50 litros, item esse reputado como de luxo exorbitante pela imprensa brazuca, e que motivou a renúncia do reitor de umas das mais importantes universidades brasileiras, sob a alegação de comportamento perdulário.
Tudo, essa e outras alegações, conformavam na verdade uma embrulhada para servir à luta de facções políticas na sucessão universitária. Para aquele reitor, detentor de um cargo público cobiçado, a traquitana tecnológica fora reputada como coisa de milionário, quando para mim, três anos depois, seria vendida por 170 reais no tal do Sam's Club. Mas esse parentese não representa o mote da glosa, que tem na imprevisibilidade do homem para fazer valer seu senso de oportunidade a razão de ser.
Pois bem. Escolhidas as pilhas, fui à fila para pagá-las. Os caixas-rápidos se reduziam a uma só, que extendia-se por duas fileiras de gôndolas, tal qual as duas outras - dentre as quais incluia-se a preferencial para idosos, gestantes e clientes com deficiência física. Como sou estranho às três categorias de clientes, escolhi aquela que prometia ser mais célere.
Pois ali estava enfileirado bovinamente, quando de súbito o estrondo de um tapa sobre uma mesa despertou da sonolência o gerente com uma cara de quem viu assombração. Um brutamontes gritou com o o seu carão a um palmo da fuça gerencial:
Manda abrir outra porra de caixa, que não quero mais esperar! Sou maluco e estou armado !!!
O gerentinho de súbito ágil nem titubeou, e por graça nem teve a idéia de cobrar algum atestado que comprovasse a justificativa do cliente, ou perguntar se havia algum médico presente no recinto como é praxe nas companhias aéreas, sempre que alguém passa mal. Prestativa a gerência logo providenciou a abertura de outro caixa, com a concorrência de uma funcionária que por ali namoricava um empacotador, ambos por igual enrolando no serviço.
Atendido o auto-proclamado maluco, depois dele formou-se uma fila meio tímida no caixa improvisado, a qual integrei sem pestanejar, pois não podia perder mais tempo ali, nem o do meu amigo que me aguardava para jantar. Mas ainda houve tempo para lembrar de que, quando menino, em Belém, era comum algum desordeiro alegar em seus desatinos que não adiantaria chamar-se a polícia, porque nada aconteceria com alguém com atestado do Hospício Juliano Moreira - documento que aliás nunca se veria, embora alguns alegassem que seria firmado por um certo doutor Durvalino - personagem fictício decerto calcado na existência de homônimo professor de Psicologia Médica, que eu viria encontrar anos depois na faculdade.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Leitores

Eu sempre pergunto sobre qual a justa homenagem para quem é leitor. Pois hoje encontrei um texto que me deixou emocionado e satisfez a minha dúvida. Transcrevo-o para que vocês também apreciem a leitura. Foi escrito por um dos grandes escritores brasileiros contemporâneos, ainda que pouco divulgado e já desaparecido tão precocemente.

Leitores

Mal os percebemos os que nos leem.
Noturnos em suas camas sozinhas, claros ao sol dos parques, curvos nas bibliotecas de Babel e da Conchichina, nos reinventam os sonetos desperados, redizem o dizer já dito, mas com tal tamanha invenção que incendeiam, ah como incendeiam, os textos exangues - de heróica desesperança.
Não importa se de enlevo a tua cara branca no vidro da janela; ainda és, mesmo assim, a intangível margem dos livros fátuos, e os parágrafos mortos de medo.
Trêmulo me agarro a um decassílabo perfeito. Tonto de ternura, as mãos insones, vos advinho e a vós me dedico com um luxo que decididamente não é meu nem me pertence.
Animal de pequeno porte, uivo.
Examino a lombada dos livros eternos, gravadas a ouro e cristal; você cochicha na sala a canção que um dia foi minha. És assim, a reescrever o duas vezes lido porque escrito; o reescrito porque ainda outra vez lido.
E é de amor, sim, de indecifrável amor, o nosso enlace.

Wilson Bueno (1949-2010)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Os Ditadores, a Estabilidade e o Mercado




















Fortaleza Qaitbey (Alexandria, Egito) por Itajaí de Albuquerque


A revolta popular no Egito constitui o mais importante fato da política internacional no início desse século. A depender de sua evolução seus resultados poderão impactar o equilíbrio regional e mundial. Ainda ontem o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter, em conferência na Universidade Estadual da Georgia, orientou suas considerações nesse sentido. Considero que a crise política do Egito é o fato mais importante, desde que deixei a Casa Branca em 1981, disse ele.
Por sua vez, Fawaz Gerges, professor da prestigiada London School of Economics, disse a BBC que a crise influenciará tanto a economia mundial quanto a do Oriente Médio, e especialmente a do Egito, visto que o país tem no turismo o principal vetor de sua economia.
Sem dúvida as primeiras consequências incidirão sobre a sociedade egípcia, advindas do enfraquecimento ou paralização do fluxo turístico. Neste último final de semana, os governos de vários países europeus e os EUA advertiram seus cidadãos de que evitem o Egito como destino de viagem, à vista da grave instabilidade política alí reinante. Ainda hoje agência de notícias russa informa que empresas locais de turismo deixaram de oferecer pacotes de viagem que incluam os tesouros arqueológicos egípcios.
Na entrevista do professor Gerges, o mais interessante é sua definição de que em termos de Oriente Médio o mercado trabalha sempre com duas variáveis conjugadas: ditaduras e estabilidade política-econômica. Porém, segundo ele, se o desfecho da crise egípcia apontar para a estabilidade, a democracia poderá revigorar a economia e garantir a credibilidade do Egito no mercado dos países hegemônicos.

sábado, 29 de janeiro de 2011

V e o Bloqueio da Internete


















Imagem que circula na blogosfera, à propósito do governo egípcio ter bloqueado o acesso à internet, para controlar a revolta popular que pede democracia no país.

domingo, 14 de novembro de 2010

Major Tom para Controle de Terra - 1

Major Tom Para Controle de Terra - 2

David Bowie logo após assistir o clássico 2001 - Uma Odisséia no Espaço compôs em 1969 a música Space Oddity, que é um de seus grandes sucessos. A canção narra a comunicação entre um fictício astronauta com um centro espacial na Terra e o insucesso da missão: por razões não reveladas, intui-se que o major Tom flutuará para sempre no espaço do orbital terrestre.
Nessa altura os norte-americanos já haviam tomado a dianteira da corrida espacial, deixando a pioneira União Soviética, arqui-inimiga na Guerra Fria, para trás em solitário segundo lugar. Entretanto, à conquista da Lua, ocorrida em 1969, seguiram-se só mais cinco missões tripuladas e bem sucedidas da NASA, que depois as encerrou devido a brutal crise econômica do petróleo imposta pelos países árabes (aumentos de 300% no preço do barril), e também pelos limites tecnológicos que exigiam tempo e recursos incalculáveis para, com êxito, estabelecer bases ou explorar economicamente os recursos minerais de nosso satélite.
Space Oddity, a não menos bela Rocketman (Elton John e Bernie Taupin) e a tardia Major Tom (Peter Schilling) representam a impressão da corrida espacial na poesia da música popular, em diferentes momentos e com a singularidade do olhar desses compositores. Recomendo assim que usufruam da interpretação de Bowie e da letra aqui encartada. Um bom domingo para todos (as).

Space Oddity

Ground control to major Tom
Ground control to major Tom
Take your protein pills and put your helmet on
(Ten) Ground control (Nine) to major Tom (Eight)
(Seven, six) Commencing countdown (Five), engines on (Four)
(Three, two) Check ignition (One) and may gods (Blastoff) love be with you

This is ground control to major Tom, you've really made the grade
And the papers want to know whose shirts you wear
Now it's time to leave the capsule if you dare

This is major Tom to ground control, I'm stepping through the door
And I'm floating in a most peculiar way
And the stars look very different today
Here am I floatin' 'round my tin can far above the world
Planet Earth is blue and there's nothing I can do

Though I'm past one hundred thousand miles, I'm feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell my wife I love her very much, she knows
Ground control to major Tom, your circuits dead, there's something wrong
Can you hear me, major Tom?
Can you hear me, major Tom?
Can you hear me, major Tom?
Can you...
Here am I sitting in my tin can far above the Moon
Planet Earth is blue and there's nothing I can do

sábado, 13 de novembro de 2010

Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos

Ler Lima Barreto representa a chance de mergulharmos nas primeiras décadas republicanas do Brasil, que adentrara no século XX trazendo consigo o legado excludente de uma sociedade escravagista, que, oficialmente, entre 1811 e 1870 fora responsável pela importação de 60% de todos os escravos expedidos para as Américas*.
Neste mês a editora CosacNaify lançou uma edição bem cuidada do Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos**, que apresenta as dores morais desse autor fluminense em suas internações nos hospícios cariocas, devido às alucinações que experimentava por conta do etilismo desregrado.
Esses livros únicos e incompletos demonstram perfeitamente o quanto as diferenças, os preconceitos e os vieses de classe em sociedades excludentes - em que a saúde sequer é direito e a doença não raro vista como defeito ingênito -, adentram suas instituições e consolidam as raízes da desigualdade social. D' O Cemitério dos Vivos, transcrevo aqui alguns de seus mais pungentes parágrafos:

Entrei no hospício no dia de Natal. Passei as famosas festas, as tradicionais festas de ano, entre as quatro paredes de um manicômio. Estive no pavilhão pouco tempo, cerca de vinte e quatro horas. O pavilhão de observação é uma espécie de dependência do hospício a que vão ter os doentes enviados pela polícia, isto é, os tidos e havidos por miseráveis e indigentes, antes de serem definitivamente internados.

Em si, a providência é boa, porque entrega a liberdade de um indivíduo, não ao alvedrio de policiais de todos os matizes e títulos, gente sempre pouco disposta a contrariar os poderosos; mas à consciência de um professor vitalício, pois o diretor do pavilhão deve ser o lente de psiquiatria da faculdade, pessoa que deve ser perfeitamente independente, possuir uma cultura superior e um julgamento no caso acima de qualquer injunção subalterna.

Entretanto, tal não se dá, porque as generalizações policiais e o horror dos homens da Relação às responsabilidades se juntam ao horror às responsabilidades dos homens do pavilhão, para anularem o intuito do legislador.

A polícia, não sei como e porquê, adquiriu a mania das generalizações, e as mais infantis. Suspeita de todo o sujeito estrangeiro com nome arrevesado, assim os russos, polacos, romaicos são para ela forçosamente cáftens; todo o cidadão de cor há de ser por força um malandro; e todos os loucos hão de ser por força furiosos e só transportáveis em carros blindados.

Os super-agudos homens policiais deviam perceber bem que há tantas formas de loucura quanto há de temperamentos entre as pessoas mais ou menos sãs, e os furiosos são exceção; há até dementados que, talvez, fossem mais bem transportados num coche fúnebre e dentro de um caixão, que naquela antipática almanjarra de ferro e grades.

É indescritível o que se sofre ali, assentado naquela espécie de solitária, pouco mais larga que a largura de um homem, cercado de ferro por todos os lados, com uma vigia gradeada, por onde se enxergam as caras curiosas dos transeuntes a procurarem descobrir quem é o doido que vai ali. A carriola, pesadona, arfa que nem uma nau antiga, no calçamento; sobe, desce, tomba pra aqui, tomba para ali; o pobre-diabo lá dentro, tudo liso, não tem onde se agarrar e bate com o corpo em todos os sentidos, de encontro às paredes de ferro; e, se o jogo da carruagem dá-lhe um impulso para frente, arrisca-se a ir de fuças de encontro à porta de praça-forte do carro-forte, a cair no vão que há entre o banco e ela, arriscando a partir as costelas... Um suplício destes, a que não sujeita a polícia os mais repugnantes e desalmados criminosos, entretanto, ela aplica a um desgraçado que teve a infelicidade de ensandecer, às vezes, por minutos...

* Almeida, Paulo Roberto. Formação da Diplomacia Econômica no Brasil. Senac. São Paulo, 2001.

** Prefácio de Alfredo Bosi. Organização e notas de Augusto Massi e Murilo Marcondes Moura.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Nunca É Demais Repor o Demasiado

Por que não te calas? A pergunta foi feita hoje, em França, por um plebeu zapatista a José Serra, candidato derrotado à Presidência da República nas eleições de 2010. A interrupção aconteceu no momento em que o tucano recalcava críticas genéricas contra o presidente Lula, levando Serra a perder a pose de Rei de Roma, de todos os mares, de todos os rios, dos sertões et urbes brasiliensis.

terça-feira, 26 de outubro de 2010