domingo, 8 de agosto de 2010

Meu Pai

Apesar de estarmos em condição humilde na década de 60, a vida de meu pai conhecera antes um período longo de bon vivant entre a infância e a maioridade, quando de súbito revezes familiares iluminaram para ele a crueza do mundo real. Se antes a boa fortuna dera ao meu pai as melhores oportunidades que um jovem podia ter naquela época, foram todas infrutíferas por razões muito superiores a ele, a que respondia com a imaturidade da idade, logo transformada em mágoa e revolta inconsequentes, aprisionando-o num círculo vicioso.

A queda no completo desemparo de proteção financeira, foi-lhe redentora e o libertou em definitivo para a vida que construiu com honestidade material e moral até os 61 anos, quando veio a falecer de súbito sem que me desse a chance de adentrar o espaço de seus longos silêncios, sempre invariáveis entre o fim da tarde e o início da noite, depois que retornava do trabalho. Quando questionado por mim, respondia com aquele olhar melancólico que já trazia de menino, e dizia com um quase sorriso, o cigarro na boca, que não era nada. Essa reserva com suas dores, hoje, tenho certeza, ele extendia até mesmo a minha mãe, como se estabelecesse a partir de si círculos concêntricos que compartimentalizavam os relacionamentos, como para atenuar choques e os proteger entre si de comunicação.

- Teu pai anda rezando, coisa rara. Ele não me disse nada, mas é sinal que ele está com algum problema! Na minha infância por diversas vezes ouvi de minha mãe esse comentario, sem que, depois, se tivesse notícia ou compreensão do quê buscava nos livros de kardecismo que ambos professavam.

Em termos de leitura o vi ler além de livros do Espiritismo – e só Alan Kardec – apenas os jornais diários e revistas de variedades, que amigos lhe emprestravam, e as coleções de Medicina e Saúde, que integralizou quando melhoramos de poder aquisitivo, junto com As Grandes Óperas. Entretanto, à medida em que eu crescia e conversávamos, evidências de que suas leituras não se limitaram a esses títulos ficavam mais claras. Se eu trazia para casa o trabalho escolar de resenhar e comentar algum capítulo de Os Lusíadas, ele com tranquilidade ouvia e comentava o que eu tinha escrito; se fosse necessário uma opinião sobre o Quijote, a Ilíada ou que raios seria aquela anotação sobre um tal Khalavelá que o professor Isidoro falara, também ele opinava. Eram ecos da formação do mundo que o abandonara, ou melhor, que ele em definitivo decidira um dia abandonar.

Meu pai, a saudade vai e vem como ondas, ora mais fortes, ora mais calmas, mas sempre bem-fazejas. Mar e saudade rimam? Ah, faz muito tempo!

2 comentários:

Yúdice Andrade disse...

Uma bonita crônica. Se não é possível abraçar teu pai nesta data, reconforta poder pintá-lo em cores tão doces.

Itajaí de Albuquerque disse...

Muito obrigado, Yúdice.