sexta-feira, 30 de março de 2012

Os Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore


Esse simpático  filme recebeu o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação em 2011. É uma bela homenagem ao livro e à leitura, além de ser um show de computação gráfica. Apreciem sem moderação.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Millôr

Millôr está morto. Notícia irremediável deve se dar seca, de chofre, sem circunlóquios. Quanto a mim, que a passo, confesso não ter sido muito apreciador do defunto, mas lhe reconhecia o talento e a originalidade da letra e do traço em vida, que pelo visto nunca foram plagiados, embora tenham influenciado toda uma geração de chargistas que estão por aí, nas revistas e jornais brasileiros. 
Em resumo: o autor de Vão Gôgo nos legou uma persona literária que fez dele um divisor das águas da paixão e do ódio, ao modo como foi Paulo Francis, seu contemporâneo e companheiro de armas no lendário Pasquim, a quem descreveu como sendo um bípide implume insuportavelmente sapiens.
A definição ficou e sempre lembrava dela ao assistir o Paulo Francis na televisão, até que esse jornalista brilhante se eclipsou numa caricatura nada sapiens de si.
Entretanto a faceta que eu admirava no Millor era aquela em que desvelava sua admiração pela poesia oriental. Seu haikai único, praticado amargo e ao modo de um quase arremedo, contribuiu para a difusão dessa elegante, concisa e elevada forma da poesia japonesa no Brasil.
Por assim dizer, ao flexibilizar do haikai a divisão silábica clássica dos versos, a sublimação contemplativa e o cenário sazonal que emoldura esse fazer poético, eu diria que Millôr o armou para a luta, adequando-o ao confronto com a obscuridade política em que vivíamos nos idos anos 70.
Hoje, enquanto circulava na blogosfera, pelas rodinhas do imenso velório desse iconoclasta que marcou época, principalmente por sua resistência à ditadura militar, fiquei sabendo que ele havia escrito anos antes um poema sobre a própria morte:

Quando eu morrer
Vão lamentar minha ausência
Bagatela
Pra compensar o presente
Em que ninguém dá por ela.

O tema remete a uma tradição dos  haikaistas de refletir sobre o término da vida. A exemplo, a poesia do monge Dokyo Etan escrita em 1721, imediatamente antes desse poeta deixar o domínio material aos 80 anos de idade:

Aqui, sob a sombra da morte, é difícil
Ser dono da palavra final
Eu somente direi, então,
"Sem o dizer"
Nada mais,
Nada mais. 

Porém, se há semelhança de inspiração nesses poemas, por outro cristalizam-se duas distinções que marcam a  compreensão metafísica de ambos os poetas sobre o instante limite: naquele transparece a mágoa irremediada, neste a pacificação de uma existência nos princípios do zen-budismo. Millôr em definitivo foi um enfezado.

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O poema de Dokyo Etan está publicado em Japanese Death Poems (Tuttle Publishing, 1986). Foi recriado neste blog a partir de sua versão inglesa por Yoel Hoffmann: Here  in the shadow of death it is hard/ To utter the final word./ I'll only say, then/ "Without saying"/ Nothing more,/ Nothing more.



domingo, 25 de março de 2012

Minha Criança Portaria a Paz

The Kid by Itajai de Albuquerque
The Kid, a photo by Itajai de Albuquerque on Flickr.

 Minha criança portaria a paz
Quando sobre ela me debruçasse
Não apenas um perfume de sabonete

Todos fomos crianças da paz
(E em toda terra, não apenas em uma,
mós ainda fazem seus giros)

Oh, a terra que feito as roupas rasgam 

De tal forma que não pode ser reparada

Duro, pais que choram nos túmulos de Makhpela,
É a ausência das crianças

Minha criança traria a paz
No ventre sua mãe lhe prometeu
O cumprimento do que Deus
Não pode nos prometer.


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Nesses últimos dias assistimos com tristeza as notícias lutuosas de três crianças assassinadas numa escola judaica em Toulouse (França), por um terrorista árabe. 
Essa postagem representa homenagem a elas e a todas as crianças que diariamente são mortas ou violentadas em sua inocência, nas guerras em curso nos quatro cantos do planeta, independente de suas nacionalidades, cor ou credos.
O autor do poema , Yehuda Amichai (1924 - 2000), pertence a literatura israelense.
O poema original, que traduzi de forma livre:

My child wafts peace/ When I lean over him, / It is not just the smell of soap./ 
All the people were children wafting peace./ (And in the whole land, not even one/ Millstone remained that still turned).
Oh, the land torn like clothes/ That can't be mended.
Hard, lonely fathers even in the cave of the Makhpela/ Childless silence.
My child wafts peace./ His mother's womb promised him/ What God cannot/ Promise us.

Makhpela é local sagrado em Hebron, onde a tradição das religiões hebraica, católica e muçulmana refere como o lugar das tumbas de Adão e Eva, Abrão e Sara, Isaac e Rebeca e Jacó e Lea.

sábado, 24 de março de 2012

Neblina em Brasília

Brasilia's Fog by Itajai de Albuquerque
Brasilia's Fog, a photo by Itajai de Albuquerque on Flickr.

Neblina em Brasília

Brasilia's Fog by Itajai de Albuquerque
Brasilia's Fog, a photo by Itajai de Albuquerque on Flickr.

Neblina em Brasília

Brasilia's Fog by Itajai de Albuquerque
Brasilia's Fog, a photo by Itajai de Albuquerque on Flickr.
The Bulb by Itajai de Albuquerque
The Bulb, a photo by Itajai de Albuquerque on Flickr.

Ontem, por volta das 23 horas, a aparência dos jardins públicos de onde resido se modificaram pela aparição súbita de uma neblina. A visão desse fenômeno climático ficou mais interessante por conta que estávamos naquele momento com a iluminação parcialmente funcionando, o que fazia que a luz de algumas lâmpadas fosse de baixa qualidade ou mortiça. 
Lembrei então que poderia ser testemunha de um cenário com uma qualidade visual semelhante ao que era visto em algumas cidades européias na época dos impérios, que já dispunham de rede elétrica pública.  Não resisti a idéia e registrei essas fotos que aí estão.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Palavras (de Pouca Valia) para Levar ao Mercado

Nesses tempos em que muito se edita e do manancial do mercado, sedento e avantajado, abundam facilidades de riqueza e a insubsistência das obras, deixando-nos a impressão de que vivemos um certo cansaço civilizatório mediado pelo imperativo da mais valia, cabe-nos refletir sobre o que foi registrado na história da modernidade:

Meu fácil me enfada. 
Meu difícil me guia. 
Quase todos os livros que eu estimo e absolutamente todos 
os que me serviram para alguma coisa são difíceis de ler.
(Paul Valéry, Cahiers)

La beauté, "A Beleza é difícil, Yeats", disse Aubrey Beardsley, 
Quando Yeats lhe perguntou porque ele desenhava horrores
(Ezra Pound, Canto LXXX)

Grande parte de minha música a partir de 1974
é extremamente difícil de tocas.
A superação das dificuldades.
Fazer o impossível.
(John Cage, The Future of Music, 1979).

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Citações retiradas de HOPKINS/ A Beleza Difícil, de Augusto de Campos (Perspectiva,1997).

O Pensador

Diz-se que Rodin extrai da matéria a forma. Suas esculturas são de grande expressividade e os seus mármores e bronzes falam com eloquência ao observador, que não passa por eles indiferente ao diálogo.

sábado, 17 de março de 2012

Shakespeare and Company: Uma Idéia em Dois Tempos

Shakespeare and Company by Itajai de Albuquerque
Shakespeare and Company, a photo by Itajai de Albuquerque on Flickr.
   
[A Shakespeare and Company ] é uma utopia socialista, disfarçada de livraria.
George Whitman
                  
Uma das paradas obrigatórias, nas minhas buquinagens pela margem esquerda do rio Sena, é a livraria Shakespeare and Company . Trata-se de uma livraria especializada em livros ingleses, situada no kilometro zero de Paris, bem defronte a um dos mais famosos cartões postais da cidade: a Catedral de Notre Dame.

A livraria original foi fundada por Sylvia Beach em 1917, funcionado até 1941 no 12 da Rue de Ódeon. O lugar era frequentado por escritores incluídos hoje no cânone da literatura universal. A coragem de miss Beach foi a responsável pela publicação da primeira edição de Ulysses de James Joyce, em tiragem de 1000 cópias.

Sim, senhoras & senhores, um dos mais importantes livros para a literatura inglesa e universal modernas foi editado pela primeira vez em 1922 na França, pois na Inglaterra e EUA ninguém se atrevera a fazê-lo, por o considerarem obra pornográfica!
Mas a Shakespeare and Company é uma idéia em dois tempos:
A primeira livraria foi fechada em 1940 após um incidente com um oficial nazista, para quem Sylvia Beach teria recusado a venda do último exemplar de Finnegans's Wake, de Joyce. Mesmo após a libertação de Paris com a derrota da Alemanha na II Guerra e o ato simbólico de liberação da livraria por Hemingway, as portas de fato não mais se abriram e a Shakespeare and Company virou mito nacional .

Depois do falecimento de Sylvia, o livreiro George Whitman refundou a Shakespeare and Company na década de 60, no mesmo local onde a visitei em 2003, no 37 da Rue de la Bûcherie. Whitman liderou a livraria de forma brilhante até o ano passado, quando veio a falecer, vitima de derrame cerebral, com quase cem anos de idade.
Atualmente a gerência do estabelecimento está a cargo de Sylvia Beach Whitman, filha e herdeira do antigo dono. Além do comércio de livros, a atual proprietária mantem a proposta original de fazer do lugar referência cultural para o livre debate e a difusão de idéias, à altura da interseção entre dois tempos definida a quatro mãos.