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sábado, 28 de março de 2015

Ciência e Religião: Uma Longa Incomunicabilidade


Conhecimento evolui, mas há momentos em que o cenário antigo convive com o novo, que aos poucos vai se consolidando no território das idéias. No século XVII a Medicina já vivia a aurora de uma verdadeira revolução científica com a divulgação dos trabalhos experimentais de Harvey, que elucidaram a fisiologia da circulação sanguínea; de Lavoisier com a descoberta do Oxigênio e de Hooke e van Leeuwenhoek, que, ao desenvolverem o microscópio ótico, ampliaram a compreensão da vida para além da dimensão macro dos fenômenos.  
Os avanços prosseguiram de forma consistente com o Iluminismo no século XVIII. Morgagni, por exemplo, publicou em 1779 um longo trabalho de investigação anatômica  em três volumes - The Seats and Causes of Diseases - que buscava correlacionar a história clínica de uma série de casos com os achados anatomicos encontrados nos cadáveres. Por isso é considerado o pai da anátomo-patologia. Laënnec, que tinha entre seus livros o Commentaires de Aphorismes de Medicine, de Boerhave, um diálogo entre anatomia e a fisiologia  da época com os princípios hipocrático, além de clínico notável e piedoso inventou o estetoscópio que até hoje é usado na avaliação médica de rotina.
Se o novo sempre vem, assim diz a música quase em tom de consolo, por outro, o que será ultrapassado durante algum tempo persiste teimoso, empedernido e ultrapassável.
É o caso deste Porque De Todas As Cousas (El porqué de todas las cosas), escrito por André Ferrer de Valdecebro, dublê de padre e naturalista, publicado ainda no século XVII, mas com longa carreira de edições como demonstra esta tradução portuguesa do século XIX. O objetivo desse trabalho é explicar o mundo do ponto de vista moral,  negando-se a qualquer diálogo transversal com o conhecimento científico produzido e acumulado por outras disciplinas como a biologia, a física, a química e a anatomo-fisiologia. Quem sabe por essa razão o padre Victorino José da Costa, convencido da caduquice do trabalho, tenha preferido adotar prudentemente o  pseudônimo Manoel Coelho Rebello para assinar a tradução do livro...
Para avaliarmos a imensidão desta incomunicabilidade recalcitrante, imaginemos o impacto dessa argumentação retrógrada e refratária ao novo sobre quem fosse buscar saber sobre o baço, por exemplo, no quiz de Valdecebro:

" Porque temos Baço?"
" Por que nelle se recolhe o humor melancólico; e porque recebe as superfluidades das estranhas."
" Porque são delgados os que tem muito Baço, e gordos, os que tem pouco?
" Porque o muito recolhe a humidade, que gera a gordura; o pouco não a pode recolher, e se converte em gordura."
Levou tempo para a Igreja Católica fazer as pazes com a ciência, como hoje podemos verificar nas opiniões do atual Papa Francisco.

sábado, 15 de junho de 2013

Hanseníase: A Negligência Está Marcada no Genoma


Utilizam-se no tratamento da Hanseníase os mesmos medicamentos, os métodos de diagnóstico e o mesmo modelo experimental, há décadas. No jargão técnico dessa doença é impossível encontrar termos como vacinas, biosimilares, métodos para diagnóstico precoce e modelos experimentais geneticamente modificados.  Por essa razão o Mal de Hansen é classificado como doença negligenciada pelos governos e pelos riquíssimos fundos privados que financiam pesquisas científicas nos países hegemônicos do hemisfério norte, apesar do agente causador da doença, o Mycobacterium leprae, ter sido identificado em 1873 e, desde então, elucidado seu mecanismo silencioso e alongado de infecção. 
A lógica cruel é de que o investimento numa linha de pesquisa e desenvolvimento tecnológico nessa área dificilmente atenderia a agenda de saúde dos países ricos, com maior carga centrada nas doenças crônicas não infecciosas, ficando a potencial inovação quase que relegada a fatia do mercado farmacêutico dos países pobres e em desenvolvimento, com características de menor rentabilidade segundo as pouco transparentes fórmulas que calculam a remuneração do valor agregado das tecnologias novas de saúde. Para os acionistas e as bolsas de valores internacionais que pregoam as ações das companhias farmacêuticas, é de menor relevância que nos últimos 20 anos cerca de 14 milhões de seres humanos tenham sido tratados de uma doença que, sem dúvida, impacta o desenvolvimento econômico de seus países e está nitidamente vinculada com o ciclo geracional de pobreza.
Pesquisas recentes, porém, têm revelado uma evidência que redimensiona a tibieza com que a ciência tem atendido a Humanidade em luta milenar contra a Hanseníase. A partir do mapeamento do genoma de M. leprae, coletado de múmias européias da Idade Média, pesquisadores decidiram buscar resposta para uma pergunta que responderia qual o nível de dificuldade para o advento de novas terapêuticas para a doença: Em sendo o Mal de Hansen uma doença da Antiguidade, com exemplos citados entre os povos do Velho e Novo Testamento, teriam acontecido mutações nesse microrganismo ao longo dos milênios? 
A resposta foi iluminadora. O genoma do M. leprae dos dias de hoje é exatamente igual ao do espécime que infectou as múmias medievais. Ele está imutável, há milênios, à espera de que algum Hansen da pós-modernidade o desafie novamente. Mas a exploração da genética dessa bactéria revelou dois outros fatos esclarecedores, o de que a doença foi transportada ao continente americano pelo colonizador europeu e, segundo, que houve de fato uma grande mutação, entretanto no genoma humano, que teria conferido a algumas populações a competência de resistir à infecção, explicando assim o porquê  da Hanseniáse haver "sumido" da Europa Ocidental na Época das Cruzadas.
Detalhes da investigação sobre o genoma do Mycobacterium leprae podem ser encontrados na Science desta semana.


Vaidade Teu Nome Pode Ser Ciência

Um dos grandes momentos da ciência brasileira no século XX foi a definição da causa biológica da Febre das Tricheiras (Tifo Epidêmico), que dizimou milhares de soldados durante a Primeira Guerra Mundial.  A descoberta do agente etiológico - bactérias do gênero rikettsia -  pelo clínico e pesquisador Rocha Lima chegou a bem posicioná-lo na disputa pelo Prêmio Nobel de Medicina. Entretanto sua candidatura malogrou em alcançar a grande honraria, envolvido que foi na crescente e diversificada polarização entre França e Alemanha pela hegemonia científica mundial. 
Acontece que Rocha Lima era um declarado germanófilo, por formação vinculado a grupos de cientistas tedescos e, ao seguir tão inconsteste nessa direção ideológica, terminou traído pelo destino nos tumultuários anos 30, com a chegada ao poder na Alemanha do partido nacional-socialista alemão. Ao contrário de um Von Braum, que, terminada a II Guerra, virou a casaca nazista e entrou para a história da ciência como o "pai da era espacial" dos EUA, Rocha Lima desceu aos infernos num país subdesenvolvido que ansiava por se livrar do ranço da ditadura Vargas, em seguida ao final da Segunda Guerra Mundial com a derrota militar, econômica, política e moral da Alemanha. 
Nesse pós-guerra imediato de tantas incertezas, com a imagem consorciada a um Estado estrangeiro que desenvolvera programa tecnológico para a matança de povos não considerados gente por taxonomia pseudocientífica, e que, nessa infame missão de desumanização, também rasgara todos os códigos de ética, inclusive o da pesquisa científica, Rocha Lima viu-se progressivamente mergulhado no ostracismo por seus contemporâneos, assistindo sua obra ser praticamente obscurecida, não fosse algumas raras e temporalmente esparsas homenagens pela sua contribuição à ciência global. 
A medalha que recebera com tanto orgulho das mãos de Adolf Hitler - tratava-se da mais alta honraria da ciência alemã concedida a um estrangeiro, e por um regime político xenófobo quase ao modo de prêmio de consolação pela perda do Nobel - custar-lhe-ia bem caro para a biografia. Quem sabe nessa ocasião nem fosse simpatizante do nacional-socialismo, talvez fosse alguém que ao participar desse ato de extrema gravidade - Mein Kampf fora publicado e se tornara canônico na política alemã! -, ao modo tão imprevidente quanto o foram seus pares nas instituições de ensino e pesquisa germânicas, imolava-se numa fogueira atiçada pela vaidade científica ferida. 
Recentemente este capítulo da história da ciência brasileira foi objeto de tese de doutorado do historiador André Felipe Cândido da Silva, com o título Um Brasileiro no Reich de Guilherme II: Henrique da Rocha Lima, as relações Brasil-Alemanha e o Instituto Oswaldo Cruz, 1901-1910.  

domingo, 26 de agosto de 2012

Jorge Luis Borges e o Conhecimento

"...En aquel Imperio, el Arte de La Cartografia logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa Del Imperio, toda una Provincia. Com el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaran un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente com él. Menos Adictas ao Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguintes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y de los Inviernos. Em los Desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruínas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra relíquia de las Disciplinas Geográficas.

SUÁREZ, MIRANDA: Viajes de varones prudentes,
Libro Cuarto, Cap. XLV, Lérida, 1658."

Conforme publicado no livro El Hacedor (Obras Completas. Vol 2. Emecé, 2a. ed: 2009).

Borges é mestre em criar labirintos mentais. Nesse pequeno parágrafo ele alude ao erro e à falibilidade científica por desajuste metodológico. É o quanto nos basta ver em algumas obras antigas, que ao analisarem uma questão científica nos apresentam conclusões não raro fantasiosas. Mas a ciência também requer da fantasia alguma forma superior de abstração que anime a hipótese. Formular a proporção com que esses ingredientes contribuem para o conhecimento, não prescinde da advertencia de Paracelso no século XV: A diferença entre o remédio e o veneno é a dose.
  

  

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Médicos nas Guerras

placamedicos by Itajai de Albuquerque
placamedicos, a photo by Itajai de Albuquerque on Flickr.

Em certa medida a mortalidade entre equipes de saúde, escaladas para atuar em um conflito armado nacional, ainda é um assunto mal explorado. A maioria dos artigos sobre o tema discute a influência das guerras no desenvolvimento da Medicina, ou correlaciona o impacto deste na mortalidade das tropas nos campos de batalha, ou na assistência às populações do território onde se desenrola enfrentamento bélico.  
Nesse sentido, a exemplo, observa-se que a mortalidade entre soldados da Guerra Civil Norte-Americana foi em torno de 40%, enquanto calcula-se que na Guerra do Iraque fique  em torno de 10%.
Mas, assim como os soldados e os fotógrafos de guerra, os médicos arregimentados ou contratados para atuarem nos campos de batalha se arriscam, sofrem ferimentos e perdem a vida. Para saber quantos, de que modo e em que extensão essas casualidades de guerra afetam as equipes de saúde nas batalhas, há necessidade de pesquisa que investigue bancos de dados dos diferentes conflitos armados, dispersos nos orgãos militares de diferentes países. Taí uma boa missão para os Médicos Sem Fronteiras.


sábado, 14 de abril de 2012

O Mundo Como Objeto e Representação

Fontaine des Quatre-Parties-du-Monde

The Fountain of The Observatory

 Fonte dos Quatros Continentes, por Itajaí de Albuquerque 

Adventures and Empire

Placa Comemorativa das Aventuras de Citroën. Musée des LÁrmée (Invalides), Paris.

Durante o século XIX nosso planeta ainda foi um grande desafio para o conhecimento, em especial com respeito ao interior dos continentes. A França, nessa época, desempenhou um papel de grande importância na exploração de regiões desconhecidas e quase sempre inóspitas. Foi o tempo das grandes explorações,  cabeças de ponte para o domínio global dos mercados na lógica colonialista dos Grandes Impérios, conforme descreveu Hobsbawn.
Destacam-se entre esses exploradores na Amazônia brasileira, o casal Henry (1859-1899) e Octavie Coudreau (1870-1910) - que realizaram viagens exploratórias comissionados pelo governo paraense na transição para o século XX. Henry Coudreau inclusive perdeu a vida na região, quando foi vitimado pela malária e veio a ser enterrado nas margens do Rio Trombetas, em local identificado no relatório que madame Coudreau assinou para o governo paraense.
A obra publicada desse casal de exploradores franceses da belle époque é vasta, apaixonante e cientificamente sólida, a ponto de até hoje constituir-se em referência para o estudo da região.Quem sabe os cineastas brasileiros, depois que retomaram as sagas biográficas com o filme Xingú, se interessem por filmar a epopéia dos Coudreau na Amazônia.
Ao visitar os Jardin de Louxemburg, em Paris, não pude deixar de conhecer mais adiante a homenagem dessa cidade aos aventureiros dedicados a explorar os diferentes cantos do nosso planeta, quando sequer tínhamos computador, satélites e celulares, mas tão só informações verbais conflitantes, documentos cartográficos nem sempre precisos, o amparo magnético das bússolas e muita, muita coragem temperada pelo romantismo e a visão de vida típicos da Belle Époque.
No Jardin dos Grandes Exploradores está localizada a Fonte do Observatório ou dos Quatro Continentes-, que eu considero entre as mais belas da Cidade Luz. Nessa fonte magnífica, o globo terrestre é sustentado por quatro mulheres que representam a Europa, a América, a África e a Ásia. A Oceania foi então excluída por razões unicamente estéticas. Na foto de que essa postagem é mera moldura, vemos apenas a representação da Ásia na composição. O projeto dessa obra de arte  foi concebido e desenvolvido a seis mãos, por Gabriel Davioud (conjunto), Emanuel Fremiet (os cavalos) e Jean Baptiste Carpeaux (as quatro mulheres) em 1879.
Ficamos um tempinho sentados e observando a Fonte dos Quatro Continentes, naquele fim de tarde em que o inverno parisiense anunciava sua despedida. Não pude na ocasião deixar de lembrar dos monumentos que restaram da economia da borracha em Belém, quando a municipalidade da capital paraense optara por um projeto urbano nitidamente de influência européia e à maneira de Haussmann, o projetista da Paris como hoje a conhecemos.

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1. Alguns títulos da obra de Henry Anatole Coudreau podem ser baixados dali, na Biblioteca Virtual que tem por patrono o lendário Curt Nimuendajú. Falar um pouco desse outro intérprete da Amazônia é, contudo,  conversa pr'adiante.
2. O Título da postagem remete à obra O Mundo Como Vontade e Representação, do filósofo Shopenhauer (1788-1860), que no seu início tem a famosa definição: O mundo é a minha representação. Até que ponto essa obra influenciou a geografia política do mundo, no século XIX?


terça-feira, 10 de maio de 2011

Cruzamentos do Conhecimento na Modernidade

Enquanto leio Medicine & Kindred Arts in the Plays of Shakespeare, tese de doutorado do clínico John Moyes (Universidade de Glasgow, 1896. 1a. ed.), o tuíter surpreende-me e anuncia que, pela primeira vez, pesquisadores desenvolveram modelo experimental que explica como um elemento fundamental para a origem da vida, o carbono, surge na natureza. Os resultados experimentais permitem que a produção do elemento vital seja reprodutível em ambiente extra-terrestre; nas estrelas por conseguinte.
O artigo foi publicado no Physical Review Letters: Phys. Rev. Lett. 106, 192501 (2011) , mas uma síntese pode ser lida aqui.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Terremoto de Lisboa em 1755





















Edward Paice: Terremoto de Lisboa 1755


No Dia de Todos os Santos, 01 de novembro de 1755, aconteceu um terremoto de grandes proporções na costa do Algarve, que destruiu quase toda a cidade de Lisboa. Seguiu-se um tsunami com ondas de até 20 metros, segundo relatos da época. Por conta do fervor religioso dos portugueses e a hora do cataclisma, 9:30 horas da manhã, a maioria da população estava rezando nas igrejas.
Morreram 100 mil pessoas e a família real só escapou por se encontrar em outra cidade. Ao constatar a amplitude da destruição de Lisboa, o rei nunca mais admitiu dormir em uma casa. Fazia-o no jardim em uma barraca de campanha. Lisboa foi reconstruída inteiramente pelo primeiro-ministro Marquês de Pombal.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Erotismo Científico do Doutor Goeldi

O naturalista suíço Emilio Goeldi prestou relevantes contribuições ao desenvolvimento científico brasileiro e, especialmente, em Belém, no hoje denominado Museu Emílio Goeldi - orgão vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Além da notável produção científica, Goeldi contribuiu também de forma decisiva com o Barão do Rio Branco para a coleta de evidências que permitisse a solução do contencioso diplomático do Brasil com a França, arbitrado pela Suíça, que em 1900 nos deu soberania sobre 260.000 km2, no que hoje é o Amapá.
Em termos de produção bibliográfica, a obra do cientista é extensa e diversificada em temas. Nesses tempos em que a Dengue agudiza as preocupações sanitárias, aqui aproveito para comentar de forma breve Os Mosquitos do Pará. Nessa obra, Goeldi usa de um estilo leve, quase coloquial, que hoje faria acadêmicos torcerem o nariz. Embora use o termo mosquito no título da obra, em várias passagens o cientista emprega, por exemplo, a palavra carapanã de origem indígena, ao gosto popular para descrever mosquitos na Região Norte.
Todavia, uma inusual narrativa do acasalamento dos carapanãs do gênero Culex, pela originalidade narrativa do pesquisador, aumentou-me a delícia de ler esse clássico da Entomologia:

Uma infernal música de inúmeros carapanãs fere o nosso ouvido, ao mesmo tempo que um ou outro a todo momento vem esbarrar contra o nosso rosto, com revoltante cinismo e palpável provocação. Fazendo luz percebemos ao redor de um foco luminoso, dançar e fazer frenéticas cabriolas a ímpia multidão: são duas nuvens, cada qual composta de indivíduos de um sexo somente, que esvoaçando e descrevendo caprichosas evoluções, executam, mediante o som produzido pelas vibrações das asas e halteras, uma orquestra ou choro recitativo, regida pela batuta de Eros.

(...) Cantam porque assim se fazem sentir e reconhecer a alguma distância os dois sexos. Nada mais destituído de cerimonias do que a reunião sexual: uma fêmea qualquer desliga-se subitamente das suas companheiras e aproxima-se da nuvem de machos em dança. Imediatamente é segurada por um macho e, ligados, o par afasta-se da indiscreta multidão para um canto. Não é raro esquecer-se este da mais elementar prudência: tontos esbarram contra tudo e são capazes de rolar pelo chão.

Também observei casos, onde uma fêmear caia segurada por dois machos ao mesmo tempo, dando-se o espetáculo de um formidável rolo, - indício do frenesi sexual que reina em tais bacanais. (...) Parece que a cópula sexual tem o efeito de acordar e estimular o instinto sanguinário das fêmeas.

A leitura de Os Mosquitos do Pará oferece ao leitor mais que o conhecimento da época sobre o assunto. Descontados as técnicas ultrapassadas de combate daquele tempo, e hoje superadas, no que respeita ao combate a mosquitos de importância epidemiológica, lemos que decorridos 110 anos ainda é válido o comentário de Goeldi sobre o método para diminuição ou extinção dos criadouros de mosquitos:

Óbvio é, que semelhante tática dará pleno resultado somente quando seguida à risca universalmente, sem exceção, quando a convicção das vantagens comuns for infiltrada por igual em todas as camadas sociais e constituir-se agente para o auxílio espontaneo na obra coletiva. Neste sentido benéfico efeito antevejo no bom exemplo de pessoas inteligentes, que particularmente pelas suas casas adotem a guerra racional contra os mosquitos, na propaganda dos médicos na sua clínica particular, pois eles exercem uma legítima influência e last but not least na animação que deriva da ação e iniciativa oficial quer na esfera administrativa municipal, quer na estadual.

Emilio Augusto Goeldi. Memórias do Museu Goeldi IV: Os Mosquitos do Pará. Belém , Estabelecimento Gráfico Wiegandt - Pará, 1900.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cólera: o Velho e o Novo do Mesmo

Então com indômita violência atacou a cólera toda a cidade,
varejou as casas dos ricos e pobres, as espeluncas imundas
como os palácios asseados;
antes que o mês terminasse,
podiam-se já contar sem exagero
seis a sete mil atacados,
isto é, mais de um terço da população.

(Arthur Vianna. As Epidemias no Pará. Diário Oficial, 1906)


O cólera foi descrito pela primeira vez por Robert Koch em 1883, trinta anos depois de termos os primeiros casos da doença no Brasil. A primeira epidemia brasileira surgiu em Belém, na então província do Grão Pará, em que aportara o navio Defensor, procedente de Portugal, como transporte de colonos portugueses para a Amazônia. Na ocasião, havia epidemia de cólera na Espanha e em algumas cidades portuguesas, sem contudo haver registro de sua presença na cidade do Porto, de onde o navio levantara suas âncoras em direção ao Brasil.
Segundo o clássico de Arthur Vianna (Op. cit.), as condições higiênicas de bordo eram péssimas, propício à transmissão de doenças infecciosas entre os passageiros. Contudo, apesar do governo imperial e do Pará estarem alertas sobre a epidemia de cólera na Europa, a saúde dos portos paraenses errou ao acreditar nas palavras tranquilizadoras do médico de bordo, e apiedada com a condição dos colonos, liberou o navio da quarentena e autorizou o desembarque. O erro foi gravíssimo, pois os registros de bordo evidenciavam que 36 passageiros haviam falecido de um quadro diarreico agudo e incontrolável, compatível com a clínica coleriforme.
A primeira epidemia brasileira de cólera foi, em consequência do estado da arte da ciência médica e das condições sanitárias existentes na época, uma verdadeura tragédia nacional. Rapidamente a doença se disseminou pelo país, acometendo a população das capitais e das cidades polo de atividade econômica; tanto a brancos, quanto aos escravos e índios, na cidade e no campo. Conta Lycurgo Santos Filho (História Geral da Medicina Brasileira. USP, 1991) que em Santo Amaro, na Bahia, a mortalidade foi tamanha que a administração pública autorizou a incineração dos mortos pela impossibilidade de dar-lhes enterro convencional.
O governo imperial reuniu então os médicos e os acadêmicos de medicina do país e os despachou para as cidades do Norte e do Nordeste para auxiliar nos trabalhos. Vários deles pereceram da doença junto com outras autoridades, dentre as quais o próprio presidente da Província do Grão-Pará, Angelo Custódio Correa, que se deslocara em socorro de Cametá, então a segunda maior cidade paraense, uma terra que a epidemia tornara inabitável - de onde todos procuram fugir! - como registrou a imprensa na época.
A cólera depois de sua entrada triunfal entre nós no século XIX sempre esteve presente como surto ou epidemia. Segundo alguns historiadores, na Guerra do Paraguai afligiu impiedosamente os soldados em luta, conforme os horrores descritos na Retirada da Laguna, de Taunay. Nos anos 90, a partir de uma epidemia no Perú, a doença voltou a entrar no Brasil. Por essa época, entre 1991 e 1994, foram registrados mais de 100 mil casos e pouco mais de 1000 óbitos.
O mais recente aparecimento da cólera no continente foi no Haiti, país caribenho devastado por guerra civil, corrupção, pobreza e catástrofes naturais. Nesse caso, porém, há uma característica importante a ser destacada com respeito a doença, que é o fato de ser provocada por um novo tipo de vibrião cólera que pela primeira comparece nas Américas. A introdução da variante do Sul da Ásia pode ter graves consequências para além da população haitiana, caso não se estabeleça efetivo controle sanitário. O tipo introduzido de vibrião cólera possui maior resistência aos antibióticos além de maior capacidade de provocar formas graves da doença, elevando a curva de mortalidade a ela relacionada. Segundo um grupo de pesquisadores, em artigo publicado este mês no The New England Journal of Medicine, é provável que no ecossistema caribenho aconteçam trocas de material genético entre o vibrião relacionado à cólera clássica, já antes presente na região, e o novo, com o risco de aumentar ainda mais a virulência do microorganismo. A despeito dessas complexidades genéticas, está claro que a oferta de saneamento adequado, a implantação de medidas de educação em saúde e a oferta de água potável à população do Haiti, assim como a restauração da democracia nesse país, são fatores essenciais para controlar e prevenir a propagação da doença.

domingo, 21 de novembro de 2010

Mulheres Cientistas e o Preconceito Masculino

O público leigo habituou-se à idéia de que o ambiente acadêmico é um espaço protegido contra os bafejos dos preconceitos que vicejam na sociedade, como fosse antídoto abençoado que perenizasse o debate de idéias, ágora dimensionada para o respeito ao contradito e à tolerância às diferenças, ainda que sob o implacável respeito à verdade científica. Infelizmente esse imaginário ético não correponde a realidade, como demonstra artigo publicado hoje no inglês The Observer por Richard Holmes.
Analisando os arquivos da Royal Society of London, o autor observa que o papel feminino em assuntos científicos foi bem maior do que o apresentado na vitrine histórica dos 350 anos de existência da instituição. O artigo de Holmes traz inúmeros exemplos das limitações impostas a cientistas mulheres, a começar pelo acesso oficial a instituição que não lhes foi permitido senão em 1945, ou seja, 285 anos após sua fundação - exceção feita a admissão honorária da Rainha Victória, que não era obviamente pesquisadora; apenas a mais poderosa rainha que o Império onde o Sol jamais se punha conhecera desde Elisabeth I. A bem da verdade, a carapuça machista não serve apenas a Royal Society, e cabe com perfeição e graça nos estatutos de outras congêneres européias, como por exemplo a Académy des Sciences de France que rejeitou o pedido de associação de madame Marie Curie em 1911, mesmo ano em que a notável cientista recebia o seu segundo Prêmio Nobel!
O espaço científico era assim vedado a participação feminina em condições igualdade com os homens. Segundo Holmes havia a certeza de que as mulheres apenas poderiam fazer ciência senão na condição de membros diletantes, com a cautela de sempre afastá-las dos estudos botânicos pela inconveniência das palavras latinas que descreviam a anatomia reprodutiva das plantas: hermaphroditus (bissexualis), sexualis, assexualis e spadix, entre outros exemplos inoportunos à moralidade vitoriana.
De outro modo, o estranhamento entre homens e mulheres na ciência também comparecia até quando tratatava-se de aconselhar. Em 1788, o astrônomo real saudava com sinceridade Caroline Herschel, que aos 38 anos de idade fora a primeira mulher "na história do mundo" a descrever dois novos cometas, advertindo-lhe contudo que tivesse cuidado de não "pegar carona na cauda de um deles", antes mesmo que seus pares reconhecessem o valor de sua descoberta.
Machismos à parte, a ida aos arquivos demonstram que a ciência moderna tem dívidas imensas com a parte feminina que lhe deu impulsos imensuráveis não só nas técnicas e tecnologias, mas também na ética em pesquisa, pois foi uma assistente de Cavendish quem pela primeira vez peticionou pelo direito dos animais - e de todos os seres vivos - como sujeitos de pesquisa. Estávamos então no século XVIII e nem sonhávamos com o pesadelo que seria realizado duzentos anos para frente, na escala industrial dos campos da morte de Auschwitz-Birkenau, quando Anna Barbauld requereu ao seu chefe que atentasse para o sofrimento dos animais de laboratório, lavrando os seguintes versos que entitulou como The Mouse's Petition to Dr Priestley, Found in the Trap where he had been Confined all Night (Petição do Camundongo que Permanece Aprisionado na Armadilha onde Esteve Confinado a Noite Inteira ao Dr. Priestley,):

For here forlorn and sad I sit,
(Abandonado e triste, aguardo)
Within the wiry Grate, (Dentro desta grelha aramada,)
And tremble at the approaching Morn (E estremeço com o amanhecer)
Which brings impending fate… (Que anuncia a sorte iminente)

The cheerful light, the Vital Air, ( A luz alegre, o ar vital,)
Are blessings widely given; (São bençãos amplamente dadas;)
Let Nature's commoners enjoy (Para usufruto dos plebeus da natureza)
The common gifts of Heaven. (Como dádivas comuns do Paraíso.)

The well-taught philosophic mind (Ora et labora a mente filosófica)
To all Compassion gives; (Para todos a compaixão dá;)
Casts round the world an Equal eye, (Molda a volta do mundo uma visão de igualdade)
And feels for all that lives. (E sente por todos aqueles que vivem).

O belo artigo - The Royal Society's Lost Women Scientists (As Cientistas Mulheres Que a Royal Society Esnobou) de Richard Holmes está disponível para leitura na página eletrônica do jornal The Guardian.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Superbactéria Não Resiste à Higiene das Mãos

Toda essa gente se engana
Então finge que não vê que
Eu nasci pra ser o superbacana
Super-homem, superflit, superfink, superist
(Superbacana. Caetano Veloso, 1968)


No caso da KPC (Klebsiella pneumoniae), o adjetivo de superbactéria tem sido usado com insistência na mídia brasileira. Esse tipo de bactéria produz substância - a enzima Carbapenemase - que lhe permite resistir ao ataque de antibióticos, simplesmente inutilizando-os. Como outros mutantes bacterianos, o surgimento da KPC deriva basicamente do uso não responsável de antibióticos e de medidas de higienização precária nos serviços de saúde. Portanto, é problema que pode ser resolvido de imediato e a médio prazo por meio de conscientização do público, dos profissionais e dos administradores de unidades de saúde, a partir da ação sustentada das vigilâncias sanitárias estaduais (Visas), com o apoio imprescindível das Comissões de Controle de Infecção Hospitalar, que devem sair do papel e valer na prática.
Nesse sentido, embora vivamos em tempos de super-ultra-hiper sei lá o quê, não podemos esquecer que uma das maiores revoluções da Medicina no século XIX foi a descoberta do médico húngaro Semmelweiss, que baseado em observações de enfermaria concluiu que a mortalidade por Febre Puerperal seria reduzida se os obstetras e as parteiras da época lavassem as mãos antes e depois de cada parto, antes e depois de examinar suas pacientes.
A medida consagrada é válida para prevenir qualquer infecção em que o agente causal seja transportado pelas mãos de um ser humano para outro, quer sejam bactérias, os vírus das gripes ou das conjuntivites. Água, sabão e álcool na higiene das mãos e a aplicação correta de protocolos para degermação de materiais e equipamentos bastam para quebrar a transmissão da KPC, demonstrando que a adoção de medidas de higiene evitam e destroem a "famigerada" bactéria sem precisar empregar algum super-raio laser terrível.
Contudo é necessário coibir o uso abusivo e indiscriminado de antibióticos, posto que a indicação incorreta e a administração em sub-doses e em horários equivocados são os principais responsáveis pelo desenvolvimento de resistência bacteriana, aliás um fenômeno representativo da Teoria da Evolução de Darwin. O uso incorreto de antibióticos constitui no Brasil assunto da maior importância, especialmente porque sabemos que a auto-medicação além da influência cultural está relacionada às dificuldades no acesso a cuidados de saúde e na acessibilidade a medicamentos.
Por fim a decisão da Anvisa de disciplinar a compra de antibióticos não deve se limitar ao balcão das farmácias. Na medida em que as farmacias cumpram as normas regulatórias, outras possibilidades à margem surgirão, por meio do comércio ambulante e da internete. É necessário portanto uma ação que discipline e ao mesmo tempo desencoraje e combata o comércio ilegal de antibióticos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Uma Revolução Intelectual*

“Enquanto se pensava que com as leis de Newton
e as que lhe sucederam podíamos compreender o universo,
o diálogo com as outras civilizações era um diálogo
de professor e aluno, aluno primário.”

Ilya Prigogine, “Nome de Deuses”, Ed. UNESP, 2002, p:64

Por José Luiz Fiori**

Na segunda metade do Século 20, o físico norte-americano, Thomas Kuhn, e o químico russo, Ilya Prigogine, revolucionaram a epistemologia e a história da ciência, colocando uma pá de cal sobre a visão positivista do conhecimento, e um ponto de interrogação definitivo sobre todas as teorias mecanicistas e deterministas, a respeito do mundo físico, do cosmos e das sociedades humanas. Para Thomas Kuhn, o avanço da ciência não é cumulativo, nem se dá de forma linear e contínua. Pelo contrário, ocorre de forma descontínua e através de grandes rupturas, ou “revoluções científicas”.

Elas assinalam um momento de “mudança de paradigmas”, que são definidos por Kuhn como uma maneira particular de olhar o mundo, articulando, de forma coerente, problemas, conceitos, métodos de pesquisa e critérios de verdade que só são válidos dentro de determinadas comunidades específicas, e durante períodos determinados de tempo. Por outro lado, Ilya Prigogine rebelou-se contra o determinismo e o mecanicismo das teorias de Isaac Newton e Albert Einstein e demonstrou que a irreversibilidade do tempo, a desordem e a incerteza são elementos essenciais e construtivos, do mundo físico e biológico. Ou seja: Kuhn defende a historicidade da ciência e dos seus critérios de verdade; e Prigogine defende a importância da “flecha do tempo” e das “escolhas”, para a construção do futuro de um universo físico e de uma sociedade humana, que são rigorosamente imprevisíveis.

Por analogia, também é possível falar da existência de “paradigmas” e de “revoluções intelectuais” no campo do pensamento social, onde se formam e se transformam os valores, conceitos e critérios de verdade que as sociedades humanas utilizam para interpretar o seu passado e o seu presente, e para descodificar e responder às incertezas do seu futuro. São modelos, enfoques e crenças que atravessam o pensamento acadêmico e o pensamento político – de esquerda e de direita — e também fazem parte do senso comum e da formação da opinião publica. Estes “paradigmas sociais” também são válidos apenas para certas comunidades específicas, e durante um certo período, por mais longo que ele possa vir a ser. Com o passar do tempo e das mudanças sociais, entretanto, estes paradigmas “societários” perdem fôlego, se esclerosam, e acabam sendo superados por novas “visões do mundo”, mais capazes de compreender e enfrentar os desafios criados pela chegada do futuro.

Pois bem: tudo indica que a América Latina e o Brasil estão vivendo um destes momentos de “revolução intelectual” e de mudança da sua forma de olhar para si mesmo e para o mundo. De um lado há um “paradigma intelectual” em franco declínio, incluindo algumas idéias e teorias de esquerda e de direita, que já não dão conta das transformações do continente — e do Brasil, em particular. Seus conceitos e seus debates parecem velhos e repetitivos e por isto filtram as novidades trazidas pelo futuro de forma extremamente reativa, defensiva e medrosa. Alguns “intelectuais orgânicos” deste velho paradigma vivem fascinados pela ideia do “fim”, seja da democracia, do capitalismo, das espécies, ou da própria Terra. Outros, estão sempre lamentando as “imperfeições constitutivas” da sociedade latino-americana, tão distantes dos seus modelos ideais de sociedade civil, de classe social, de partido político, ou mesmo, de estado e de capitalismo, E quase todos vivem atormentados com medo do populismo, do corporativismo, do nacional-desenvolvimentismo, do estatismo, entre tantos outros fantasmas do passado. Sem se dar conta que este conceitos e algumas de suas velhas teorias sociológicas e econômicas perderam aderência aos fatos, e já não demonstram nenhuma eficácia como ferramentas analíticas e como instrumentos estratégicos, voltados para a construção do futuro.

Apesar disto, entretanto, ainda não se pode falar do aparecimento e da existência de novas teorias consistentes, e o próprio continente latino-americano ainda não superou alguns de seus grandes desafios sociais e econômicos. Mas com certeza já se pode falar de uma “revolução intelectual” e de um novo “paradigma”, porque já se consolidou uma nova maneira do continente olhar para si mesmo, para o mundo e para os seus desafios, assumidos como oportunidades e como escolhas que devem ser feitas, a partir de sua própria identidade, e de seus próprios interesses.

Alguma vez, Jean Paul Sartre disse que “era mais fácil ser escravo do que senhor”, e talvez de fato, seja mais fácil pensar como escravo do que como senhor. Mas depois desta “revolução intelectual” da America Latina, já não há mais necessidade de ninguém seguir pensando como escravo, ou mesmo, como aluno primário das “civilizações superiores”.

* Publicado em Outras Palavras

** Economista. Doutor em Ciência Política, com pós-doutorado na Universidade de Cambridge. Professor Titular de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

sábado, 14 de agosto de 2010

Nightingale Dá Notícias de Vesalius

Há uns três anos atrás, como representante do governo brasileiro, fiz uma visita técnica à plataforma norte-americana de registros de ensaios clínicos - ClinicalTrials.gov, com sede na Biblioteca de Medicina do National Institute of Health (NIH), em Bethesda (Maryland). Na ocasião, ao saberem de meu interesse por livros raros e antigos, nossos anfitriões usaram de fidalguia e levaram-me para visitar a sessão de obras raras daquela instituição, uma espécie de Biblioteca da Alexandria para as ciências médicas. Para minha surpresa, numa sala climatizada, e sob às vistas do bibliotecário chefe e de um oficial do Exército dos EUA, vestido em trajes de campanha (o lugar é área de segurança nacional), fui apresentado a um dos mais importantes livros da História da Ciência - De Humani Corporis Fabrica -, publicado em 1543 pelo médico belga Andreas Vesalius, a partir de estudos que fez em cadáveres humanos nos cemitérios.
Naquela época era arriscadíssimo fazer estudos anatômicos que não fossem em animais. A ousadia do anatomista poderia levar à prisão e ao julgamento da conduta no Tribunal do Santo Ofício - a Santa Inquisição -, correndo-se riscos de torturas físicas, desmoralização e até de morte. Vesalius veio a falecer ainda muito jovem, com 50 anos de idade, afogado em naufrágio, quando retornava de uma perigrinação até o Oriente Médio. O que ele foi fazer nos lugares santos ninguém sabe o certo até hoje. Conta a lenda que o pai da moderna Anatomia teria sido condenado a morte pela Santa Inquisição depois que alguém denunciou que dissecara o cadáver de um nobre, quando ainda havia atividade cardíaca presente. O Rei a quem então servia, Felipe II da Espanha, por reconhecer em Vesalius importância inestimável para a ciência da época, decidiu comutar a sentença de pena capital por uma peregrinação religiosa a Terra Santa.
O fato inconteste é que a publicação De Humanis Corporis Fabrica foi seminal, pois quebrou paradigmas e inaugurou um novo momento que permitiu o saber médico dar um enorme salto de qualidade científica. Pois estava eu flanando nessa blogosfera de quase domingo, na leitura de um artigo sobre o centenário de morte da extraordinária enfermeira Florence Nightingale, acontecido ontem, quando cheguei até a excelente página eletrônica da Wellcome Library, onde encontrei digitalizado para livre acesso a primeira edição do livro. Ao folheá-lo eletronicamente vocês perceberão que trata-se de um exemplar que sofreu os efeitos do tempo e do maltrato dos homens, mas foi restaurado com maestria na altura da importância da obra. O exemplar norte-americano que manuseei no NIH, ao contrário, está absolutamente perfeito. Eu poderia cogitar no momento em que o folheei, que estava em estado de conservação tal como fora entregue por um alfarrabista do século XVI a fidalgo que houvesse com discrição encomendado a obra.
Acesse o clássico da ciência clicando aqui, mas não deixe de explorar outras preciosidades do sítio da Wellcome, como, a exemplo, o apelo de Florence Nightingale pelos ex-combatentes empobrecidos da Carga da Brigada Ligeira (Guerra da Criméia), gravado em cilindro de cera em 1890. A Wellcome Library é um patrimônio cultural inestimável que a internete disponibilizou para consulta.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

XV Congresso Brasileiro de História da Medicina

Agência FAPESP – A Academia Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro (RJ), realizará o 15º Congresso Brasileiro de História da Medicina entre os dias 6 e 9 de outubro.

Da Agência Fapesp: O evento ocorrerá 59 anos depois de a mesma cidade, então capital federal, sediar o primeiro congresso na área. Em paralelo, será realizado o 2º Congresso de História da Medicina do Estado do Rio de Janeiro.

O congresso brasileiro contará com painéis sobre as histórias de diversas especialidades médicas no Brasil, como oftalmologia, cirurgia oncológica, obstetrícia, pediatria, cirurgia plástica, psiquiatria, endocrinologia e cardiologia.

Haverá sessões sobre instituições de ensino e tratamento médico no país, como a Escola Médica da Bahia, a Escola Médica do Rio de Janeiro, o Sanatório de Barbacena e a Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina.

As inscrições de trabalhos científicos podem ser feitas até o dia 30 de agosto.

Maiores informações sobre o evento na URL: www.jz.com.br/congressos/anm/sbhm.htm.

sábado, 7 de agosto de 2010

Queixas de Um Médico Cristão Novo no Recife

























Esta é a primeira edição do manuscrito do médico português Simão Pinheiro Morão, entitulado "Queixas Repetidas em Ecos dos Arrecifes de Pernambuco Contra os Abusos Médicos que Nas suas Capitanias se Observam em Dano da Vida de seus Habitadores" (1677). Foi publicado em 1965 pelo orgão governamental português Junta de Investigações do Ultramar em homenagem ao quarto centenário de fundação da cidade do Rio de Janeiro.
O doutor Simão Morão teve uma vida atribulada por ser cristão novo, sentenciado a terríveis humilhações e sofrimentos por praticar secretamente o judaísmo com sua família. Além de prisões, foi sentenciado a assistir o auto de fé do próprio pai, que nessa altura tinha 83 anos, e a usar para sempre uma roupa ridícula, o sambenito, que a Santa Inquisição impunha aos sentenciados, que assim os identificava como criminosos onde quer que fossem.
O impacto da violência sofrida pelo médico por certo corresponderia àquela sofrida por Cândido, no mesmo lugar e pelo mesmo algoz, conforme seria narrado por Voltaire anos depois em ficção homônima (1759). No livro, a certa altura Cândido lamenta-se do destino e da violência cega, depois de ser brutalizado num auto de fé que sucede ao terremoto de Lisboa (1755):
Se este é o melhor dos mundos possíveis, como não serão os outros! Se eu apenas fosse açoitado, como entre os búlgaros, ainda passava! Mas tu, meu querido Pangloss, o maior dos filósofos, ver-te enforcar sem saber por quê!
Fugindo de tais perseguições, que lhe impediam exercer a profissão em Portugal, Mourão migrou para Pernambuco, no Brasil. Em Recife reiniciou a prática clínica, apesar de ainda o torturar o uso do sambenito, pois essa roupa era para ele uma pena perpétua. Assim, quando recuperara a condição de médico, por outra persistia nele a identificação humilhante de judaizante apenado, que o perseguia nas ruas e na casa dos seus pacientes, ou aonde mais fosse.
Não suportando mais as humilhações por parte dos colonos, o médico português peticionou então ao Rei, para que o aliviasse da infame indumentária. A mercê real chegou-lhe depois de algum tempo, e animado com o perdão e o respeito readquirido, escreveu este manuscrito e um dos três primeiros livros médicos do Brasil Colônia, que é o "Tratado Único das Bexigas e do Sarampo" (1683), que, por via das dúvidas, assinou com o anagrama Romão Mosia Reinhipo. Ambos os trabalhos são clássicos da História da Medicina do Brasil e trazem no seu conteúdo não só o estado da arte da médica daquela época, mas uma visão crítica sobre os modos como a profissão era praticada.

domingo, 11 de abril de 2010

Os Maiores Crâneos da Matemática

Alex Bellos, articulista do The Observer, lista na edição de hoje quem ele considera os 10 maiores matemáticos em 2500 anos de História. Acesse aqui.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Fraudes Científicas à Chinesa

A China é uma potência integrada ao horizonte do século XXI. Contudo, o seu meritório esforço de industrialização tem sido associado a sérios problemas quanto a qualidade do que os chineses levam à venda no mercado internacional. Antes do mercado, contudo, em ciência também existem problemas.
Editorial da Acta Chrystallographica informa que, desde 2007, pesquisadores da Jinggangshan University publicaram na revista cerca de 70 artigos completamente falsos.
Dizem os editores:
Quando discutimos o problema com as editorias de outras revistas do grupo Acta, todos ficaram surpresos, porque, como nós, eles assumiram que era quase inconcebível que uma estrutura de cristal falsificado fosse submetida para publicação.
Infelizmente, agora temos de fazer um balanço e decidir que medidas são necessárias para evitar novas fraudes científicas. Para esse fim, o software de validação checkCIF é aprimorado continuamente e fornece uma avaliação exaustiva dos dados e da qualidade estrutural com vistas a consistência científica.
É digno de nota de ressaltar que os problemas atuais não poderiam ser facilmente descobertos sem a disponibilidade de ferramentas tecnológicas adequadas, cada vez mais importantes para as revistas científicas que publicam informação sobre estruturas cristalinas.
Desculpas apresentadas, desculpas registradas para serem ponderadas. Assim, concordo com o editor da The Lancet, quanto a ser impressioante que um erro nessa escala não fosse identificado pelos critérios rígidos de revisão por pares, que antecedem a publicação das comunicações científicas.
De qualquer maneira, o fato é grave e lembra-nos o caso do agrônomo Trofim Lyzenco, cientista com status de herói na extinta URSS, que fraudava resultados de pesquisa na medida em que crescia seu poder junto a nomenclatura, e a sua correspondente capacidade de silenciar críticas a seus assombrosos trabalhos, quase todos irreprodutíveis. Em termos científicos a consequência das fraudes de Lysenco foi um brutal freio nos estudos soviéticos sobre genética.
Cabe porém destacar que a situação de fraude identificada e denunciada pelos editores da Acta Chrystallographica repercutiu dolorosamente no governo chinês. O Ministério da Educação, na semana passada, nomeou comissão para a identificação de fraude e plágio em pesquisas desenvovlidas no país.
Claro que a atitude do governo chinês é elogiosa, mas, junto com a decisão de usar pente fino para identificar possíveis falsificações científicas, existe a absoluta necessidade das autoridades chinesas atentarem sobre quais as causas que levam a tais escândalos - dessemelhantes e com raiz comum, como o são a produção de remédios falsificados, de rações letais para animais e o achado de cristais que em verdade não passavam de lantejoulas.

Fontes consultadas:Acta Crystallographica, The Lancet, SciDev.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tempos da Arte e da Cura



Livros sobre História de Medicina no Brasil são raros, quando comparados à edição de volumes das especialidades médicas. A obra do médico Eurico de Aguiar, ao analisar a Medicina em perspectiva histórica, ressalta em cada capítulo a importância daquela disciplina injustamente subtraída do currículo médico. A nova edição poderá ser solicitada ao Sindicato Médico do Rio-Grande do Sul - Fundo Editorial SIMERS. Rua Cel. Corte Real, 975 - Petyrópolis - 90630-080. Porto Alegre - RS. Telefone 51-3027-3737. Ou com diretamente com o autor: euricoag@terra.com.br