sábado, 4 de fevereiro de 2012

Luz e Sombra

Light & Shadow by Itajai de Albuquerque
Light & Shadow, a photo by Itajai de Albuquerque on Flickr.

Zahy e o Dia Mundial da Luta Contra o Câncer

Há dez anos atrás decidi novamente ter em casa um cachorro. A decisão teve razão dual, porque em parte eu assim queria e em parte sabia que seria uma companhia para minha mãe, que já estava idosa e ficava muito tempo em casa apenas com a companhia da televisão.
Dona de uma personalidade alfa de matilha, nascida para o comando, essa Schnauzer logo conquistou a nós humanos da casa, dominou o território e estabeleceu em seu cérebro misterioso quem ela admitiria no lugar e quem não. Está claro que alguns foram alijados por ela, e sem direito a recurso, para constrangimento nosso.
Um deles, meu cunhado mais jovem, é irreconciliável com ela até hoje. Registre-se, contudo, que Zahy nunca hostilizou a nenhuma de nossas empregadas domésticas, com quem logo, desde o primeiro dia, estabelecia amizade que parecia existir desde sempre.
O nome que lhe demos tem origem na língua dos índios da nação Tembé e significa Lua, de flexão masculina na língua desses indígenas. Reproduziu em dois casais com outro de sua raça, que nascera na Noruega e emigrara para o Brasil. Tudo, portanto, na mais pura linhagem anglo-saxônica.
A relação de Zahy com o Dia Mundial da Luta Contra o Câncer eu fiz para alertar a importância de atentarmos para essa doença, que desempenha importância na carga da doença dos países e, no Brasil, terá cada vez mais importância por conta do envelhecimento da população, pois nos próximos quinze anos seremos um país de idosos e não mais de jovens como a minha geração aprendeu.
O câncer afeta os seres vivos e é uma doença genética, não hereditária. Digo que acomete os seres vivos, porque não só o homen a desenvolve, mas também peixes, gatos, macacos e cães. Entre as múltiplas causas da doença, o envelhecimento do organismo contribui, a história genética do indivíduo também em alguns casos, mas sobretudo a exposição aos chamados agentes carcinogênicos tem o maior peso no desenvolvimento da doença. Nesse sentido, entendo agentes carcinogênicos no sentido lato de incluir elementos agravantes da estabilidade do meio ambiente externo ao homem, quanto a adoção de estilos de vida e/ou hábitos sociais que oportunizam a exposição ou a amplificam a ação deaqueles agentes.
Nessa foto de Zahy, passaram-se quinze dias desde que extirpou o baço por conta de um hemangiossarcoma grau I, que é câncer das células que revestem vasos sanguíneos dos cães. Não há extensão da doença para gânglios linfáticos, vasos abdominais e outros orgãos em termos macro e microscópicos. A identificação da doença foi um achado diagnóstico de exame físico e de ecografia. Seguirá na próxima semana para a quimioterapia, prosseguindo na luta que sem o saber iniciou pela preservação do maior território que já possuiu: a vida.

Bulbophyllum rothschildianum


A Bulbophillum rothschildianum floresceu em minha varanda nesse verão. Apesar do gênero ser descrito como pan-tropical, a espécie é originária da Ásia, na Índia. Realmente a beleza e o exotismo dessa orquídea faz jus as descrições que antes havia lido.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Elegância da Medicina

























Fronstipício de De Humanis Corporis Fabrica (1543).
Colorido posteriormente.


A Escola de Medicina da Universidade de Nova Iorque faz questão de estabelecer a primazia do ensino da clínica à beira do leito do paciente em sua página eletrônica. Entretanto, a escola conjuga tradição osleriana com alta tecnologia didática.
Na NYU os alunos de anatomia tem por suporte ao estudo teórico não o tradicional livro de Garder & Gray ou do Sobotta, por exemplo, mas sim um atlas anatômico digital... que utiliza tecnologia 3-D.
Nessas horas, quando tenho a informação de tais progressos, recordo da emoção que tive em Bethesda ao manusear na National Library of Medicine a primeira edição De Humanis Corporis Fabrica, obra seminal escrita por Vesalius* em 1543.

* Na gravura acima, Vesalius é o homem de barba escura que toca a perna direita do cadáver. Para ampliar clique duas vezes sobre a imagem.

Cinema: Inovação e Luta Contra as Peias do Mercado

Ao longo do século XX, na medida em que o cinema - a arte do movimento (gr. Kinema) - atraía o gosto dos espectadores e um mercado se estruturava, sucederam-se incorporações tecnológicas com o objetivo de elevar a qualidade da obra ao máximo de proximidade da realidade, como o foram a sonoridade, a colorização, os registros de som e imagem em formato digital, os efeitos especiais - como nunca dantes vistos e hoje garantidos por computador -, e também a pureza do registro sonoro quadrifônico, a tridimensionalidade e a portabilidade das imagens que faz com que filmes sejam projetados em telas seguras na palma das mãos, ou mesmo inteiramente filmados em um celular Nokia N-8, que é o caso de Olive, longa dirigido pelo cineasta Hooman Kalili, com a atriz Gena Rowlands no papel principal.
Mas o cinema como arte não é um somatório tecnológico, nem estuário para centenas de cadeias produtivas relacionadas a efetivar a produção de um filme, ou a valorização das ações dos estúdios.
O elemento central de uma arte é a linguagem própria, ou a sua capacidade de comunicar e transcender no tempo e entre diferentes gerações uma mensagem, numa fórmula que, resumida, seria algo que, no caso, só pelo cinema tal fato poderia ser relatado com a dramaticidade ou comicidade adequadas, apesar das influências políticas e de mercado que operam naquele instante histórico, a despeito da competência comunicativa de outras artes.
Nesse duelo entre arte e artistas & financistas e mercado, nesse debate ideológico de concepções do que seja o cinema como linguagem e comunicação, livres para uma função verdadeiramente artística e com bases nas tensões dos anos 60/70, recupera esse debate o artigo divulgado na newsletter da edição brasileira do Le Monde Diplomatique - "A Obra Prima e a Elite Cultural" -, assinado por Bruno Carmelo. Contudo, ao modo como fosse as luzes néon em rua deserta, após a chuva - e quão tristes nessa condição elas me parecem -, ecoa nesse embate a frase enigmática do início de "O Cavalo de Turim" (Turim Horse, dir. Béla Tarr, 2011), dita por Nietzsche antes de mergulhar de vez na sombra e no silêncio da insanidade que marcou-lhe o fim dos dias; ouvida dias depois que o filósofo tentou impedir na rua a violência contra um cavalo por um cocheiro: Mutter ich bin dumm (Mãe, eu sou um estúpido!).

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Blade Runner - O Livro de Desenhos


Blade Runner - Livro de Desenhos (Blade Runner Sketchbook), editado em 1982, é uma rarirade. Mesmo em livrarias especializadas em raros e esgotados achá-lo é difícil, devido a constante procura dos fãs desse clássico da ficção científica e pela tiragem pequena da edição. Enquanto não se publica uma segunda edição, delicie-se com essa cópia on line. Para ler, basta clicar sobre a imagem.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A Síntese do Instante Num Catálogo de Livraria

Sempre recebo no meu endereço de Belém o Catálogo de Livros Selecionados, da Livraria Académica. A simpática livraria tem página na internete e está localizada na cidade do Porto, em Portugal, na Rua dos Mártires da Liberdade, 10. A sede física, contudo, não conheço em que pese o desejo sempre insatisfeito de visitar a terra de avoengo paterno, lá falecido.
Além da seleção de raridades bibliográficas, Nuno Canavez, proprietário da livraria e reconhecido intelectual portuense, sempre encarta na última folha do catálogo um poema para reflexão do leitor.
Sabemos o quanto Portugal tem sofrido com os revezes da economia européia. Só para avaliarmos a atual gravidade da situação, uma fonte que de lá retornou disse-me que o governo português já trabalha com o cenário de manter ao menos uma pessoa empregada por unidade familiar, e que patrões e empregados já negociam redução de salários.
É inserido nesse contexto que o catálogo 264/2011 da Livraria Acadêmica oferece aos olhos do leitor um inquietante poema sem título, assinado por Maria Ângela de Sousa - de quem, infelizmente, não obtive maiores informações nos sistemas de busca usuais.

Diga-me amigo
o senhor que tanto sabe
do passado, do presente e do futuro da nossa gente
diga-me que genética ou que História
nos transformou nas quimeras que hoje somos
quem nos fez de tão larga imaginação e tão estreito agir
de tanto falar e tão pouco fazer

deste permanente ser e não ser
de tanto querer e tanto temer
de tanto criar e tão pouco ousar

lembradas glórias de impérios conquistados?
restos mouros de resignação e sofrimentos antecipados?
o esperar em vão de reis por vir?

ou simplesmente a paz das sardinheiras
e tudo o que nunca voltou d'Álcácer-Quibir?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O Mais Letal Vírus do Mundo e o Super-Pateta

O sonho acabou desmanchando
A trama do Dr. Silvana
A trama do Dr. Fantástico
E o melaço de cana.
(Gilberto Gil - O Sonho Acabou)


Com frequência assuntos científicos comparecem na mídia como parte de notícias sensacionalistas e, com alguma frequência, associada a alguma interpretação conspiratória que poria em risco a humanidade. Lembro de algumas estórias mirabolantes que bem ilustram a questão, por exemplo:
1) Que a origem do vírus da Aids estaria relacionada a experimentos de cientistas em laboratórios militares norte-americanos, o qual ao fugir do controle de segurança teria se espalhado pelo mundo. Ou de que o único agente etiológico de imunodeficiência adquirida - o HIV - teria alcançado a humanidade mediante a vacina contra pólio, tecnologia que tantas vidas salvou no planeta.
2) Ou de que o ex-ditador líbio Saddam Hussein teria adquirido cópias do vírus da varíola, que lhe teriam sido vendidas por bilhões de dólares, depois que cientistas russos a roubaram de um laboratório em Novosibirsk, Rússia, por ocasião do desmoronamento do Império Soviético.
3) Esse denuncismo, que a história comprovou não possuir qualquer base factual, também afirmava que o complexo soviético de guerra biológica teria produzido 20 toneladas do mesmo vírus e as espalhado secretamente nos quatro cantos do mundo, sob a guarda de ex-agentes da KGB, homens de olhos rútilos de ódio e prontos para aniquilar o planeta a primeira ordem sabe lá de quem.
4) Também houve quem questionasse na blogosfera se a Escherichia coli implicada nas infecções gastro-intestinais na Europa não seria um teste de arma biológica promovido pelas grandes potências, não importanto que para isso se ignorasse - como nos casos anteriores citados - que a Teoria da Evolução diz basicamente o seguinte: as espécies evoluem às ordens da natureza, sem que necessariamente o homem tenha de intervir nesse processo.
Entretanto, no que se pode ter de factual sobre um ataque biológico - o uso do carbúnculo (Antraz) nos EUA, em 2001 - nunca foi objeto de interesse jornalístico que esclarecesse afinal quem ou o quê estavam por detrás desses atentados terroristas. O que teria dissuadido os jornalistas de investigar fatos tão graves para a coletividade?
Os fatos antes citados, portanto, não pretendem negar a realidade de que os países ou grupos políticos com pretensões hegemônicas globais sempre tiveram interesse em desenvolver armar biológicas para dissuadir e atacar seus inimigos, desde a Antiguidade e a Idade Média, e modernamente antes mesmo do desenvolvimento da tecnologia nuclear aplicada para fins bélicos.
Notemos que essas teorias anedóticas trabalham sempre com a idéia de que cientistas trazem consigo um potecial certo de risco para a humanidade, como ilustram as figuras romanescas de Mr. Hekyll/ Mr. Hide e do doutor Frankestein, seguidos nos quadrinhos e jogos de vídeo por uma súcia de ensandecidos que integra entre outros Hugo Ago-Ago, doutor Silvana, Lex Luthor e doutor Killjoy.
Toda essa galeria de personagens evocaria a grosso modo correspondências com "pesquisadores" criminosos de que são exemplos os médicos nazistas Mengele, Eduard Wirths e Hilario Hubrichzeinen , que praticaram no complexo dos campos de morte Auschwitz-Birkenau uma pseudo-ciência racial, demonstrando que a liga entre personagens de ficção e da história e de seus crimes fictícios e reais está fundamentada no fato de que a ciência como todo processo criador não é neutra, os agentes fomentadores e produtores do conhecimento possuem ideologia e não estão acima do bem e do mal.
O problema, contudo, é a instrumentalização midiática em torno dessa assertiva que, nos últimos dias, vem exemplificada na denúncia publicada em jornais norte-americanos e europeus de que uma equipe de cientistas teria desenvolvido um novo vírus da gripe (H5N1), hoje raro entre humanos, cuja letalidade seria de 60%. Esse experimento de biotecnologia deriva da competência que foi adquirida para manipular mutação de gens em laboratório, fenômeno biológico sensível para a evolução dos vírus em geral. Isso por certo levaria a elaboração de um banco viral altamente virulento, disponível para a elaboração de vacinas e medicamentos que fossem necessários quando a mutação ocorresse espontaneamente na natureza e os primeiros surtos fossem verificados.
Eu não tenho dúvida quanto a segurança com que essa pesquisa foi conduzida, nem da competência da equipe de cientistas que a conduziu, nem de que ela anuncia um novo patamar na prevenção e tratamento de doenças infecciosas. Tenho dúvidas sim, no médio e longo prazo, quanto à migração desse conhecimento científico em termos de produto de mercado, considerando que a indústria farmacêutica expressou que haveriam limitações tecnológicas para responder uma demanda mundial de vacinas na última pandemia de H1N1.
Por outro lado, confirmando que o sensacionalismo e a visão conspiratória sempre comparecem para confundir, é inaceitável que revistas científicas sejam pressionadas para não publicarem a pesquisa, ou, se o façam, do texto sejam eliminadas "determinadas informações" que poderiam ser apropriadas por bioterroristas. A comunidade científica não pode aceitar tal interferência do estado, seja porque abre oportunidades que fragilizarão a transparência e a ética em pesquisa, seja porque trabalho científico mutilado e domesticado, em qualquer revista que o publique, em definitivo será ciência do Super-Pateta.