sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Desvantagem Comparativa do Sistema de Saúde dos EUA

Os Estados Unidos gastam mais em saúde do que qualquer outro país do mundo, mas os seus resultados em saúde são geralmente piores do que os de outros países ricos. As pessoas nos Estados Unidos apresentam taxas mais altas de doenças e ferimentos e morrem mais cedo do que pessoas de outros países de alta renda. Embora esta desvantagem de saúde tenha aumentado ao longo de décadas, a sua escala só agora tem se tornado mais evidente.
Pesquisas com pacientes acometidos de doenças crônicas em até 11 países demonstraram que os norte-americanos são mais propensos do que os pacientes de outros lugares a relatar falhas na qualidade da assistência e na segurança hospitalar. Ademais pacientes norte-americanos parecem mais propensos para requerer visitas do departamento de emergência ou readmissões por causa da alta precoce e de problemas no atendimento ambulatorial. Confusão, falta de coordenação e falta de comunicação entre médicos e pacientes são relatados com mais freqüência nos Estados Unidos.
Comparações entre países também demonstram claramente que pessoas nos Estados Unidos, nomeadamente as crianças, estão morrendo mais cedo e enfrentando doenças e lesões a taxas maiores do que as observadas em outros países com o mesmo padrão de renda nacional. Para além das consequências humanas e econômicas que afetam atualmente  adultos e a força de trabalho, as desvantagens de saúde enfrentadas pelas crianças norte-americanas implicarão em outros problemas sanitários, quando se tornarem os adultos de amanhã, com repercussões na economia do país e para a segurança nacional. Agora, a questão é  saber o quanto a sociedade norte-americana está preparada para fazer uma mudança radical no modelo de saúde do país.

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O artigo - The US Health Disadvantage Relative to Other High-Income Countries Findings - foi publicado em 10 de janeiro deste ano, no JAMA - Journal of the American Medical Association. Clique aqui para ter acesso livre ao texto completo.
 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Nietzscheanas

O que distingue o nosso século XIX não é a vitória da ciência, mas sim a vitória do método científico sobre a ciência.

O conhecimento terá, em uma espécie superior de seres, também novas formas, que agora ainda não são necessárias.




domingo, 27 de janeiro de 2013

O Dia do Holocausto com Tamara Kamenszain



No dia da Memória às Vítimas do Holocausto (Yom Hashoá), lembrei da poesia de Tamara Kamenszain. É poeta argentina de larga influência, traduzida em várias línguas, que descende de judeus russos e romenos. Já não lembro em que sebo paulista e quando adquiri "O Gueto", edição brasileira em pequeno formato para encarte. 
A autora não viveu os horrores dos pogroms e das guerras, senão pela memória oral que as histórias de família legaram. Entretanto, como guardiã dessas dores e pelo filtro de uma poesia densa, dura e sofisticada, Tamara alcança momentos de rara reflexão sobre um drama que não é apenas étnico na bacia dos preconceitos europeus, mas de alcance universal. 
O Holocausto da II Guerra Mundial não é uma ilusão ou fato corriqueiro na História, como querem alguns fazer crer ultimamente. Foi o momento em que o Homem conjugou as mais poderosas forças de seu intelecto - a ideologia, a técnica e a tecnologia - para destruir em escala industrial culturas e povos.
Sua existência nos desafia para a conclusão de que sua possibilidade só aconteceria no estágio de pleno desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo moderno, no cenário de permanente disputa entre estados nacionais com pretensão hegemônica mundial.  Seu legado moldou gerações e futuro.
Mas vamos ao poema de Tamara Kamenszain, onde fiz pequeno ajuste, por discordar da versão oferecida pelo livro.

GENTIOS

Deus escreve a diferença
no espelho da desordem genética
se me olho desconto meu duplo
se te vejo acrescento tua metade.
Diferença idêntica
faz rir de tanto nos parecermos
àrea à semita judia e ariano
loucos soltos fechados juntos
protegidos sob a intempérie à distância
como animais ante seu próprio enterro
disperso nas amplitudes do campo
Nesse lugar descampado
nesse perímetro que nos concentrava
eu sou aquela que morreu por ti
e por tua gentileza ainda sou
a que te deixou
                        morrer.
Deus nos arquivará distintos
em seu livro dos parentescos
no velho eu você no novo
dois testamentos na fossa comum
e depois
              que nos identifiquem.



sábado, 3 de novembro de 2012

Licença Aberta do Norvir Solicitada ao NIH

O Alquimista Sedziwoj (Óleo sobro tela. Jan Matejko, 1857). Museu de Lodz (Polônia).


Quatro organizações não governamentais norte-americanas solicitaram formalmente ao poderoso National Institute of Health (NIH), orgão responsável pelo financiamento de pesquisa em saúde nos EUA, que garantisse que o Norvir (Abott), um novo anti-retroviral para tratamento da AIDS, a condição de licença aberta. O objetivo seria de baixar o custo e ampliar o acesso do consumidor a esse tipo de medicamento, visto que o preço final de mercado estaria livre dos custos patentários habituais. 
A solicitação tem por fundamento as recomendações legais do Bayh-Dole Act, que teve por objetivos o estímulo à comercialização de inovações financiadas pelo governo e alavancar a indústria biotecnológica na década de 80. Em linhas gerais o Bayh-Dole Act dá ao NIH a prerrogativa de regular por tangência o mercado de medicamentos estratégicos, na sua condição de financiador do densenvolvimento de novas drogas e sempre que a indústria não alcançasse "a aplicação prática" da inovação tecnológica. Até hoje o NIH nunca utilizou essa prerrogativa que lhe foi concedida por lei federal, mesmo que provocado quatro vezes em 32 anos de vigência do Bayh-Dole Act.
Desde que o Norvir foi levado ao mercado pela Abbot o preço do medicamento aumentou em 400%. Há flagrante discordâncias de preços de mercado desse medicamento em diferentes países. Nos EUA, por exemplo, o consumidor paga cerca de 20 reais por comprido, enquanto o mesmo medicamento é vendido no Canadá e Nova Zelândia por 10% do valor da praça norte-americana, ou seja, dois reais. No Brasil, por sua vez, não é diferente a situação com respeito a preço de medicamentos inovadores. Em 2009 o então ministro da saúde, dr. José Gomes Temporão, iniciou um tour de force com a Merck, que terminou no licenciamento compulsório do medicamento anti-retroviral Efavirenz.  O licenciamento compulsório não representa quebra do direito patentário, mas a suspensão temporária dos direitos de exclusividade provocado por flagrante abuso  e para a proteção do interesse público.
O general Eisenhower, coordenador geral dos exércitos aliados na Europa durante II Guerra Mundial e depois candidato republicano eleito a 34o. presidente dos EUA, ao fim de seu segundo mandato presidencial fez em rede nacional de televisão o que até hoje representa uma das mais corajosas advertências, ao denunciar o crescente poder de influência do que ele chamou de complexo industrial-militar, que, não fosse suficientemente regulado, ameaçaria no futuro os princípios da democracia americana e poria em risco a paz mundial. Nem precisamos citar aqui os exemplos conexos à denúncia de Eisenhower, mas podemos observar que, na sociedade norte-americana e no mundo, não é menor o poder transnacional do complexo industrial farmacêutico, a chamada Big Pharma.
As relações entre Estado, governo e indústrias que produzem insumos e tecnologias estratégicas são por natureza complexas e se desenvolvem em meio a riscos onipresentes. No caso dos EUA, onde não existe um sistema público universal que efetive a integralidade do direito à saúde, o domínio do mercado provedor de serviços, de insumos e tecnologias de saúde é conduzido manu militare pela "mão invisível" de um poderoso setor privado que gera bilhões de dólares de lucro no mercado mundial de medicamentos. Torna-se assim quase inócua - e assim o demonstra sua história - a aplicação do Bayh-Dole Act no caso do Adenovir. De qualquer modo, para evitar mais ruídos e principalmente prejuízos, o NIH já anunciou que analisará a petição das ONG apenas depois de 17 de dezembro de 2012, quando o 57o. morador da Casa Branca já tiver sido escolhido pelo povo americano. Há que não perder a esperança.
Referências
1. NIH asked to grant open license on HIV drug (Nature News Blog)
2. O Discurso de despedida de Eisenhower (Sociologia Crítica)
3. Sobre o alquimista Michal Sedziwoj (Wikiverbete)

sábado, 22 de setembro de 2012

Um Cientista Inglês




Em Londres no início do ano, ao sair pela esquerda da Estação de Saint Pancras - aquela onde Harry Porter se perdeu - dei com um grande tapume de construção civil. O outdoor em frente dizia que se tratava da construção do Instituto Francis Crick, homenagem do governo britânico ao notável cientista que, em 1962, pela descoberta da estrutura em dupla hélice do DNA, dividiu o Nobel de Fisiologia e Medicina com James Watson. A nova instituição britânica de pesquisa substitui o antigo UK Centre for Medical Research and Innovation, estando prevista a conclusão integral das obras para 2015. Antes de chegar na parada do ônibus, impressionado com inesperada recepção visual, fiz estas fotos que compartilho aqui. 

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A página do The Francis Crick Institute pode ser acessada com um click.

Mais Uma On Line: A Biblioteca de Charles Darwin


Com a popularização da internet, as tecnologias da informação experimentaram um aprimoramento que sem exagero podemos dizer exponencial. No delta desses avanços, hoje é comum o acesso livre a variadas fontes de informação e em especial aos aceervos digitalizados das bibliotecas on line. O que era inimaginável há 30 anos, hoje é plenamente possível: um leitor acessar à distância tesouros impressos da Biblioteca Nacional ou, na USP, a lendária coleção brasiliana de José Mindlin, que teve por base a coleção de livros de Ruben Borba de Moraes, integrante do Semana Modernista de 22 e considerado um dos maiores investigadores da história dos livros no Brasil.
Nesse cenário em plena expansão sempre surgem novidades na rede mundial de computadores. Ontem à noite, explorando links da revista Science em busca de um trabalho sobre herpes vírus, encontrei a informação de que a biblioteca de Charles Darwin já se encontra praticamente toda digitalizada no sítio da Biodiversity Heritage Library. Nessa página  não só os livros e anotações (marginália) do autor da Teoria da Evolução estão disponíveis, mas também as bibliotecas de Carl Linneau e Ernest Mayr, entre outras relacionadas a Biologia. Na Biblioteca de Darwin estão disponíveis para consulta livre cerca de 22000 mil páginas, integrantes de 439 títulos digitalizados.  
Sabemos que o estudo da natureza brasileira deu importante contribuição a teoria evolucionista. Nesse aspecto a contribuição a destacar é aquela de Alfred Russel Wallace, cuja relevância permitiu-lhe durante algum tempo, uma insubsistida coautoria da Teoria da Evolução. Como viajante naturalista - e do mais brilhantes -, Wallace explorou durante quatro anos a Amazônia brasileira e registrou suas reflexões sobre a natureza da região no antológico Narrativas de Viagens pelo Amazonas e o Rio Negro (1853), trabalho que dedicou a Darwin. 
Está claro que Wallace está bastante presente na versão digital da Biblioteca de Darwin, assim como outros viajantes da Amazônia no século XIX, por exemplo Henry Bates (O Naturalista no Rio Amazonas ) e James Orton (O Andes e o Amazonas). Curiosamente, contudo, o livro das Narrativas está ausente. Além dele senti também a falta da Viagem ao Rio Amazonas, escrito por William H. Edwards (1847). Edwards foi o primeiro pesquisador norte-americano a explorar a natureza amazônica, tendo o seu trabalho impressionado vivamente a Charles Darwin. Talvez sejam ausências circunstanciais, que expressem o estado da arte do processo de digitalização das obras que integram a biblioteca de um dos mais influentes filósofos da dúvida, combatido sem trégua até hoje pelos criacionistas, por gente como George W. Bush, Sarah Palin e Marina Silva.

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Para acessar a biblioteca clique aqui.

domingo, 26 de agosto de 2012

Neil Armstrong e o Conhecimento

Ao longo de seus 82 anos de vida, encerrados fisicamente ontem, Neil Armstrong legou a História inúmeros escritos em que registrou seu pensamento sobre a conquista do espaço, seu papel pioneiro nos eventos que o levaram a caminhar na Lua, sua  visão da condição heróica e a centralidade da ciência para o progresso humano. 
Certa vez um bibliotecário de Michigan expediu carta a várias personalidades mundiais, em que lhes solicitava a gentileza de um comentário sobre a importância das bibliotecas, dos livros e da leitura. As respostas seriam usadas para estimular crianças a frequentarem bibliotecas. Neil Armstrong respondeu a essa carta com um comentário de grande valor humanista:

"Through books you will meet poets and novelists whose creations will fire your imagination. You will meet the great thinkers who will share with you their philosophies, their concepts of the world, of humanity and of creation. You will learn about events that have shaped our history, of deeds both noble and ignoble. All of this knowledge is yours for the taking… Your library is a storehouse for mind and spirit. Use it well."
 
"Por meio dos livros vocês encontrarão a criação dos poetas e dos romancistas que incendiarão suas imaginações. Vocês encontrarão grandes pensadores que compartilharão consigo suas filosofias, seus conceitos de mundo, de humanidade e de criação. Vocês aprenderão sobre fatos que moldaram nossa história e também sobre os atos cometidos tanto para fins nobres quanto ignóbeis.  Todo este conhecimento está disponível para que vocês usem... A biblioteca representa um armazém para o espírito e a mente. Façam dela bom uso."

Jorge Luis Borges e o Conhecimento

"...En aquel Imperio, el Arte de La Cartografia logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa Del Imperio, toda una Provincia. Com el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaran un Mapa del Imperio, que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente com él. Menos Adictas ao Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguintes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y de los Inviernos. Em los Desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruínas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra relíquia de las Disciplinas Geográficas.

SUÁREZ, MIRANDA: Viajes de varones prudentes,
Libro Cuarto, Cap. XLV, Lérida, 1658."

Conforme publicado no livro El Hacedor (Obras Completas. Vol 2. Emecé, 2a. ed: 2009).

Borges é mestre em criar labirintos mentais. Nesse pequeno parágrafo ele alude ao erro e à falibilidade científica por desajuste metodológico. É o quanto nos basta ver em algumas obras antigas, que ao analisarem uma questão científica nos apresentam conclusões não raro fantasiosas. Mas a ciência também requer da fantasia alguma forma superior de abstração que anime a hipótese. Formular a proporção com que esses ingredientes contribuem para o conhecimento, não prescinde da advertencia de Paracelso no século XV: A diferença entre o remédio e o veneno é a dose.
  

  

domingo, 19 de agosto de 2012

No Dia Mundial da Fotografia, a Amazônia tem de estar presente claro.