domingo, 15 de março de 2015
Uma Rede de Amigos
São José, Carpinteiro.
Georges de La Tour. Museu do Louvre.
A Rede de Amigos de Stefan Zweig/ Sua Última Agenda/ 1940-1942, publicação organizada por Alberto Dines, Israel Beloch e Kristina Michahelles (Casa Stefan Zweig [www.casastefanzweig.org], 2014), representa uma interessante experiência de arqueologia do saber no campo da biografia.
A partir da última agenda de endereços do renomado escritor austríaco, que, no Brasil dos anos 40, psicologicamente exausto e esgotado veio a falecer, os autores fazem uma reconstituição biográfica da rede constituída de 198 nomes que constituiam os contatos de Zweig, demonstrando a partir da comparação com outras suas agendas escritas na Inglaterra e nos EUA a progressiva redução de contatos, a medida em que o exílio e o isolamento foram se aprofundando num mundo francamente hostil à integridade moral da humanidade.
Em meio aos nomes chamou-me a atenção referência a Irwin Edman, um filósofo hoje esquecido e autor de Luz na Escuridão: Um pós-escrito ao desepero (Candle in the Dark: a postscript to despair), que publicou em 1939. Curioso com o título instigante, fui ao Google Books é encontrei esse livro escrito no calor de fatos mundiais gravíssimos. Ainda mantem a atualidade.
A partir da última agenda de endereços do renomado escritor austríaco, que, no Brasil dos anos 40, psicologicamente exausto e esgotado veio a falecer, os autores fazem uma reconstituição biográfica da rede constituída de 198 nomes que constituiam os contatos de Zweig, demonstrando a partir da comparação com outras suas agendas escritas na Inglaterra e nos EUA a progressiva redução de contatos, a medida em que o exílio e o isolamento foram se aprofundando num mundo francamente hostil à integridade moral da humanidade.
Em meio aos nomes chamou-me a atenção referência a Irwin Edman, um filósofo hoje esquecido e autor de Luz na Escuridão: Um pós-escrito ao desepero (Candle in the Dark: a postscript to despair), que publicou em 1939. Curioso com o título instigante, fui ao Google Books é encontrei esse livro escrito no calor de fatos mundiais gravíssimos. Ainda mantem a atualidade.
Este é um trecho que refere-se à ciência:
A fé na ciência deveria talvez ser examinada em primeiro lugar, pois foi no método científico, até um quarto de século atrás, que tínhamos depositado a maior parte de nossas esperanças. A dolorosa ironia está no fato de que, dentro de certos limites, nada há que nos desiluda, e a nossa dependência do método científico tem sido mais do que justificada, na medida que para os homens há quase nada que estejam impedidos de realizar no seu domínio sobre as coisas.
Se não há limites para o que o homem pode realizar, por outro lado resta a questão para o que o seu poder sem precedentes não deve ser usado. A ciência que era para tornar a vida bonita tem o seu lado hediondo. Chovem bombas sobre cidades indefesas, bem como música celestial sobre ouvidos extasiados. Tanto produz torturas indizíveis como os prodígios da arquitetura moderna. A ciência traz aos nossos lares os acordes elegantes de uma afinada música de câmara, mas também a voz de demagogos e de ditadores.
Se não há limites para o que o homem pode realizar, por outro lado resta a questão para o que o seu poder sem precedentes não deve ser usado. A ciência que era para tornar a vida bonita tem o seu lado hediondo. Chovem bombas sobre cidades indefesas, bem como música celestial sobre ouvidos extasiados. Tanto produz torturas indizíveis como os prodígios da arquitetura moderna. A ciência traz aos nossos lares os acordes elegantes de uma afinada música de câmara, mas também a voz de demagogos e de ditadores.
A
ciência que nos dá abundância não impede a fome em meio à abundância. Se a ciência nos dá vida mais longa, também nos
dá morte mais rápida.A
cirurgia recupera maravilhosamente homens destroçados, com precisão
igualmente maravilhosa. Somos capazes de realizar transformações incríveis
de recursos incalculáveis, e demonstramos que podemos alcançar tudo, exceto a segurança e
a paz. Enquanto campos de grãos e rebanhos de ovelhas são destruídos,
químicos talentosos inventam substitutos para o pão e a lã. A mesma
capacidade infinita que pode tornar o mundo mais justo, é a mesma usada para nos
destruir.
O link para acesso é: http://tinyurl.com/ktxypoj
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De fármacos e suas descobertas: 41 novos fármacos aprovados pelo FDA em 2014!
De fármacos e suas descobertas: 41 novos fármacos aprovados pelo FDA em 2014!: Em 2014, a agência reguladora norte-americana, Food and Drug Administration (FDA), aprovou 41 novas entidades químicas (NEQ)...
sábado, 7 de setembro de 2013
25 Anos de Constituição Cidadã.
As gerações que desmascararam a ditadura militar lutaram por 21 anos de cara limpa nas ruas. Nosso V é de vitória por um país menos injusto, mais includente e democrático.
sábado, 31 de agosto de 2013
O Dops Não Acabou no Irajá
A Procissão de São Isidro. Goya (Museu do Prado, Espanha)
Nessa coletânea poética de temática social, Ruy
Barata comparece com dois longos poemas de trincheira – “Canção do Guerrilheiro
Torturado”e “Canção do Poeta Vigiado pela Policia”. Neste último, lemos ao modo de
epígrafe o seguinte trecho de relatório ao secretário de Segurança
Pública do Pará, remetido pela Delegacia da Ordem Política e Social – o famigerado Dops, que veio a se tornar um dos braços civis mais repressivos dos governos miltares instaurados depois do Golpe de 64:
“ESTA DELEGACIA EXERCE OBSERVAÇÃO
E VIGILÂNCIA SOBRE ELEMENTOS SIMPÁTICOS À REVOLUÇÃO CUBANA, FACE À EXISTÊNCIA
DE MOVIMENTO DE SOLIDARIEDADE ENCABEÇADO POR ELEMENTOS RECONHECIDAMENTE COMUNISTAS”.
Muito antes de concluir que “O
tempo tem tempo de tempo ser/ O tempo tem tempo de tempo dar/ Ao tempo da noite
que vai correr/ O tempo do dia que vai chegar", o letrista de Pauapixuna registra
a certa altura a farsa encenada pelos que vigiam o poeta resistente:
O olho confina o mundo
do poeta confinado.
Se anda – o olho caminha,
se para – o olho é parado.
Se entra no Bar e senta
o olho fica sentado.
O olho cheira, investiga,
o trago a ser emborcado.
Se for uísque (o sem selo)
o olho fica fechado.
Quando 50 anos depois arautos do
obscurantismo vão às ruas com seus cantos de sereia, e também são detratados sem qualquer pudor médicos cubanos, aqui
vindos para colaborar com a boa saúde do pais, é inevitável concluírmos que o
Dops teve um final feliz: Não acabou no Irajá, como se diz de alguém que pretendia ser Greta Garbo, mas ao fim
sobreviveu à ditadura e, feito ambulante, trabalha nas avenidas do Brasil.
domingo, 16 de junho de 2013
Calanthe gorey
Florida em junho de 2013
sábado, 15 de junho de 2013
Hanseníase: A Negligência Está Marcada no Genoma
Utilizam-se no tratamento da Hanseníase os mesmos medicamentos, os métodos de diagnóstico e o mesmo modelo experimental, há décadas. No jargão técnico dessa doença é impossível encontrar termos como vacinas, biosimilares, métodos para diagnóstico precoce e modelos experimentais geneticamente modificados. Por essa razão o Mal de Hansen é classificado como doença negligenciada pelos governos e pelos riquíssimos fundos privados que financiam pesquisas científicas nos países hegemônicos do hemisfério norte, apesar do agente causador da doença, o Mycobacterium leprae, ter sido identificado em 1873 e, desde então, elucidado seu mecanismo silencioso e alongado de infecção.
A lógica cruel é de que o investimento numa linha de pesquisa e desenvolvimento tecnológico nessa área dificilmente atenderia a agenda de saúde dos países ricos, com maior carga centrada nas doenças crônicas não infecciosas, ficando a potencial inovação quase que relegada a fatia do mercado farmacêutico dos países pobres e em desenvolvimento, com características de menor rentabilidade segundo as pouco transparentes fórmulas que calculam a remuneração do valor agregado das tecnologias novas de saúde. Para os acionistas e as bolsas de valores internacionais que pregoam as ações das companhias farmacêuticas, é de menor relevância que nos últimos 20 anos cerca de 14 milhões de seres humanos tenham sido tratados de uma doença que, sem dúvida, impacta o desenvolvimento econômico de seus países e está nitidamente vinculada com o ciclo geracional de pobreza.
Pesquisas recentes, porém, têm revelado uma evidência que redimensiona a tibieza com que a ciência tem atendido a Humanidade em luta milenar contra a Hanseníase. A partir do mapeamento do genoma de M. leprae, coletado de múmias européias da Idade Média, pesquisadores decidiram buscar resposta para uma pergunta que responderia qual o nível de dificuldade para o advento de novas terapêuticas para a doença: Em sendo o Mal de Hansen uma doença da Antiguidade, com exemplos citados entre os povos do Velho e Novo Testamento, teriam acontecido mutações nesse microrganismo ao longo dos milênios?
A resposta foi iluminadora. O genoma do M. leprae dos dias de hoje é exatamente igual ao do espécime que infectou as múmias medievais. Ele está imutável, há milênios, à espera de que algum Hansen da pós-modernidade o desafie novamente. Mas a exploração da genética dessa bactéria revelou dois outros fatos esclarecedores, o de que a doença foi transportada ao continente americano pelo colonizador europeu e, segundo, que houve de fato uma grande mutação, entretanto no genoma humano, que teria conferido a algumas populações a competência de resistir à infecção, explicando assim o porquê da Hanseniáse haver "sumido" da Europa Ocidental na Época das Cruzadas.
Detalhes da investigação sobre o genoma do Mycobacterium leprae podem ser encontrados na Science desta semana.
Vaidade Teu Nome Pode Ser Ciência
Um dos grandes momentos da ciência brasileira no século XX foi a definição da causa biológica da Febre das Tricheiras (Tifo Epidêmico), que dizimou milhares de soldados durante a Primeira Guerra Mundial. A descoberta do agente etiológico - bactérias do gênero rikettsia - pelo clínico e pesquisador Rocha Lima chegou a bem posicioná-lo na disputa pelo Prêmio Nobel de Medicina. Entretanto sua candidatura malogrou em alcançar a grande honraria, envolvido que foi na crescente e diversificada polarização entre França e Alemanha pela hegemonia científica mundial.
Acontece que Rocha Lima era um declarado germanófilo, por formação vinculado a grupos de cientistas tedescos e, ao seguir tão inconsteste nessa direção ideológica, terminou traído pelo destino nos tumultuários anos 30, com a chegada ao poder na Alemanha do partido nacional-socialista alemão. Ao contrário de um Von Braum, que, terminada a II Guerra, virou a casaca nazista e entrou para a história da ciência como o "pai da era espacial" dos EUA, Rocha Lima desceu aos infernos num país subdesenvolvido que ansiava por se livrar do ranço da ditadura Vargas, em seguida ao final da Segunda Guerra Mundial com a derrota militar, econômica, política e moral da Alemanha.
Acontece que Rocha Lima era um declarado germanófilo, por formação vinculado a grupos de cientistas tedescos e, ao seguir tão inconsteste nessa direção ideológica, terminou traído pelo destino nos tumultuários anos 30, com a chegada ao poder na Alemanha do partido nacional-socialista alemão. Ao contrário de um Von Braum, que, terminada a II Guerra, virou a casaca nazista e entrou para a história da ciência como o "pai da era espacial" dos EUA, Rocha Lima desceu aos infernos num país subdesenvolvido que ansiava por se livrar do ranço da ditadura Vargas, em seguida ao final da Segunda Guerra Mundial com a derrota militar, econômica, política e moral da Alemanha.
Nesse pós-guerra imediato de tantas incertezas, com a
imagem consorciada a um Estado estrangeiro que desenvolvera programa
tecnológico para a matança de povos não considerados gente por taxonomia pseudocientífica, e que, nessa infame missão de desumanização, também rasgara todos os códigos de
ética, inclusive o da pesquisa científica, Rocha Lima viu-se progressivamente mergulhado no ostracismo por seus contemporâneos, assistindo sua obra ser praticamente obscurecida, não fosse algumas raras e temporalmente esparsas homenagens pela sua contribuição à ciência global.
A medalha
que recebera com tanto orgulho das mãos de Adolf Hitler - tratava-se da mais alta honraria da ciência alemã concedida a um estrangeiro, e por um regime político xenófobo quase ao modo de prêmio de consolação pela perda do Nobel - custar-lhe-ia bem caro para a biografia. Quem sabe nessa ocasião nem fosse simpatizante do
nacional-socialismo, talvez fosse alguém que ao participar desse ato de extrema gravidade - Mein Kampf fora publicado e se tornara canônico na política alemã! -, ao modo tão imprevidente quanto o foram seus pares nas instituições de ensino e pesquisa germânicas, imolava-se numa fogueira atiçada pela vaidade
científica ferida.
Recentemente este capítulo da história da ciência brasileira foi objeto de tese de doutorado do historiador André Felipe Cândido da Silva, com o título Um Brasileiro no Reich de Guilherme II: Henrique da Rocha Lima, as relações Brasil-Alemanha e o Instituto Oswaldo Cruz, 1901-1910.
domingo, 14 de abril de 2013
A Fotografia e a Morte: A Evidência de um Corpo em Evidência
Cassirer diz que a ciência permitiu que estabelecessemos a regularidade do mundo, a partir de intervenções de domínio sobre os fenômenos da natureza. Neste desfile de milênios, evoluímos do aprendizado de reproduzir o fogo - prender fuego, como dizem os castelhanos - para a robos interplanetários, a miniaturização da eletrônica, o esclarecimento do gênoma e suas amplas aberturas para o advento de outras tecnologias, como é o caso do horizonte tecnológico da terapia gênica.
As tecnologias moldaram e estão fortemente integradas às relações sociais de produção, num mundo que exige cada vez mais a estabilidade nos fenômenos naturais e mercados econômicos. Entretanto, entre esses fenômenos, não há que mais intimide os homens do que a morte e o morrer, quando o instinto de sobrevivência natural associa-se à racionalidade da espécie e produz nas dimensões da historia da humanidade diferentes expressões que, cultural e historicamente, buscam compreender e disciplinar de forma mágica ou científica a finitude do tempo biológico.
Ao modo como os egípcios e os chineses fizeram com a elaboração de registros pictóricos, de cenários e de instalações expressivos da morte de seus faraós e imperadores, modernamente nos EUA e na Europa - nas suas colônias e ex-colônias , a invenção da fotografia permitiu que fosse desenvolvido o costume do registro fotográfico dos mortos.
Na chamada Era Vitoriana ou na Belle Époque, não raro as fotos saiam de álbums para serem exibidas na sala de visitas das famílias, como se nesse memento homo os mortos permanecessem em convívio familiar. Cruzavam-se evidências - sentimento e registro fotográfico - de um corpo em evidência. Observemos que se tratava de prática privativa de idealização da morte e absolutamente diversa de registros públicos semelhantes relacionados a personalidades, que até hoje persistem como integrantes de matérias publicadas nos veículos de comunicação, como foi o caso dos revolucionários executados da Comuna de Paris.
Como assinalou Susan Sontag, no fundamental Sobre a Fotografia:
A fotografia torna-se um rito de vida familiar apenas quando, nos países industrializados da Europa e da América, a própria instituição da família começa a passar por uma intervenção radical. De unidade fechada em si, a família nuclear foi se tornando agregado maior. É quando a fotografia vem a reestabelecer, ou reafirmar simbolicamente, os riscos da continuidade e a extensão da vida familiar. Esses traços fantasmagóricos, fotografias, fornecem a presença simbólica de parentes dispersos, distantes e ausentes. Um álbum de família é, geralmente, da família em extensão alargada e, muitas vezes, é tudo o que dela restou.
Recomendo a postagem publicada esta semana no blogue io9: The Strangest Tradition of the Victorian Era: Post-Mortem Photography (A Mais Estranha Tradição da Era Vitoriana: A Fotografia Pós-Morte), que traz exemplos da sofisticação e da socialização desse uso da fotografia entre as famílias da segunda metade do século XIX e príncípios do XX.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Nanobiotecnologia e Segurança Alimentar
O Fundo
Internacional de Pesquisa e Segurança do Canadá é uma iniciativa conjunta da
Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (CIDA) e do Centro
Internacional de Pesquisa e Desenvolvimento (IDRC). Tem por objetivo apoiar projetos de pesquisa e inovação relacionados com a segurança alimentar global. Atualmente são apoiados 19 projetos sob a liderança de 37 instituições de pesquisa, das quais 11 são canadenses e 26 de
países em desenvolvimento.
Entre os resultados dos projetos financiados pelo fundo, destacam-se os resultados obtidos pelos pesquisadores da Universidade de Guelph (Canadá), da Índia e do Sri Lanka, que desenvolveram sistema de embalagem inovadora para a reduzir a deterioração e as perdas de mangas pós-colheita, com o uso da nanobiotecnologia. O produto desenvolvido pelo consórcio dos três países poderá ser aplicado também na economia agrícola canadense, assim como em outros países.
Entre os resultados dos projetos financiados pelo fundo, destacam-se os resultados obtidos pelos pesquisadores da Universidade de Guelph (Canadá), da Índia e do Sri Lanka, que desenvolveram sistema de embalagem inovadora para a reduzir a deterioração e as perdas de mangas pós-colheita, com o uso da nanobiotecnologia. O produto desenvolvido pelo consórcio dos três países poderá ser aplicado também na economia agrícola canadense, assim como em outros países.
Perfil do projeto Reducing fruit losses in India and Sri Lanka using nanotechnology pode ser acessado aqui.
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