sábado, 19 de janeiro de 2019

A Memória e o Risco da Impossibilidade.

Anne Michaels, escritora canadense do XIX, tem seu catecismo da permanência. Diz ela que não há ausência real, se pelo menos a memória da ausência permanece. E resume seu pensamento num fecho belíssimo: Se alguém já não tem a terra, mas tem a memória da terra, então sempre pode desenhar um mapa. É um alento como fosse a última garrafa do náufrago, que lançada ao mar depende das correntes manobradas pela fortuna. Por que toda memória da ausência, enquanto nos aquece, traz consigo o risco da impossibilidade.

A Ciência dos Sonhos

Rene Magritte.

Podemos dizer que onírico e vida são indissociáveis. O dilema vem de milênios e não há civilização que não faça referência pictórica, escrita e oral aos sonhos. Mesmo quando acordamos com a certeza de que não tivemos sonhos naquela noite, temos aí um mistério da memória que não nos informa o porquê de te-los apagados. Em resumo: sonhamos sempre, irremediavelmente, até o fim, que pode ser um surpreendente trânsito a outra dimensão em que o estado vigil é ausente.
No monólogo hamletiano ouvimos ser ou não ser, eis a questão, mas, adiante, Shakespeare cunha outra pérola existencial de sua escrita, menos popular, em que conclui que  morrer, (é) dormir, nada mais,  resumindo na fórmula os domínios de Hypnos (sono) e de Tânatos (Morte), ambos filhos da Noite (Nyx).
Nesta semana, surpreendi-me com a idéia de que, em algum momento, podemos ter sonhos comuns com outros semelhantes, sem que nos conheçamos e nem nos encontremos nesse momento delicado da consciência, quando tanto estamos em estado de absoluta fragilidade na dimensão do real quanto em viajem a inexplorado território, sempre arriscado, que a literatura adverte como de cartografia incerta,  sempre habitado por demônios, todos eles íntimos nossos é verdade, senão nós mesmos projetados como incubus ou sucubus. Será que esses olhos são meus? indagou, com pertinência, Caetano ao se referir a mais onírica das artes, que é o cinema.
Este espaço clandestino apenas intui outro dia,  quando soube que Jorge Luis Borges,  Raduan Nassar e eu tivemos sonhos muito parecidos com livros. No poema Pesadelo que descrevi uma angústia sonhada, está publicado em Poesia do Grão-Pará, coletânea organizada por Olga Savary e publicada pela GRAPHIA (2001).
Diante das semelhanças de narrativas, pergunto-me se há um sonho estendido em que todos que sonham encontram-se, ainda que, depois, na devolutiva à realidade individual, percamos essa unidade da experiência, logo crepuscular entre as névoas da memória, de insuspeitado sonho comum?

Pesadelo

Acudi desesperado
aos livros e vazios os vi:
esvaídos de títulos
ágrafos tomos
anônimos na livraria;
que desse modo, sabe lá
por qual haver perdida,
oca, sinalizava à sombra
do sonho terrível
o esgotar-se da vida.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A Atualidade da Cabanagem aos 184 Anos

Norfini. A Tomada do Trem de Guerra pelos Cabanos

Este mês comemorou-se mais um aniversário da Cabanagem, movimento revolucionário brasileiro incluído entre as chamadas guerras da Regência, que agitaram o Império do Brasil entre a abdicação de Dom Pedro I  e a coroação de seu filho Pedro II, aos 14 anos de idade. Até hoje foi o único movimento de base genuinamente popular que tomou o poder político, administrou-o por 5 anos (1835-1840) com pessoal, forças de segurança e lideranças próprias, capilarizando sua influência por toda a Amazônia - rio Madeira, Maués, Manaus -, excluídas as resistências de Santarém e de Cametá, que tornou-se o bunker imperial intransponível às tropas cabanas.
O motor da revolução cabana foi o ódio e a exclusão social a que estavam submetidos os paraenses após a Adesão do Pará à Independência, que fora um estelionato político estabelecido na preservação das figuras chaves do Ancient Regime em postos políticos e militares do governo, na preservação de todas as vantagens que os portugueses usufruíam, especialmente no que respeitava ao comércio, as finanças e o prestígio social. Se estes fatos ocorressem hoje, talvez alguém perguntasse em algum lugar no Pará: Pra que porra serviu esta Adesão à Independência, se continuamos fodidos? 
A Cabanagem foi derrotada primeiro em Belém, sede de seu governo, mas interiorizou focos de resistência. Da capital fugiu seu quarto e último governador, Eduardo Angelim,  com a família e um punhado de índios que mantiveram-se fiel a ele. Primeiro saiu em navio artilhado, perseguido por outros da Armada Imperial e houve troca de tiros de canhão entre o fugitivo e seus perseguidores. Angelim acabou preso sem resistência na mata, alguns meses depois. Ao contrário do destino de outros, foi enviado ao Rio de Janeiro para cumprir pena e de lá voltou anistiado alguns anos depois, para reassumir suas propriedades rurais. Estava imerso em dívidas, arruinado. Ainda assim pagou a todas e o fim de seus dias foi com dignidade, apesar de ter encontrado a mulher e a filha completamente loucas.
Durante muito tempo a Cabanagem foi ignorada pelos historiadores paraenses, que conduziam seus trabalhos desde o Império influenciados pela ideologia vencedora, que considerava a revolução um movimento de classes infames. Hoje há muitos pesquisadores que reavaliam o movimento e buscam respostas para algumas lacunas que a historiografia oficial se encarregou de sepultar na poeira dos tempos. Qual a influência sobre o movimento dos revolucionários franceses da Guiana? Qual o papel dos ingleses nesse processo? Por que os revolucionários não romperam com o Governo Central, alinhando-se a alguma potencial estrangeira internacional? Estas são algumas perguntas que talvez tenham respostas em arquivos estrangeiros, porque os líderes cabanos não deixaram memória escrita transmitida a seus descendentes atuais. Os dois volumes escritos por Angelim de que se tem notícia foram perdidos, após confiscados pelas tropas de ocupação, que provavelmente os destruíram.
As consequências nefastas da Cabanagem até hoje são insuperáveis: a lavoura arrasada, epidemias mortais, fome, estupros e Belém materialmente arruinada. O general Andrea, algoz de Angelim e cão de guarda de Dom Pedro II (Chiavenatto), não tinha mais onde guardar tantos rebeldes capturados e, sem cerimônia, pediu ao ministro da Justiça que lhe facilitasse o trabalho:
"Uma Comissão Militar precedida de um processo feito por algum Magistrado hábil terei feito fuzilar talvez vinte ou trinta dos mais criminosos e teria dado destino a todos os outros".
Na repressão de Andrea, que é homenageado com busto na região central de Belém, três mil cabanos morreram asfixiados em porões de navios prisões, aguardando "julgamento". Ao modo como descreve Machado d'Oliveira sobre igual suplício de outros patriotas em 1823 (1), lançava-se cal virgem nos porões e selavam-se as escotilhas dos navios presídios.
Andrea e outros representantes imperiais foram criminosos de guerra confessos nos registros históricos da Cabanagem. Para destruir de vez todos aqueles que apoiaram o movimento, em triunfo estabelece o trabalho forçado para todos que fossem  "vagabundos", "índios vadios", "mestiços" e "negros", a partir de 10 anos de idade. A um dos seus comandantes aprazia pendurar os chefes cabanos pelos pés no beiral de sua casa, e depois lançava seus corpos ainda vivos contra as paredes, para que morressem de múltiplas fraturas (Raiol).
Quando finalmente os últimos focos rebeldes foram dominados em 1840, 30 mil civis e militares estavam mortos, o que corresponde a cerca de 30% da população paraense da época. O leitor a esta altura talvez reconheça eco do discurso andreano em outro, atual, portador de igual virulência, que ameaça estados do Nordeste brasileiro por lá ter sido eleitoralmente derrotado. A Cabanagem não é uma página virada.

Raiol DA. Motins Políticos, Universidade Federal do Pará. Belém, 1970. Primeira edição foi publicada em 1865.
Chiavenato JJ. Cabanagem/ O povo no Poder. Brasiliense. 1a. ed. São Paulo, 1984.
Machado d'Oliveira JJ. Juízo sobre as Obras Intituladas  - Corografia Paraense, ou Descrição Física, Histórica e Política da Província do Grão Pará: por Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva - , e - Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará, por Antonio Ladislau Monteiro Baena. Tipografia Imparcial de de F. de P. Brito. Rio de Janeiro,1843.

(1) Sobre o episódio chamado de Tragédia do Brigue Palhaço (1823) - na verdade um assassinato em massa de mais de 250 pessoas sob comando do mercenário Lord Grenffel, no processo de Adesão do Pará à Independência -, o ex-governador da Província do Grão Pará José Joaquim Machado de Oliveira (1832) como homem do establishment  relata cenas de horror em memória autorizada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro":
"Encerrados assim ou atochados nesse estreito recinto, esses infelizes, que pertenciam a diversos partidos e cores, que convinha extrema-los, romperam logo em gritos e lamentos, exasperados pelo calor, e falta de ar que experimentavam. (...) Pela narração de um dos três , que puderam sobreviver à matança, soube-se que os infelizes foram acometidos de violentas dores de cabeça, e suor copioso, sobrevindo-lhes uma sede insuportável, e afinal grandes dores no peito. (...) Bradaram  em diversas vezes por agua para saciar a sede, que os devorava; e a água do rio, salobra e turva, lhes foi lançada em uma grande tina. (...) A ágoa ainda não pode lhes matar a sede dos que puderam beber, devorava-os uma febre ardente que crescia com espantosa rapidez. Após dela seguiu-se um violento frenesi, e acessos de raiva e furor que os levou a lançarem-se uns contra os outros, reciprocamente darem-se punhadas, e a se dilacerarem com as unhas e os dentes entre gritos, ameaças e horríveis vociferações.
A bárbara guarnição do navio, que presenciava tudo isto, e que com um sorriso infernal comprazia-se de ver aquela horrorosa cena, dirigiu alguns tiros de fuzil para o porão, e derramou dentro uma grande porção de cal, serrando -se logo a escotilha. (...) Por espaço de duas horas ainda se ouvia um rumor surdo e agonizante, que se foi extinguindo aos poucos; e as três horas do encerramento completo, que foi ao escurecer, reinava no porão o silêncio dos túmulos!! Eram sete horas da manhã do dia 22, quando se correu a escotilha do navio em presença do comandante... e o que viu ele? ... Um horroso montão de 252 corpos mortos, lívidos, cobertos de sangue, dilacerados, rasgadas as carnes, com horrível catadura, e sinais de que tinham espirado no mais violento furor de raiva e desesperação, e acabando na mais longa e penosa agonia (...), e passando a percorrer de novo o porão encontraram-se entre as cavernas quatro corpos que ainda respiravam , os quais sendo expostos ao ar livre, em poucos momento recobraram a vida, três deles para sucumbirem dentro de poucas horas no hospital, e o quarto, para passar uma existência molesta e definhada, tornando-se inválido na idade de 20 anos."

A Descida de Monteiro Lobato ao Inferno



Manchas brancas são casas. Manchas marrons vacas. Meu tio, certa vez, dirigiu devagar por uma estrada de velocidade, a 64 Km/hora. Eles os encarceraram por dois dias.*
"Fahrenheit 451", de Ray Bradbury.

Ela chegou simpática como de costume. Tem nove anos. Acompanha, nas férias, a mãe que presta serviço de limpeza como diarista. São evangélicos.
A menina vem pelo temor da mãe em deixa-la só, pois vivem em lugar violento na periferia da cidade. Aqui, fica assistindo  televisão ou brinca com as cadelas, enquanto a mãe limpa a casa. É muito inteligente, dona de incrível facilidade para estabelecer diálogos inusitados.
Desta vez, resolveu mudar sua distração e pediu a minha esposa um livro para ler. Nossa casa tem uma biblioteca bem indisciplinada com uns 1200 títulos, e escassos são os  de temática infantil.
Seguiu-se o diálogo ...
- Você já assistiu o "Sítio do Pica Pau Amarelo"?
- Vi alguma coisa na tv ...
- Veja se este livro lhe interessa. Foi escrito pelo mesmo autor do Sítio, é de Monteiro Lobato
- Tá bom, vou ler.
Alguns minutos depois ela volta e devolve o livro, há pouco emprestado.
- Obrigado, mas não é de Deus.
No final do dia escreveu um bilhete de duas linhas, com palavras de agradecimento pelo tempo que passou conosco. A caligrafia e a gramática lembravam as de uma criança em pré-alfabetização.
Este é o Brasil que vai pra frente. "Agora vai", asseguram os que acreditam.
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* "White blurs are houses. Brown blurs are cows. My uncle drove slowly on a highway once. He drove forty miles an hour and they jailed him for two days."

Réquiem do Adeus às Armas



NY Times. Weege: Murder is My Business (Weegee: Assassinato É  o Meu Negócio)

Quando eu lecionava a disciplina Saúde do Trabalhador na  Medicina da UFPA, prestei atenção num aluno que trazia sequelas graves no corpo. Avaliei comigo que deveriam ser resultantes de acidente automobilístico, com moto provavelmente.Avaliei errado. Um dia houve oportunidade de conversarmos mais próximos e lhe indaguei sobre a origem das cicatrizes e deficiências que exibia no corpo.
Fui policial militar, disse. E, certa vez, na folga fui a uma borracharia consertar o pneu de minha moto. Estava à paisana, mas armado. Foi quando entraram 4 bandidos com a intenção de tomar a minha arma. Matei um, feri outro gravemente e os outros dois fugiram.
Recebi oito tiros que me levaram a ficar 3 meses na UTI, e ainda há estilhaços de chumbo no meu corpo. Deixei a polícia tão logo pude andar, mas ainda faço fisioterapia e luto na justiça para me aposentar.
Lembrei desse jovem assim que li sobre o decreto de Bolsonaro, que dá livre acesso à armas  e destrói o Estatuto do Desarmamento. Hemingway, que apreciava armas e matou-se com um tiro de carabina, testemunhou as maiores violências coletivas da humanidade no século XX. Por ele temos o melhor resumo do momento que vivemos, cada vez mais distante de um adeus às armas:
É sempre assim. Morre-se. Não se compreende nada. Nunca se tem tempo de aprender. Envolvem-nos no jogo. Ensinam-nos as regras e à primeira falta matam-nos.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A Atualidade do Professor Pirenne

    Alicja. Fotografia de Agata Serge 

 Na curvatura do tempo
o homem igual ve-se de reverso
um ponto na indecisão do geometra 
  a  desmedida que flutua no silêncio
na envergadura imprecisa, sem fim 

Estes são tempos de retorno ao sombrio, tem se dito com insistência nesses últimos anos. O avanço dos partidos conservadores, suas bandeiras eleitorais e sua assunção ao poder pelo voto ou pela força, parece devolver o mundo aos princípios dos anos 30 do século passado, a provar o artifício dos recortes cronológicos no contínuo histórico. Como havia nos alertado Hobsbawn, o longo século XX resiste estendendo com suas náuseas e angústias irresolvidas ...
Este pequeno excerto trago do livro "Lembranças do Cativeiro na Alemanha"*, em que o acadêmico belga Henri Pirenne (1862 - 1935) registra suas impressões como prisioneiro político na Primeira Guerra Mundial. Nele foram apontadas questões importantes sobre a interseção perigosa entre a técnica esvaziada de historicidade, a morte da política e a usurpação da cidadania em favor de governos reacionários e não raras vezes desumanos. 
Em tempos de projetos como "Escola Sem Partido", de propagandas oficiais do tipo "Não Fale em Crise, Trabalhe (não seria uma variante de "O Trabalho Liberta"?), das panelas que pediam golpe de estado e hoje silenciam  frente a um governo desastroso e antinacional, mas, principalmente, por ser narrativa escrita ex-ante a grande derrota humana exposta na legitimação do nazifascismo na Europa, que nos levou a II Guerra Mundial com seus milhões de mortos mediante a banalidade do mal, o texto do professor Pirenne, cem anos depois, impõe-se atual para a reflexão. Vamos até ele ... 
 
"De repente, eu descobria que depois de tantas viagens e estadas realizadas além do Reno, depois de tantas conversas com professores e de tantas sessões de congressos, eu nada adivinhara, nem mesmo suspeitara das idéias políticas de homens que, no entanto, eu me gabava de conhecer muito bem. E ao mesmo tempo começava a me dar conta das causas de meu erro. Parecia-me que, na ausência de toda espécie de vida política , o alemão acha-se confinado ao campo de sua especialidade profissional. Nela se concentram todas as forças e toda a sua atenção. Seu ideal não vai além disso. E essa concentração num objetivo, sempre o mesmo, sem dúvida confere ao trabalho o "rendimento"extraordinário que admiramos tanto na indústria quanto na erudição, do qual nada se perde. Mas todos esses homens absorvidos por uma tarefa especial deixam para o governo, que consideram também um especialista, a preocupação de dirigir  e proteger a nação. Habituados há séculos ao absolutismo, não lhes passa pela cabeça a ideia de que o Estado são eles mesmos. Fazem dele um ser em si, uma espécie de entidade mística, uma potência dotada de todos os atributos de força e inteligência. No mesmo azado, todos estão prontos a obedecer-lhe, não como cidadãos, mas como servidores. Vestindo sua túnica de oficiais da reserva, professores, magistrados, comerciantes, empresários não serão mais do que simples militares, simples instrumentos de poder que os mobilizou para seu serviço. Aceitarão deles sem a menor crítica a direção e as palavras de ordem. Pensarão como ele, porque não reconhecem em si o direito e a competência de pensar por si mesmos a não ser em seu gabinete, diante de seu auditório ou em sua fábrica. Eu me espantava muitas vezes com a aspereza e a violência das polêmicas científicas na Alemanha. Não se deveria buscar-lhe a causa na importância única, exclusiva que o alemão atribui a seu trabalho? Tão logo o Estado o arranca dele, esse homem tão arrogante diante de seus colegas ou de seus concorrentes não pensa em outra coisa senão em obedecer passivamente à disciplina. Entrega-se com confiança à força que o impulsiona, e muito naturalmente, para justificar sua obediência aos próprios olhos, glorifica o senhor a quem serve. Repete docilmente as lições que recebe dele, consagra-se à apologia de sua conduta, aceita todas as suas ambições e realiza de antemão todas as suas esperanças."

*Pirenne, Victor. Lembranças do Cativeiro na Alemanha: Março de 1916 a Novembro de 1918. Edusp, 2015.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O IMPEACHMENT E O ELEFANTE


 
Artigo 6. Poema concreto de Rodrigo Ciríaco

Sérgio Porto publicou o conto O Elefante na coletânea 64 D.C, editada pela Tempo Brasileiro, em 1967, com ilustrações da melhor lavra de Jaguar. Revisitei essa narrativa quando me preparava para comparecer aos trabalhos de abertura das conferências sobre direitos humanos, ocorridas entre 24 e 29 de abril passado, em Brasília – DF, que não foram ofuscadas pelo movimento golpista  já organizado para derrubar a presidenta Dilma Rousseff.
Ontem, quando o Senado Federal confirmou o processo de impedimento de uma presidente eleita com 54 milhões de votos, sem que fosse caracterizado ter ela cometido crime de responsabilidade para a aplicação da medida constitucional extrema, os últimos parágrafos d’O Elefante devem ser transcritos como advertência aos golpistas e golpeados:
“ O Brasil chegou a Brasília às 4 horas da madrugada. Pelo telégrafo o agente ferroviário  já tinha feito uma promessa a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro de que mandaria rezar missa cantada na catedral do Distrito Federal, se o trem não atrasasse e o elefante chegasse enquanto estivesse escuro.
Em Brasília o sol nasce cedo e portanto, assim que a estação ficou vazia, ele foi ao vagão do Brasil e concedeu-lhe liberdade provisória. Sua idéia era levar pessoalmente o elefante ao gramado do palácio e deixar lá, fazendo a coisa discretamente para que nenhuma sentinela visse.
Cheio de receios, pois é muito difícil agir discretamente conduzindo um elefante, lá foi mais aquele funcionário público que não queria nada com o Brasil, tentar livrar-se do elefante. Os primeiros raios da aurora deviam estar intrigados de iluminar aquelas duas estranhas silhuetas, contra o horizonte do Planalto Central: aquele homenzinho nervoso da frente, seguido pelo gigante que era o elefante Brasil, pesadão e paciente, faminto e alquebrado, ao qual as forças iam abandonando paulatinamente.
O homenzinho, quando o elefante pisou o gramado do palácio, deixou-o seguir sozinho e retornou depressa, para não ser notado, ficando lá o Brasil a caminhar devagar, examinando a grama, na esperança de encontrar um tufo mais saliente, que sua tromba pudesse arrancar para minorar sua fome.
Mesmo cercado de verde, sua esperança morreu e ele parou em frente a uma janela, vendo pela primeira vez o seu reflexo espelhado no vidro, que um sol recém-nascido fazia refletir na grande vidraça. Não sabemos se o Brasil orgulhou-se de sua estampa. Cremos que não teve tempo para isso.
O Presidente, homem de hábitos rígidos e de disciplina militar, levantava-se cedo. Logo a janela se abriu e ele nela assomou, para respirar o ar fresco da manhã.
Olhou para baixo e viu o Brasil. Ali estavam os dois, frente a frente. Entre ambos não era possível haver um diálogo, é lógico. O espanto do Presidente não era menor que o do Brasil. Era o seu primeiro encontro a sós e talvez escapasse ao estadista o estado do elefante. Estava mais magro do que nunca, abatido por tantas mudanças, cansado e com fome.
Poderia aquele que o contemplava agora, do alto de sua solidão, salvá-lo? Para esta questão as opiniões se dividem de forma muito pouco equitativa. Há uma minoria que acha que sim. Há uma grande maioria que acredita que não.”

sábado, 28 de março de 2015

Ciência e Religião: Uma Longa Incomunicabilidade


Conhecimento evolui, mas há momentos em que o cenário antigo convive com o novo, que aos poucos vai se consolidando no território das idéias. No século XVII a Medicina já vivia a aurora de uma verdadeira revolução científica com a divulgação dos trabalhos experimentais de Harvey, que elucidaram a fisiologia da circulação sanguínea; de Lavoisier com a descoberta do Oxigênio e de Hooke e van Leeuwenhoek, que, ao desenvolverem o microscópio ótico, ampliaram a compreensão da vida para além da dimensão macro dos fenômenos.  
Os avanços prosseguiram de forma consistente com o Iluminismo no século XVIII. Morgagni, por exemplo, publicou em 1779 um longo trabalho de investigação anatômica  em três volumes - The Seats and Causes of Diseases - que buscava correlacionar a história clínica de uma série de casos com os achados anatomicos encontrados nos cadáveres. Por isso é considerado o pai da anátomo-patologia. Laënnec, que tinha entre seus livros o Commentaires de Aphorismes de Medicine, de Boerhave, um diálogo entre anatomia e a fisiologia  da época com os princípios hipocrático, além de clínico notável e piedoso inventou o estetoscópio que até hoje é usado na avaliação médica de rotina.
Se o novo sempre vem, assim diz a música quase em tom de consolo, por outro, o que será ultrapassado durante algum tempo persiste teimoso, empedernido e ultrapassável.
É o caso deste Porque De Todas As Cousas (El porqué de todas las cosas), escrito por André Ferrer de Valdecebro, dublê de padre e naturalista, publicado ainda no século XVII, mas com longa carreira de edições como demonstra esta tradução portuguesa do século XIX. O objetivo desse trabalho é explicar o mundo do ponto de vista moral,  negando-se a qualquer diálogo transversal com o conhecimento científico produzido e acumulado por outras disciplinas como a biologia, a física, a química e a anatomo-fisiologia. Quem sabe por essa razão o padre Victorino José da Costa, convencido da caduquice do trabalho, tenha preferido adotar prudentemente o  pseudônimo Manoel Coelho Rebello para assinar a tradução do livro...
Para avaliarmos a imensidão desta incomunicabilidade recalcitrante, imaginemos o impacto dessa argumentação retrógrada e refratária ao novo sobre quem fosse buscar saber sobre o baço, por exemplo, no quiz de Valdecebro:

" Porque temos Baço?"
" Por que nelle se recolhe o humor melancólico; e porque recebe as superfluidades das estranhas."
" Porque são delgados os que tem muito Baço, e gordos, os que tem pouco?
" Porque o muito recolhe a humidade, que gera a gordura; o pouco não a pode recolher, e se converte em gordura."
Levou tempo para a Igreja Católica fazer as pazes com a ciência, como hoje podemos verificar nas opiniões do atual Papa Francisco.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Vida Como Mercadoria

Stefan Zweig, refletindo sobre a progressiva desumanização da Economia, escreveu que era impossível estimar valores para a vida. Esse argumento durou até a consolidação da Biologia Molecular. A partir daí, com a translação dos resultados científicos obtidos em laboratório para a dimensão do mundo prático, a exemplo o espetacular desenvolvimento de marcadores de diagnóstico tumoral e dos alimentos transgênicos, a vida foi em definitivo levada ao mercado.  
Esse processo emerge em meio a crise econômica mundial dos anos 70 e obriga os estados hegemônicos a elaborarem uma sofisticada legislação que preparasse com segurança o terreno para que empresas tradicionalmente ligadas a outros campos econômicos, como é o caso da Bunge,  mudassem seus planos de negócios e dominassem o desenvolvimento e do comércio em escala de produtos biotecnológicos "engenheirados", que distinguem-se pelo valor agregado de conhecimento e trabalho científicos altamente especializados.