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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Literatura e Loucura na Confraria dos Bibliófilos

Eu lhes confesso nesse caso minha ignorância: dessa senhora nunca tinha ouvido falar antes. Nem mesmo em conversas com amigos mineiros, ou com o paraense e mineiro-honorário Rômulo Paes, meu amigo desde muitos anos. Daí que ao receber a publicação de fim de ano da Confraria dos Bibliófilos, que coincide com a comemoração dos dez anos da associação, fui surpreendido pela prosa de Maura Lopes Cançado e, depois, na medida em que a lia, pelas consultas que fiz, sensibilizado pela vida sofrida que teve enquanto esteve entre nós, profunda e tragicamente marcada pelo transtorno mental, a exclusão e a violência por regra associadas.
Dona de uma produção literária enxutíssima - publicou Hospício é Deus (1965, José Álvaro Editor) e o Sofredor do Ver (1968, José Álvaro Editor) -, admirada por escritores de nosso cânone literário - de Ferreira Gullar a Clarice Lispector - ao mesmo tempo que se me revelou como obra confessional, conclui que Sofredor de Ver desvela ao leitor do século XXI uma autora encoberta de forma injustificável pelo mainstream cultural do país, que no entanto soube apreciar e difundir a inquietante arte de Antonio Bispo do Rosário, de merecida fama.
A obra de Maura Lopes Cançado, afora a luxuosa edição de 501 exemplares dos sócios da Confraria, está esgotada. Edições anteriores são vistas, contudo, com alguma sorte nos sebos brasileiros, que sabedores da raridade e da importância chegam a cobrar até R$300 reais por volume, quando autografado. Por outro lado, na academia, não menor é a raridade de estudos sobre a prosadora mineira. Nesse campo, destaco a tese de doutorado Narrativas e Sobreposições: Notas sobre Maura Lopes Cançado (Unicamp, 2010), tese de Maria Luísa Scaramella, que elude questões importantes sobre a vida e a obra daquela autora.
Em tempos que o Ministério da Saúde repensa a política pública de atenção psiquiátrica no Brasil, a leitura de Sofredor do Ver nos obriga a de novo refletir sobre questões importantes, apontadas com agudeza nesse livro, mas de antes já registradas no Diário do Hospício e Cemitério dos Vivos (Lima Barreto. Cosac Naify, 2010), Diário de um Louco (Gogol) e filmes como os documentários Titicuts Follies (Wiseman. EUA, 1967) e Dizem que Sou Louco (Chnaiderman. Brasil, 1994) e o hit da década Bicho de Sete Cabeças (Bodanzki. Brasil, 2001).
Com respeito a exclusão e a violência registradas nos escritos de Maura Lopes Cançado, entre tantas sofridas, destaco esta reflexão que para mim é entre todas a superior e mais vil, pois testemunha o desfecho do poder psiquiátrico no despojamento da identidade do indivíduo como ser e pessoa :
Terminarei pela vida como essas malas de viajantes que visitam vários países e em cada hotelpor onde passam lhes pregam uma etiqueta: Paris, Roma, Berlim, Oklahoma. E eu: PP, paranóia, esquizofrenia, epilepsia, psicose maníaco-depressiva, etc. Minha personalidade será sufocada por etiquetas científicas.Pois assim transcorreram tumultuários os seus dias, com recebimento de rótulos até o fim. Quando vítima de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica faleceu aos 61 anos, interna em sanatório no Rio de Janeiro, já haviam lhe acrescido a aquele etc do parágrafo anterior o grave título de louca homicida. Vivia nesse tempo no mais absoluto anonimato e nem mais escrevia.

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O livro Sofredor de Ver, publicação da Confraria dos Bibliófilos, foi ilustrado por Manu Maltez. Algumas das ilustrações encartadas no livro podem ser vista no blog do premiado artista gráfico.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Elegância da Medicina

























Fronstipício de De Humanis Corporis Fabrica (1543).
Colorido posteriormente.


A Escola de Medicina da Universidade de Nova Iorque faz questão de estabelecer a primazia do ensino da clínica à beira do leito do paciente em sua página eletrônica. Entretanto, a escola conjuga tradição osleriana com alta tecnologia didática.
Na NYU os alunos de anatomia tem por suporte ao estudo teórico não o tradicional livro de Garder & Gray ou do Sobotta, por exemplo, mas sim um atlas anatômico digital... que utiliza tecnologia 3-D.
Nessas horas, quando tenho a informação de tais progressos, recordo da emoção que tive em Bethesda ao manusear na National Library of Medicine a primeira edição De Humanis Corporis Fabrica, obra seminal escrita por Vesalius* em 1543.

* Na gravura acima, Vesalius é o homem de barba escura que toca a perna direita do cadáver. Para ampliar clique duas vezes sobre a imagem.

domingo, 18 de dezembro de 2011

E Aquilo Deu Nisso?

A Penguin Books, editora de âmbito internacional, está presente no Brasil pelo menos há um ano, com a confirmação de que vende livros a preço justo em consórcio com a brasileira Companhia das Letras. Ao catálogo internacional, que guarda títulos importantes para o conhecimento, a parceria tem agregado obras para o Brasil, dos quais são exemplo, entre outros, o Essencial de Joaquim Nabuco, o Essencial de Padre Antônio Vieira (com inédito A Chave dos Profetas) e os Apontamentos de Viagem (J.A. Leite Moraes).
Dos bate-pernas dos chamados viajantes na Amazônia, Leite Moraes talvez seja um dos menos conhecidos, ainda que a paixão dos bibliófilos pague pequena fortuna para ter a primeira edição do livro, publlicado salvo engano pela Câmara Municipal de São Paulo, em edição de magra tiragem. Logo, reedições como essas da Penguim e, seja dito, antes a da Companhia das Letras são importantes para a perenidade do instantâneo que Leite Moraes deu ao público de sua época e às gerações do futuro (em última forma, publicações almejam sempre a eternidade).
Haroldo Maranhão, patrono desse blog, não selecionou Mello Moraes para compor sua revisão literária, a que deu o título de Pará, Capital: Belém/ Memórias & Pessoas & Coisas & Loisas da Cidade (Prefeitura de Belém, 2000). Não importa, pois esses Apontamentos de Viagem, escrito pelo avô do maior intelectual brasileiro já havido - Mário de Andrade -, é obra de importância para o estudo da civilização na Amazônia entre o fim do século XIX e o início do XX, ainda que não acresça de maior originalidade aos registros realizados por outros que, advindos aos trópicos com o espírito de capitalistas da Segunda Revolução Industrial, interpretavam com bom ânimo o pensamento e o empreendedorismo, enquanto silenciavam sobre a violência escancarada e as omissões das elites na fronteira amazônica do capitalismo.
Não é segredo que permanecemos fronteira de riqueza, cobiças e vícios do capital. E essas reflexões à maneira da que nos foi legada por Mello Moraes, de que "em Belém tudo é grande e tudo indica o desenvolvimento daquele povo", ao tempo em que o Pará e Belém representavam faces do mesmo ente, mas não escapes do inevitável espelhamento entre o discurso Belle Époque de Paris n'América e o que de fato foi construído nas sequências entrantes do futuro, hoje misère obligé (criação do poeta José Paulo Paes) constituem para nós, paraenses, um doloroso legado que, confrontado com a degradação experimentada ao longo de um século, representa a apavorante constatação de que a ópera dessas elites se reduz a um drama desvirtuoso, que ofende por onde se escute ou leia aos mais comezinhos princípios do direito e da moralidade pública.
Para remédio que supere essa farsa /farra grotesca, só nos resta chamar a quem nos bastidores sempre esteve; a quem tudo assistiu bestializado e violentado no mato, na senzala e nas atualizados reservas de miséria da capital e do interland paraense: O povo, ou os bárbaros como preferem alguns, pois só ele permitirá reverter essa empreitada de bucaneiros. Como disse a clarividência poética do grego Kaváfis - Sem bárbaros o que será de nós? / Ah! eles eram uma solução.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para Entender o Egito


A revista Foreign Affairs em 12 de março de 2009 publicou o seguinte roteiro bibliográfico para quem deseja compreender o papel do Egito hoje, no complicado tabuleiro político internacional. A materia da revista tem autoria de Mona El-Ghobashy. A tradução e ajustes ao texto é do editor deste blogue.

O QUE LER SOBRE POLÍTICA EGÍPCIA

O Egito de Nasser e Sadat: A Economia Política de Dois Regimes. Por John Waterbury. Princeton University Press, 1983.

Passados 25 anos de sua publicação, este livro ainda é o melhor estudo sobre as elites do Egito e suas estratégias de sobrevivência. John Waterbury descreve como os dois primeiros presidentes do Egito construíram um poderoso Estado, apesar dos obstáculos nacionais e internacionais. Ambos, Gamal Abdel Nasser e Anwar al-Sadat, reestruturaram a sociedade e a economia para dar sustentação ao novo estado: o primeiro, por meio da subordinação do capital privado aos interesses do Estado; e Sadat, por meio do fortalecimento dos laços entre o sector privado e os representantes estatais. Ambos os presidentes habilmente projetaram a arena política doméstica de modo a evitar que trabalhadores, camponeses e a classe média urbana se organizassem politicamente de forma independente, legando às gerações futuras a tradição de autoritarismo que domina a política do país. Influenciada pela Teoria da Dependência e pela análise marxista, que alguns consideram datadas, a análise de Waterbury sobre os estratégia política dos governantes do Egito continua atual e mais relevante do que nunca.


O Egito de Mubarak: A Fragmentação da Ordem Política.
Por Robert
Springborg. Westview Press, 1989.

O Autor descreve como
presidente Mubarak conseguiu sobreviver politicamente apesar de crescentes pressões nacionais e internacionais. Concentrando-se nos primeiros anos de mandato de Hosni Mubarak, Springborg retrata o presidente como um estrategista consumado, que joga grupos de oposição interna um contra o outro, no estilo "dividir para reinar em famíla". O livro destaca duas das tendências mais significativas na política egípcia: a metódica redução do papel político das forças armadas egípcias e o fortalecimento da oposição laica as elites relacionadas com os fundamentalistas islâmicos.

A Sociedade dos Irmãos Muçulmanos. Por Richard P. Mitchell. Oxford University Press, 1993.

Publicado pela primeira vez em 1969, é este o estudo original ainda sem rival sobre a organização do Egito. Descreve o grupo religioso de maior da oposição ao governo de Mubarak, a Irmandade Muçulmana, que serviu de inspiração para muitos outros grupos islâmicos no mundo inteiro. Mitchell estuda o período de 1928-1954, em que narra como o carismático professor Hasan al-Banna fundou um movimento de massa que pedia "um governo inspirado pela religião, não um governo religioso". O estudo é organizado em três partes - uma explora a história do grupo, outra o aspecto organizacional e o terceiro os princípios ideológicos . A análise do autor sobre o grupo é a um só tempo justa e cética, embora evite o tom polêmico que costuma caracterizar a maioria das discussões sobre a Irmandade Muçulmana. O capítulo da conclusão representa uma valiosa previsão da transformação da Irmandade em um ator político crucial na história egípcia.

"A Irmandade Vai ao Parlamento" Por Samer Shehata e Joshua
Stacher. Middle East Report 240 (Fall 2006): pp 32-39.


Bom complemento ao livro de Mitchell, este panorama rápido acompanha meio século da participação parlamentar contemporânea da Irmandade Muçulmana. Através de entrevistas e da observação das atividades de 88 parlamentares, os autores demonstram porque os membros desse grupo religioso representam na verdade um verdadeiro partido político no Egito. Quer ao liderarem protestos de rua em apoio a juízes de oposição, quer na formulação de regras parlamentares, os deputados da Irmandade injetaram vida nova em legislaturas marcadas pela subserviência ao governo Mubarak. Shehata e Stacher sugerem nesse relatório a iminência de um endurecimento governamental. E eles estavam certos: em março de 2007, o governo Mubarak alterou a Constituição, proibiu os partidos políticos de base religiosa e enfraqueceu a supervisão judicial nas eleições.

Avenidas de Participação: Família, Política e Redes na Periferia do Cairo. Por Diane Singerman. Princeton University Press, 1996.

Estudos sobre política egípcia em geral teem foco nas elites e em seus opositores. Mas como os egípcios comuns defendem seus interesses? Este livro fascinante enfoca as redes informais construídas por cidadãos comuns, como "caminhos de participação" em um espaço público que rotineiramente os exclui. Diane Singerman nem romantiza as pessoas comuns, nem ignora o seu comportamento de "resistência" ao Estado. Para a pesquisa do livro, ela conviveu com uma família de classe baixa, na periferia do Cairo e observou como seus anfitriões e a vizinhança estabeleceram associações de poupança para financiar cerimônias de casamento, discutir sobre normas, convenções sociais e o relacionamento com instituições semi-oficiais, tais como organizações voluntárias privadas. Singerman não está interessada no que "a rua" pensa de seus líderes, o seu interesse reside na forma como os excluídos se organizam politicamente., sempre que confrontados com o fato de que as instituições
políticas formais estão cada vez mais distantes de seus interesses.

O Edifício Yacoubian. Por Alaa Al Aswany. Harper Perennial, 2006.



Quase que simultâneo a sua publicação no Cairo em 2002, O Edifício Yacoubian tornou-se um bestseller. Ele foi rapidamente traduzido para o Inglês e em seguida adaptado para o cinema*, constituindo-se num blockbuster de elenco estelar. O livro é um drama repleto de personagens mais ou menos fictícios, onde a narrativa transcorre num edifício de passado glorioso, que veio decaindo prosseguivamente com o passar do tempo, ao modo de uma metáfora com o Egito moderno. Os moradores vivem lado a lado, mas seus mundos distintos e imiscíveis: o capitalista desonesto divide espaço com vizinhos miseráveis, lobistas corruptos dividem espaço com trabalhadores oprimidos, enquanto a violenta polícia egípcia vigia a todos sem descanso. É uma crítica ácida estabelecida a partir do contraste entre a nostalgia romântica pré-1952 e a atualidade das desigualdades sociopolíticas no Egito.


*O filme está disponível em dvd brasileiro, distribuído pela Imovision/Sonopress.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Propósito do Aniversário de São Paulo

Hoje a cidade de São Paulo completa anos, contados a partir de seu nucleamento na missão jesuíta, sob as lideranças dos padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta. Transcorreram desde então 457 anos de uma história marcada pelo sucesso político, econômico e cultural, para a qual concorreram contribuições de gerações brasileiros, inclusive daqueles incorporados à nacionalidade pela política de emigração inaugurada no império de Dom Pedro II.
Sabemos que, durante o Império, e nos primeiros anos da República Velha que selaram a decadência mortal da economia gomífera na Amazônia, a borracha esteve entre as principais commodities que sustentaram o desenvolvimento voltado para os estados do sudeste e sul brasileiros. Entretanto, para o Pará e o Amazonas, descartadas as melhorias urbanas levadas em Belém e Manaus com recursos próprios dos governantes locais, a maior parte da riqueza originada das exportações do látex foi apropriada de forma unidirecional pelo governo central e aplicados na sustentabilidade do projeto de desenvolvimento e fortalecimento econômico dos estados sulistas.
Em diversas trechos de A Borracha na Amazônia: Expansão e Decadência (1850-1920), Bárbara Weinstein descreve com precisão dramática o problema :
De maior importância ainda, na área financeira, era que quase toda a receita ia para o governo central, restando ao Pará apenas a receita proveniente de impostos de exportação arrecadados localmente. (...) Quanto ao comércio internacional, desde 1898 a borracha respondia por pelo menos 20% do valor total das exportações brasileiras, atinjindo, em 1910, 40% (em comparação com 41% do café).
No início da década de 1870, o Império ganhava entre 4.500 e 5000 contos por ano com o comércio da Amazônia, ao passo que a receita da província mal atingia uma terça parte disso. (...) A corte se mostrava mais interessada em financiar assentamentos de imigrantes no Extremo-Sul, onde, reconhecidamente, as colônias européias teriam mais probabilidade de prosperar do que na longínqua e tórrida Amazônia.
Que, ao comemorarmos com orgulho o aniversário de fundação da cidade de São Paulo, façamos uma breve, mas necessária reflexão sobre a urgência de um projeto sustentável de desenvolvimento nacional, que dê conta do passivo das diferenças regionais tão presentes em nosso cotidiano ainda hoje, com notável impacto na pesquisa, no desenvolvimento e na inovação científicas.

domingo, 7 de novembro de 2010

O Olhar Crítico de Chico Cavalcante

























Chico Cavalcante, à esquerda entre os melhores do marketing político na Amazônia, concedeu entrevista este domingo ao jornal Diário do Pará. Em pauta a avaliação da estrondosa derrota da governadora Ana Júlia Carepa (PT/PA), que pleiteava a reeleição, em favor do candidato Simão Jatene (PSDB/PA). Para entendermos melhor a dimensão desse desfecho, cabe recordar que a candidata petista foi eleita em 2006, a partir da derrota do partido neoliberal tucano, que , nessa altura, governava o Pará por 12 anos e pretendia estender seu domínio político pelo menos por mais oito.
Numa sequência de respostas ilustrativas a perguntas formuladas num estilo curto e objetivo, o entrevistado afirma seu domínio teórico-prático da comunicação em política, fato que antes havia já demonstrado em seus livros Marketing de Guerrilha e o Novo Marketing Político. O texto da entrevista considero obrigatório para aqueles que estudam ou teem curiosidade sobre comunicação e marketing aplicados. O conteúdo está acessível clicando-se sobre a imagem que acompanha a postagem, ou aqui: na página do Diário do Pará.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A Soberania da Clínica

O The American Journal of Medicine deste mês (vol. 23, n.10, outubro, 2010) traz um interessante estudo de acurácia da ausculta cardíaca. O autor, clínico do Centro Médico de Atendimento a Veteranos da Universidade de Washington, em Seattle, examinou 379 pacientes e concluiu que apesar da ausculta cardíaca ser pouco explorada em suas potencialidades nos dias de hoje, seu valor semiotécnico ainda é apreciável na prática médica. A leitura do artigo permitiu-me que relembrasse meus tempos de estudante de Propedêutica Médica na Universidade Federal do Pará, quando fui aluno da notável Profa. Bettina Ferro de Souza. Muito do que o artigo diz, a saudosa mestra já ressaltava trinta anos atrás. Para ler o estudo completo do doutor Steve McGee clique aqui.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Uma Escolha a Ser Feita

De vez em quando alguém diz que hoje se le menos, que os jovens não leem mais, que entramos, como afirmou um crítico americano, na idade do "Decline of Literacy". Eu não sei, certamente hoje as pessoas veem muita televisão, e existem indivíduos de risco que não veem nada além de televisão, assim como existem indivíduos de risco que gostam de injetar substâncias mortais na veia: mas também é verdade que nunca se imprimiu tanto quanto em nossa época, e que jamais como em nossos dias floresceram livrarias que parecem discotecas, cheias de jovens que, mesmo quando não compram, folheiam, examinam, informam-se.
O problema é antes, inclusive para os livros, o da abundância, da dificuldade de escolha, do risco de já não conseguir discriminar: é natural, a difusão da memória vegetal tem todos os defeitos da democracia, um regime no qual, para permitir que todos falem, é preciso deixar falarem também os insensatos, e até os cafajestes. Há o problema de como educar-se para escolher (...).

Extraído do livro de Umberto Eco - A Memória Vegetal e Outros Escritos sobre Bibliofilia (Record, 2010. 271 pg).

quinta-feira, 3 de junho de 2010

WolframAlpha, Ferramenta de Conhecimento

Calcula-se que 1 de cada 35 brasileiros tem a probabilidade de morrer em acidente de trânsito no país. Cheguei a essa informação por meio de uma ferramenta de computação para garimpagem informacional, o WolframAlfa. Recomendo uma visita exploratória.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Dossiê Sócioambiental

O Instituto de Estudos Avançados da USP lança o número 68 da revista USP Estudos Avançados. Dossiê/ Teorias Socioambientais, dedicado ao geógrafo Aziz Ab Saber. Leitura indispensável a quem tem interesse no tema ambiental. Edição integral aqui.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tempos da Arte e da Cura



Livros sobre História de Medicina no Brasil são raros, quando comparados à edição de volumes das especialidades médicas. A obra do médico Eurico de Aguiar, ao analisar a Medicina em perspectiva histórica, ressalta em cada capítulo a importância daquela disciplina injustamente subtraída do currículo médico. A nova edição poderá ser solicitada ao Sindicato Médico do Rio-Grande do Sul - Fundo Editorial SIMERS. Rua Cel. Corte Real, 975 - Petyrópolis - 90630-080. Porto Alegre - RS. Telefone 51-3027-3737. Ou com diretamente com o autor: euricoag@terra.com.br

domingo, 13 de dezembro de 2009

Viajantes da Amazônia Brasileira





















Em edição da Metalivros, foi publicado Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros, 2009. 242 pg.). O autor é um paraense honorário, paulista de nascimento, João Meirelles Filho, que antes já havia publicado O Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro, 206. 480 pg.). O Grandes Expedições é um esforço de reunião e síntese do conhecimento sobre viagens de exploração da Amazônia brasileira, escolhidas pelo autor a partir de um recorte temporal que vai de 1500 até 1930, iniciando-se, portanto, com o relato do achamento da foz do Amazonas por Vicente Yáñez Pinzón e finalizando com as expedições do general Rondon à região, no terceiro decênio do século XX.
Está claro que nesse intervalo de tempo muito mais expedições aconteceram, além das 42 selecionadas para resgatar para a literatura nacional e regional a importância do tema dos viajantes da Amazônia. De fato é uma pequena amostra de um universo que supera mais de 1000 relatos publicados ou não, a maioria fora do catálogo das editoras, outras sem tradução para o vernáculo, com acesso restrito às seções de obras raras das bibliotecas públicas e particulares e à venda em alfarrabistas, onde com frequência alcançam preços na casa de centenas ou milhares de reais, conforme seja a raridade e o estado de conservação dos títulos. O próprio autor de Grandes Expedições reconhece a impossibilidade de resenhar todos os relatos dos viajantes na Amazônia, o que obrigaria a rever o planejamento e o formato da obra para uma condição enciclopédica, elevando assim custos não só editoriais, mas aqueles de pesquisa que respondessem às necessidades de ampliação do trabalho.
Porém, nem por isto o Grandes Expedições fica comprometido em seu objetivo de resgate e disseminação da informação histórica, para conhecimento do grande público. Como obra de divulgação, cabe ressaltar que o livro não trata de simples recompilação de notícias passadas, busca de algum modo articular a súmula das viagens com referenciais acadêmicos, sem contudo pretendê-los substituir.
Como limitante para o consumo amplo da obra, eu apontaria apenas o preço de aquisição do volume, a R$ 140, valor que o distancia do poder aquisitivo do leitor médio brasileiro. No que concerne a qualidade do livro, temos o padrão das publicações de luxo produzidas pela Metalivros, descontando um ou outro pequeno deslize de revisão, como por exemplo grafar Ferdinand Keller em vez de Franz Keller, que é o nome correto do autor de Vom Amazonas und Madeira (Stuttgart, 1874), viajante citado, mas infelizmente não resenhado, apesar desta viagem ter grande relevância para a região do Rio Madeira, enquanto exploratória para o desenvolvimento do projeto da E.F. Madeira-Mamoré. O volume, por fim, ainda é mais enriquecido por seus anexos, onde encontramos um precioso rol que nos lista cerca de 567 expedições à Amazonia brasileira, que excedem em muito àquelas detalhadas ao longo do livro.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estatinas e a Prevenção de Eventos Cardiovasculares

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, em colaboração com a Agência de Saúde Suplementar (ANS) e Ministério da Saúde, lança mais um Boletim Brasileiro de Avaliação de Tecnologias de Saúde (BRATS) para responder questão sobre o custo-efetividade das estatinas na prevenção primária de eventos cardiovasculares. O termo custo-efetividade pertence à economia da saúde e indica se o custo de uma tecnologia é adequada ao benefício real que ela assegura. Trata-se de um dos melhores números do BRATS já produzidos. Obrigatório para gestores da saúde, médicos clínicos e cardiologistas.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

À Francesa: Grippe

























Na história da Humanidade, epidemias sempre estiveram presentes. Antes que a ciência compreendesse o papel das bactérias, fungos e vírus na origem das doenças infecciosas o mundo as compreendia como resultado de flagelos divinos ou de contágio com emanações de máteria em decomposição (miasma). Entretanto a compreensão dos mecanismos das doenças não foram necessariamente acompanhados em paralelo com avanços no modo de tratar as doenças infecciosas. Até a descoberta e produção comercial da penincilina nos anos 40 do século passado, a medicina estava limitada a tratamentos hoje anedóticos, embora representassem a única possibilidade terapêutica que os clínicos de família tinham à mão.
A ilustração deste post foi retirada da versão digital do Dicionário de Medicina Popular, (ed. 1890) de Pedro Leão Chernoviz, disponível no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, e exemplifica como seria o tratamento recomendável para alguém acometido de resfriado. O livro é um clássico da História da Medicina Brasileira e foi bastante utilizado entre nós no século 19 , especialmente em lugares distantes, onde não haviam médicos e boticas. Na Amazônia, por exemplo, há notícias de seu uso até no primeiro quarto do século 20 tanto entre famílias da região, quanto no comércio de regatão que atendia os seringueiros nos confins da floresta.
No Dicionário, o termo grippe, de origem francesa e internacionalizado desde 1743, é descrito como termo vulgar para a descrição de bronquite epidêmica, associando-lhe um quadro clínico onde predominam a febre, a tosse, dor de garganta, vermelhidão dos olhos e prostração. O autor, como podemos observar, dá ao quadro gripal uma origem infecciosa (epidêmica), ainda que a limite como doença do aparelho respiratório, quando na verdade, hoje sabemos, ela o é sistêmica, isto é, o vírus circula por todo o organismo. Nos casos de maior gravidade da gripe suína (H1N1), por exemplo, temos lesões pulmonares, renais e hepáticas. Entretanto, no tempo de Chernoviz, os tratamentos de gripe e resfriado (hoje constipação está em desuso) não apresentavam diferenças significativas, demonstrando os limites da ciência.

Caso haja desejo de ampliar a imagem anexa, basta um duplo clique sobre ela.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Stents - Qual a Melhor Evidência Científica?

A Agência de Vigilância Sanitária (ANVISA) lança o oitavo número do Boletim Brasileiro de Avaliação de Tecnologias em Saúde - BRATS. O tema é Stents Farmacológicos e Stents Metálicos no Tratamento da Doença Arterial Coronariano. Acesse aqui.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Gripe Suína: Dois Documentos Importantes

A Organização Pan-Americana de Saúde circulou hoje dois documentos com informações importantes sobre a gripe suína, situando o assunto inclusive numa perspectiva histórica. Trata-se do The Swine Flu Affair (O Caso da Gripe Suína), publicado em 1978 pelo prof. Richard E. Neustadt, da Escola de Governo John F. Kennedy (Universidade de Harvard) e o Pandemic Influenza: A guide to Recent Institute of Medicine Studies and Workshops. Leitura obrigatória para os profissionais de saúde.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Discurso Sanitário Pré-68



Na década de 60, a Editora Civilização Brasileira, sob a direção de Álvaro Vieira Pinto e de Ênio da Silveira, editou a coleção Cadernos do Povo Brasileiro. Este que aqui resgatamos para os leitores do Vôo de Galinha - De que morre o nosso povo? - foi escrito por Aguinaldo N. Marques, tendo como autor da capa o genial artista gráfico Eugênio Hirsch. A tiragem ia a mancheia em centenas de milhares como revela a contracapa desse décimo sexto volume da coleção.
Transcreve-se aqui a exemplo de conteúdo suas primeiras páginas, que a despeito do golpe militar de 64 até hoje é válido, especialmente quando hoje a Organização Mundial da Saúde discute os determinantes sociais da saúde como fator crucial para a compreensão da equidade e das iniquidades em saúde:
É comum ouvirmos declarações como estas; "vamos acabar com as verminoses'; "vamos acabar com a fome"; "vamos acabar com a paralisia infantil", como se esses estados mórbidos existissem sozinhos, sem relação com o resto dos problemas humanos da mais variada natureza, sobretudo econômicos e sociais, ou como se fosse possível, resolvendo aqueles, resolver todos os demais.
Quando, por exemplo, se promove uma festa de caridade para ajudar um orfanato, um hospital, uma maternidade, vários erros estão sendo cometidos: 1o.) não é com medidas simplórias - e este é o principal engano - e isoladas que problemas de tamanha gravidade vão ser resolvidos; 2o.) entorpecimento dos interessados, dando-lhes a impressão de que por estes meios os seus problemas serão resolvidos; 3o.) não há a menor intenção, de parte dos promotores e participantes de tais ofertas, em resolver aqueles problemas; 4o.) faz-se larga exibição de intenções hipócritas, facilmente identificáveis; 5o.) humilha-se os pobres , mediante o expediente de lhes dar como esmola aquilo que, afinal de contas, é de seu direito.
Quanto ao autor, médico e professor universitário, manteve a militância política e a produção literária, ainda que infelizmente não se tenha dele qualquer notícia mais atual. Além dessa plaquete, Aguinaldo N. Marques foi autor de outras obras conforme resgatam as listagens dos sebos: Fundamentos do Nacionalismo (1960), Infancia no Brasil em Transformação (1973), Pediatria Social (1986), Origens e Trajetórias do Socialismo (1995).

sábado, 17 de janeiro de 2009

Saúde Nas Américas

Lançado pela Organização Pan-Americana de Saúde A Situação de Saúde nas Américas: Indicadores Básicos - 2008. Discute-se entre outras questões a necessidade de metodologia que valide a qualidade da informação sobre mortalidade infantil, indicador relacionado diretamente com o Objetivos do Milênio. Em PDF, no espanhol aqui.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Degeneração Macular

Número novo do Boletim Brasileiro de Avaliação de Tecnologias de Saúde - BRATS, com o tema Inibidores da Angiogênese para Tratamento da Degeneração Macular Relacionada à Idade. Integrante da equipe do Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT) do Ministério da Saúde, colabora de fato em todos os números do BRATS o farmacêutico Marcus Tolentino. Aqui em PDF.