sábado, 29 de maio de 2010

Um Falcão na Academia de Letras da Bahia






















Ontem à noite recebi com alegria a notícia de que meu amigo João Falcão, grande memorialista da literatura baiana e brasileira, fora eleito para a Academia de Letras da Bahia. O ex-proprietário do Jornal da Bahia será o titular da cadeira número 35, que tem como patrono o médico, ex-vice presidente da República e senador Manoel Vitorino Pereira.
Conforme recordo de Ruy Barbosa, a escolha de homens como João Falcão fortalece o princípio maravilhoso que senhoreia nossos espíritos, testemunha aquela liberdade que as instituições devem ter para a escolha de seus pares nos altiplanos de pensamento que dignificam os valores da democracia, da paz e da igualdade entre homens e povos.
Parabéns, doutor Falcão.

terça-feira, 25 de maio de 2010

No Salão Hillary Faz a Alegria do Maestro


Presidente Eisenhower despede-se da presidência (1961)

Dizem que nada melhor que uma guerra para por de pé uma economia industrial em crise. A dedicação da secretaria de estado Hillary Clinton em fazer naufragar o Acordo Diplomático Turquia-Irã, mediado pelo governo brasileiro, tem uma única razão que apenas a mídia brasileira parece desconhecer como fosse querubim, daqueles cacheados e gordinhos que inofensivos assistem missas nas igrejas barrocas brasileiras.
A razão da Sra. Clinton para ensaiar uma valsa antipática à diplomacia estão explícitas aqui e aqui. Causa idêntica a que o general Eisenhower se referiu em seu famoso discurso de despedida da Casa Branca, quando a descreveu como potencial risco aos valores democráticos do pais se os objetivos de mercado do complexo industrial militar se confundissem com os objetivos dos governos, e vice e versa, fossem eles de responsabilidade de democratas ou de republicanos.

Atualizando com base no discurso do presidente Lula, por ocasião da cerimônia de abertura da IV Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (27/05/2010): O acordo assinado não difere daquele que a AIEA havia proposto e o Irã vinha se recusando ratificar. Mesmo assim os cascos da cavalaria se fazem ouvir cada vez mais próximos...

Bairrismos das Ciências











Os psicólogos: a Sociologia é apenas Psicologia aplicada.
Os biólogos: a Psicologia é apenas Biologia aplicaca.
Os químicos: a Biologia é apenas Química aplicada.
Os físicos esnobam: Ora, tudo é Física aplicada, e como é bom ficar no topo do conhecimento científico.
Aí os matemáticos se fazem ouvir: Pessoal, todos os caminhos vão daqui pra aí!

Suicidio e Trabalho: O Caso Foxconn


Haverá quem se admire, talvez, de que a questão possa ser colocada.
(Emille Durkheim. O Suicído - Estudo Sociológico. Paris, 1897)

O suicídio constitui uma das chamadas zonas de sombra e silêncio da sociedade. A análise, por exemplo da casuística brasileira, evidencia claramente que essa causa de morte violenta está subnotificada. No Brasil, o estado do Rio Grande do Sul apresenta a maior incidência (número de casos novos/unidade temporal) entre as unidades da federação. Na França o problema vem crescendo de forma consistente, apesar de uma curiosa previsão no Código Penal francês que prevê penalidade para o crime de alguém induzir outrém ao suicídio.
Tabu certamente por razões morais e religiosas no mundo ocidental, o suicídio tem sem dúvida relações com o mundo econômico, independente de outras inferências que concorram para a existência do fenômeno.
A Foxconn é uma empresa com sede em Taiwan, que se constitui em uma das maiores fabricantes mundiais de componentes eletrônicos e de computadores. Seus produtos estão fortemente associados a marcas como Apple, Dell, Hewlett-Packard (HP), Sony, Nintendo e Microsoft. A empresa chinesa é portanto um peso pesado de uma gigantesca cadeia produtiva que movimenta bilhões de dólares e alavanca fortunas e reputações que a mídia alça a condição de superstars. Entretanto na fábrica de Shenzhen, na China continental, há sinais constantes de que algo grave está consumindo a força laborativa da empresa. Novos funcionários assinam contratos ilegais de trabalho, sendo pelas cláusulas obrigados a cumprimerem horas extras entre 60 e 100 horas mensais.
Há denúncias de assédio moral, de redução dos já baixos salarios ou do bônus que o melhora por razões relacionadas a conflitos entre gerentes e trabalhadores na linha de produção. Com isso cerca de 12,5% da força de trabalho contratada, ou 50 mil pessoas, abandonam mensalmente a fábrica. Não se sabe se na condição de demissionários ou de demitidos. Mas o pior de tudo é outra estatística, representada pelo índice alarmante de suicídios dos trabalhadores. Em apenas 5 meses do ano de 2010, cerca de 10 pessoas, ou 2 pessoas por mês, empregadas da Foxconn mataram-se.
O estudo dos epidemiologistas Estela Meneghel, César Victora e colaboradores sobre a questão do suicídio no Rio Grande do Sul encerra com uma advertência que bem explica a tragédia chinesa aqui comentada:

Quando o suicídio acontece preponderantemente em um grupo etário, étnico, profissional ou isolado geograficamente, pode-se indagar se esse evento estaria funcionando como barômetro indicador de pressão na sociedade.

Eu escrevo esse texto em um iMac equipado com um microprocessador da Intel, duas marcas de empresas riquíssimas do mercado de informática. Aqui, sobre a mesa, a minha direita está o clássico O Suicídio de Emille Durkhein, o meu iPhone e o meu iPod carregando suas baterias. Uma coincidência que apenas fortalece o que eu pensava quanto a essas empresas estabelecerem um selo de qualidade não só energético (Energy Saver), mas outro de ordem humanamente necessária desde que Karl Marx um dia cunhou seu famoso Proletários do Mundo, Uni-vos: a criação de um selo que garanta ao consumidor que o produto de alta tecnologia adquirido foi fabricado em condições decentes de relações de trabalho, de não desprezo com a vida humana.

Revendo Oliver Sachs

Oliver Sachs é um médico neurologista com uma obra literária que articula saberes da antropologia, sociologia, biologia e medicina. Suas opiniões refletem sempre uma inteligência aguçada, mas, sobretudo uma sensibilidade cada vez mais rara na medicina atual. Aqui, a sua entrevista completa no Roda Viva em 1997.

domingo, 23 de maio de 2010

Google Earth: O Tamanho da Encrenca

O blogue Alexander Higgins oferece com base no Google Earth um recurso didático para o leitor avaliar comparativamente o tamanho da mancha de óleo derramada no Golfo do México. Calcule por exemplo, aqui, a relação entre a extensão da mancha e a cidade em que você mora. É impressionante a magnitude desse desastre ecológico.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Malária x Alterações Climáticas: Pesos & Medidas

A associação de mudanças crescentes de temperatura à epidemiologia da malária em teoria está justificada pelos conhecidos efeitos biológicos que as diferenças de temperatura provocam no ciclo de vida do vetor Anopheles e do Plasmodium. Contudo tais efeitos não agem de forma isolada, e avaliações empíricas serão válidas apenas se o papel e a influência relativa dos fatores não climáticos forem considerados. A interpretação óbvia é de que a recessão global observada nos casos de malária desde 1900 é que fatores não-climáticos, principalmente aqueles relacionados diretamente ao controle da doença e os efeitos indirectos de um século de urbanização e desenvolvimento econômico, embora espacialmente e temporalmente variáveis, exerceram uma influência substancialmente maior na extensão geográfica e intensidade da malária durante o século XX do que os fatores climáticos. Esta simples inferência é consistente com outros estudos que analisaram as forças históricas climáticas e antrópicas e demonstraram importantes implicações para o debate sobre a importância das alterações climáticas na determinação de cenários futuros da malária.

*********************************************
Trecho de carta publicada na edição da Nature (20/05/2010) em que os autores Gethi, Smith e Patil e colaboradores discorrem com elegância sobre as relações entre alterações climáticas e a prevalência/indicência da malária no mundo. O artigo na íntegra e sem ônus está disponível para leitura.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Enfisema: Prevenir É o Melhor Remédio

O Receptor Mamífero para Rapamicina – mTOR – é uma proteína do tipo quinase relacionada ao funcionamento das células. O mTOR está associado à regulação do crescimento e da proliferação celular, à síntese de proteínas orgânicas e ao equilíbrio de radicais livres, substâncias altamente lesivas às funções celulares. Além dessas propriedades, estudos científicos demonstram também que o mTOR funciona desregulado em várias doenças, como alguns cânceres. O conhecimento das sempre crescentes funções dessa proteína-kinase constitui fronteira do conhecimento científico para o desenvolvimento de produtos farmacêuticos inovadores.

Em 16 de maio, nesta semana, a Nature Medicine * publicou artigo que descreve uma outra função da mTOR associada aos mecanismos de lesão que levam ao enfisema pulmonar, uma doença incapacitante e terminal que afeta a 15-20% da população de fumantes. O estudo demonstra que a inibição da mTOR pela molécula Rt801 leva ao acúmulo de radicais livres intracelular, enquanto ao mesmo tempo ela ativa outra molécula que dispara sinais químicos para o estabelecimento de um processo inflamatório que no longo prazo termina por promover o desarranjo da arquitetura dos tecidos alveolares.

As evidências experimentais demonstram que a fumaça do cigarro está correlacionada a maior produção da molécula Rt801 nas células alveolares, demonstrando a função crucial que a molécula possui para o desenvolvimento do enfisema pulmonar experimental. O achado também é consistente com o fato de que a inibição do mTOR pela Rapamicina está associada ao desenvolvimento de processo inflamatório. Os pesquisadores pretendem agora prosseguir as pesquisas em primatas não humanos, passo fundamental para confirmar os achados em ratos e, certamente, iniciar as pesquisas farmacêuticas que tenham por objetivo desenvolver uma molécula que bloqueie a Rt801 e assim tratar o enfisema pulmonar e talvez a bronquite crônica.

Está claro que a evolução tecnológica é o que todos almejamos na medicina, mas, para mim, tão mais claro e desejável é a necessidade das autoridades públicas de saúde continuarem o investimento em educação e em medidas legais que reduzam a influência da indústria tabageira sobre a sociedade, especialmente entre os jovens. O desenvolvimento de um medicamento inibidor da Rt801 sem dúvida é importante, mas jamais pode representar um estímulo ao tabagismo sem riscos.

* Rtp801, a suppressor of mTOR signaling, is an essential mediator of cigarette smoke–induced pulmonary injury and emphysema.

A Questão Nuclear do Irã: Cenário e Personagens de um Enredo Petrolífero




































































Com respeito ao ruidoso affair relacionado ao domínio da tecnologia nuclear pelo Irã, algumas questões merecem esclarecimento para o público. Em primeiro lugar é necessário recordar alguns pontos cardeais para que o leitor possa se situar no cenário em que se desenrola a disputa por enquanto diplomática. Isto significa clarificar algumas questões de domínio público relacionadas às partes em litígio, o que significa reconhecer que:

  • O Irã é uma república religiosa islâmica ortodoxa, que há mais de 30 anos tem se mostrado hostil aos EUA e a Israel, desde que o aiatolá Khomeini depôs o aliado Xá Reza Pahlevi no final da década de 70.
  • Em termos energéticos, considerando dados do BP Statistical Review of World Energy, publicado em 2004, o Irã é o terceiro maior produtor mundial de petróleo, com reservas estimadas para durar em média 95 anos.
  • As pretensões de hegemonia mundial dos EUA nos campos da política e da economia são necessariamente balizadas pela questão energética. O país é o maior consumidor mundial de produtos derivados do petróleo, consomindo 3 vezes mais petróleo do que produz. Ao fazê-lo, como seria de esperar, torna-se o líder na emissão de CO2 na atmosfera, sem que demonstre uma disposição de efetivamente associar-se as recomendações do Protocolo de Kyoto.

Está claro que estamos diante de um conflito de interesses que envolve grandes riscos, especialmente se considerarmos que está em curso no Oriente Médio uma guerra localizada no Iraque desde 2003, declarada sob a alegação de que esse país pretendia dominar a tecnologia nuclear para fins militares, além de fabricar armas de destruição em massa. Em que pese Sadam Hussein ser um criminoso político que deveria ser julgado em Haia, o fato é que iniciada a guerra nunca essas armas foram encontradas pelos exércitos de ocupação liderados pelos EUA.
Logo, sem desconsiderar a vociferante retórica do presidente iraniano Ahmadinejad, o que podemos estar assistindo nesse momento é uma bem montada operação para os EUA constituirem uma favorável estabilidade de fornecimento de petróleo no Oriente Médio, visto que a queda de Ahmadinejad significará o controle político e militar de 96% da produção de petróleo na região, que por sua vez representam 64,5% da produção mundial. Some-se a isto o fato de que o regime dos aiatolás representa o único estado capaz de fornecer suporte moral e material às forças militares palestinas que hostilizam permanentemente o estado de Israel.
Mas tal necessidade se torna mais estratégica na medida em que a relação reserva/produção norte-americana ou R/P (quantidade remanescente de recurso não renovável autóctone expressa em anos), considerando dados de 2008, é calculada em 8 anos. No caso do Brasil, sem o Pré-Sal, a R/P é de 14 anos. O domínio político de 96% das reservas petrolíferas do Oriente Médio, portanto, significa a estabilidade de fornecimento de óleo crú por ao menos 500 anos, tempo suficiente para a substituição da atual matriz energética fundamentada em combustível fóssil.
A possibilidade do retorno do Irã à mesa de negociações, mediado pela diplomacia brasileira, desde o início gerou manifestações de incrédula hostilidade, tanto procedentes da Europa quanto da Casa Branca. É sabido que a Europa tem uma longa história de desconfiança com a Turquia, apesar do país ser aliado na OTAN. Quanto a Casa Branca é de se estranhar face as sinalizações recebidas pelo Itamaraty no processo de construção do acordo. A divulgação de um rascunho de documento do Conselho de Segurança da ONU, em que são impostas sanções pesadas ao Irã não pode ter o objetivo de criar terreno propício para que o acordo assinado na semana passado frutifique, mas certamente expressa a influência de políticos linha dura e o desejo da Casa Branca em amenizar as relações pouco auspiciosas com o Congresso .
Ao tempo dos governos Bush senior e Bush junior, analistas justificavam o uso do grande porrete (big stick) nos assuntos energéticos e do Oriente Médio com base na pesada doação que empresas petrolíferas haviam feito para a eleição dos líderes republicanos. Não sabemos o quanto esses interesses econômicos doaram para a campanha eleitoral do presidente Obama, que no momento tem se mantido estranhamente calado sobre os últimos acontecimentos da questão iraniana. Sabe-se, contudo, que petrodólares irrigaram fortemente o fundo milionário que lastreia a fundação do ex-presidente Bill Clinton, a ponto de ele ter de apresentar justificava publica por ocasião em que a sua esposa, a atual secretária de Estado Hillary Clinton, então disputava as prévias do Partido Democrata com o atual presidente estadunidense.
Não menos estranho é o silêncio da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) sobre o acordo Turquia-Irã, considerando que caberia a instituição dar o próximo passo no processo e firmar-se institucionalmente, ao modo como o fez nos meses que antecederam a invasão do Iraque pelas forças de coalizão, quando contradisse o alardeado uso de energia nuclear para fins não pacíficos, que não existia. Não é possível que o atual diretor geral, Yukiya Amano, nada soubesse do acordo, especialmente depois de encontrar-se com o ministro das relações exteriores do Irã no final de abril passado.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Dossiê Sócioambiental

O Instituto de Estudos Avançados da USP lança o número 68 da revista USP Estudos Avançados. Dossiê/ Teorias Socioambientais, dedicado ao geógrafo Aziz Ab Saber. Leitura indispensável a quem tem interesse no tema ambiental. Edição integral aqui.