domingo, 10 de maio de 2009

O Mapa Mundi da Gripe Suína

A prestigiosa revista The New England Journal of Medicine criou o H1N1 Influenza Center com o objetivo de reunir informações sobre a atual pandemia de gripe suína. Entre os recursos visuais disponíveis, um dos mais interessantes é o mapa que descreve a situação mundial e permite ao leitor assistir a progressão dos casos nos continentes, na unidade de tempo. Aqui.

Um Denorex Chateia Muita Gente, Seis Muito Mais

Um esclarecimento sobre o post Parecia Ciência e Era Propaganda. A edição da revista The Scientist desta semana informa que a editora Elsevier não editou apenas uma revista "científica" para fins de propaganda farmacêutica, sem a obrigatória informação do fato ao leitor. Foram editadas seis em cinco anos!

O Salto Brasileiro em Publicação Científica



O Brasil aumentou seu desempenho em ciência e tecnologia. Conforme anunciado pelo Ministério de Educação nesta semana, o país é o décimo terceiro colocado na classificação mundial de produção científica, integrando um seleto grupo de megaprodutores de ciência como Estados Unidos, Inglaterra, França, Canadá, Austrália, China e Índia. O Brasil ficou a frente da Rússia, outrora poderosa nação de perfil científico-tecnológico, especialmente na área militar, quando disputava como URSS a hegemonia política mundial com os EUA.

Esse impressionante salto olímpico brasileiro na produção científica é marcada por um aumento de 56% no total de artigos publicados, conforme identifica a bibliometria do Web of Science: saltamos de 19.436 artigos científicos publicados em 2007 para 30.415 em 2008. Esse fato inquietou o jornalista científico Marcelo Leite, do jornal Folha de São Paulo, que no artigo Zebras e Cavalos** indaga qual a explicação para esse desempenho. Ainda que não contradiga o fato, nem ofereça uma resposta definitiva que o explique ao leitor , o jornalista paulista argumenta que a inaudita produção está relacionada a que o Web of Science ampliou sua base de dados e incluiu mais revistas científicas brasileiras, sugerindo com esse argumento que o noticiado é passível de ser entendido como o mais do mesmo.

Decerto não será esta a resposta que fará distinguir as zebras dos cavalos, figura a que recorre o jornalista para ilustrar a precedência explicativa do simples sobre a exceção, conforme recomenda a velha máxima dos clínicos avessos ao estilo bombástico de House. Contudo, para que o conselho hipocrático se imponha, é absolutamente necessário que o indagador explore todas as possibilidades simples antes de concluir que raridades estejam implicadas na causa do fenômeno que desafia a explicação. Assim, com respeito a pergunta sobre a causa do Brasil estar publicando mais artigos científicos atualmente, para que a respondamos de modo criterioso, devemos considerar as políticas públicas que certamente estão implicadas no desempenho elogioso da pesquisa no país, e que Leite não considera no artigo publicado no domingueiro caderno Mais.

A exemplo do quanto políticas públicas são importantes para evitar equívocos de análise, nos últimos oito anos ,o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Ministério da Saúde, Fundações de Amparo à Pesquisa e Secretarias Estaduais de Ciência e Tecnologia iniciaram um movimento de verticalização do financiamento à pesquisa em saúde que derivou em investimentos na ordem de mais de 500 milhões de reais entre 2003-2009 para financiamento de quase 2500 projetos. Comparativamente a 2002 o crescimento é exponencial, se olharmos que naquele ano o total investido pelo Ministério da Saúde arredondava algo em torno de 100 mil reais para o financiamento de meia dúzia de pesquisas.

Compreende o óbvio que esse investimento setorial na pesquisa levou a um conjunto de derivadas em que estão incluídas a produção de dissertações e teses de mestrado, doutorado, pós-doutorado e um conjunto de artigos científicos a elas diretamente referenciados. Tal esforço para fortalecer a pesquisa em saúde também foi organizado em campos até então inéditos no histórico institucional do Ministério da Saúde. Em parceria com a farmacêutica Roche, foram selecionadas e levadas a Lausanne (Suíça) um grupo de pesquisadoras brasileiras para estágio de pós-doutorado, ainda em curso, e, em abril passado, os Ministérios da Educação e da Saúde celebraram convênio para lançamento de edital conjunto para financiamento de mais bolsas de pós-doutorado na área da saúde que, em nove anos, garantirá recursos na ordem de 75 milhões de reais.

Contudo, enquanto o perfil de produção científica ascendente se consolida, por outro lado, não demonstramos a mesma competência em levar o conhecimento científico ao mercado. Conforme demonstra o gráfico acima*, publicamos sempre muito, mas patenteamos muitíssimo menos. Este, hoje, constitui um grande desafio para os gestores de políticas públicas em ciência, tecnologia e inovação no Brasil. E requer remédios cavalares que nos garantam não só a fama de país pesquisador, mas de país inovador pelo impacto que o segundo perfil possui para positivar nossa balança comercial em alguns produtos estratégicos para o setor saúde.

* Duplo clique para ampliar a imagem.

** Acesso on line apenas para assinantes da Folha de São Paulo ou do provedor UOL.


Epidemias Silenciosas

Números atuais da Organização Mundial da Saúde contabilizam 4379 casos confirmados de gripe suína no mundo, com pouco menos de 50 vítimas fatais. A energia da OMS em alertar os países membros para a adoção de medidas sanitárias eficazes no controle da virose suína se deve principalmente a rápida transmissibilidade do agente etiológico entre seres humanos, especialmente em grandes conglomerados humanos e o potencial de letalidade que possui. Entretanto, existem outras epidemias no mundo que acontecem com efeito devastador sobre países pobres, aniquilando sua frágil economia e roubando vidas humanas. Na África Ocidental, por exemplo, está ocorrendo uma epidemia de meningite que já contabiliza 1900 mortos em 56.000 casos confirmados. Detalhes podem ser conferidos no diário espanhol El País.

Os Efeitos Econômicos da Gripe Suína

A economia mexicana, fortemente atrelada ao modelo norte-americano, sofreu revezes importantes com a atual crise econômica internacional. Os prejuízos, contudo, serão ampliados em decorrência da epidemia de gripe suína que praticamente imobilizou o país. Demonstram-nos os seguintes números divulgados pelas autoridades mexicanas: perda de 2,2 bilhões de dólares devido ao fechamento de todos os estabelecimentos comerciais da capital; em paralelo, deixou-se de arrecadar 752 milhões de dólares em impostos e redução em 2009 do PIB mexicano em 0,3-0,5 ponto percentual.
Embora os setores turístico e o de aviação (contumaz vítima de seguidas crises, desde o atentado de 11 de setembro) estejam entre aqueles que contabilizam prejuízos elevadíssimos, o maior impacto econômico da gripe suína foi concentrado nas empresas de pequeno e médio porte. Para minorar os resultados negativos na economia, o governo mexicano lançará um pacote econômico com benefícios fiscais. Na Cidade do México, a mais afetada pela epidemia, foi criado um conselho para reativação da economia, constituído por representantes do governo, da iniciativa privada e da universidade entre outros.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Gripe Suína: Dois Documentos Importantes

A Organização Pan-Americana de Saúde circulou hoje dois documentos com informações importantes sobre a gripe suína, situando o assunto inclusive numa perspectiva histórica. Trata-se do The Swine Flu Affair (O Caso da Gripe Suína), publicado em 1978 pelo prof. Richard E. Neustadt, da Escola de Governo John F. Kennedy (Universidade de Harvard) e o Pandemic Influenza: A guide to Recent Institute of Medicine Studies and Workshops. Leitura obrigatória para os profissionais de saúde.

Parecia Ciência e Era Propaganda

Estudos sobre o mercado tecnológico têm chamado atenção para a necessidade de regular as atividades mercadológicas do chamado complexo industrial da saúde. Não faltam exemplos ilustrativos para justificar a recomendação, dentre eles o emblemático caso do anti-inflamatório Vioxx, licenciado e levado ao mercado sem as cautelas necessárias.
De fato qualquer poder, incluído o referente a indústria da saúde, desgovernado desconhece limites éticos para a política de mercado que adota. Prova-o a escandalosa matéria publicada na revista eletrônica The Scientist, onde consta a gravíssima denúncia: a indústria farmacêutica Merck, em parceria com a até então respeitável casa editora Elsevier, financiou a publicação de periódico internacional que fazia parecer que publicava artigos científicos revisados por pares independentes, conforme é recomendado aos periódicos científicos que justifiquem esse nome, mas que na realidade não o eram, serviam a oculta estratégia de marketing empresarial. O Australasian Journal of Bone and Joint Medicine cumpria apenas o papel de anunciar e vender os produtos do famoso laboratório a quem acreditava ler informação científica produzida por autores não financiados pela indústria. O detalhes do caso podem ser lidos aqui em inglês.

domingo, 3 de maio de 2009

Saúde das Mulheres: Obesidade, Artrite e a Sensibilidade ao Tabaco

1. Pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Duke (EUA) acompanharam quase seis mil mulheres com faixa etária a partir de 65 anos e observaram que elas sofrem duas vezes mais de obesidade e de artrite que os homens, fatores que levam ao comprometimento significativo da qualidade de vida entre idosos. Ou seja as mulheres vivem mais que os homens, mas possuem maior risco para uma qualidade de vida comprometida. Foi a primeira vez que um estudo avaliou o impacto de condições crônicas específicas, comparando-as entre homens e mulheres idosos. Mais uma razão para combater o sedentarismo e o erro alimentar entre adultos, jovens e crianças.
2. As diferenças entre os sexos também foram confirmados em outro estudo, que considerou um dos mais perigosos vilões para a saúde humana. Resultados de pesquisas apresentadas na Conferência Européia Multidisciplinar em Oncologia Torácica (EMCTO), realizada em Lugano (Suíça), demonstram que as mulheres são mais vulneráveis aos agentes cancerígenos presentes no tabaco. Pesquisadores suíços estudaram 683 mulheres referenciadas para o tratamento de câncer do pulmão e observaram que além de serem mais jovens, haviam fumado tabaco em quantidades muito menores que o grupo masculino ajustado para idade, consumo de tabaco e condição clínica.
3. Mas nem tudo é adversidade. Há um dado animador para as mulheres submetidas ao tratamento cirúrgico para câncer de pulmão. Segundo estudo irlandês apresentado na mesma conferência, que acompanhou por dez anos 640 pacientes submetidos à cirurgia para câncer pulmonar de células não pequenas, foi observado que as mulheres apresentaram melhores chances de sobrevida: duas vezes maior quando comparada aos homens participantes daquela coorte de pesquisa . De qualquer modo, quer para mulheres quer para homens, as melhores receitas são não fumar e deixar de fumar.

A Gripe Suína e a Luta de Classes
















Porcos Unidos, jamais serão vencidos!
Os perús tem a gripe aviária. As vacas tem a doença da vaca louca. Eu estou lhes dizendo, rapazes... Antes que o presunto se torne o prato principal no Dia de Ação de Graças, nós planejaremos nossa própria doença!

sábado, 2 de maio de 2009

Nomear É Dizer Além do Nomeado
















Estátua de Girolano Fracastoro (H. Fracastorio) em Verona (Itália).

Como símbolo de poder tem à mão direita o globo.

A recente orientação da Organização Mundial da Saúde - OMS quanto a renomear a gripe suína para influenza A (H1N1), atendendo à solicitação da industria da suinocultura, faz-me lembrar um outro episódio que em muito esclarece como as doenças são designadas. Ensina a História da Medicina que foi assim, por exemplo, com a sífilis. Durante muito tempo as academias de ciência européias debateram se essa doença sexualmente transmissível (DST) seria originária das Américas, e houve até quem culpasse as lhamas como possíveis responsáveis pela transmissão.
Mas a argumentação da origem americana tem origem no fato de ao sitiar Nápoles o exército francês, composto de alguns egressos da frota de Colombo, não fora derrotado pelos napolitanos mas sim por uma feroz epidemia de sífilis que, naquela altura, especula-se, tinha virulência para ser transmitida não necessariamente só por contato sexual. Claro que os franceses não perderam tempo e logo passaram a designar a sífilis como o mal napolitano.
A sabedoria francesa parece fez sucesso, e conforme sucediam os conflitos militares entre os estados europeus a doença mudava de nome: na Inglaterra era chamada de doença espanhola, e na terra de Goya e do Quijote recebia o apelido de doença inglesa. Contudo, entre as mais elaboradas iniciativas de nomear a sífilis, destacou-se a do médico e poeta Girolano Fracastoro, que, em 1530, compos o célebre poema Syphilis sive morbus Gallicus, uma descrição clássica e diria eu quase perfeita desta DST. Mas atentemos ao significado das palavras morbus Gallicus: quer dizer Mal Gálico, da Gália, doença francesa portanto. Fracastoro inovou, mas nem tanto quando cedeu a um certo belicismo e referiu ao inimigo francês a origem da sífilis.
Mas de retorno ao caso da gripe suína, parece-me que igual cuidado de redefinição não houve com respeito à gripe aviária. Talvez porque as galinhas não tenham as defesas que os porcos possuem. Pois assim é que saímos dos cenários de capa e espada, da lavra de poemas em métrica latina, para chegarmos aos embates da fria métrica das bolsas em assombros de crise econômica internacional. Com o devido desconto das diferenças entre séculos, não arriscaríamos muito se concluíssemos que, nestes dias, em termos de batismo de doenças ,
faz hoje a economia política as vezes de pia batismal .