segunda-feira, 2 de maio de 2011

Entre as Estrela e o Crescente: A Ética Sob as Botas do Mercado e do Nacional-Fundamentalismo

Eu me lembro bem do infausto 11 de setembro. Mal chegara ao gabinete da Secretaria de Saúde de Belém, vi minha credulidade ser desafiada ao saber que um avião atingira mortalmente uma das torres do World Trade Center, incendiando-a. Enquanto ao redor da televisão, testemunhamos não só que o mundo se punha desnorteado com o fato, mas o choque de outro avião contra a segunda torre e, em seguida, o desmoronamento de ambas.
Para os norte-americanos, ali se iniaciava a maior dor depois do ataque a Pearl Harbor, que levou ao país entrar na II Guerra Mundial e mudar decisivamente o rumo dos acontecimentos que levaram a derrota dramática da Alemanha, da Itália e do Japão. Seria uma dor moral, física e espiritual que perdurará tanto tempo quanto as gotas de óleo que ainda afloram do submerso USS Arizona, como fossem lágrimas dos milhares de marinheiros que ali encontraram a sepultura sob as vagas de bombas japonesas despejadas sobre a frota americana ali baseada.
Porém, em setembro de 2001, o ataque em solo nacional ianque não fora obra de um estado-nação estrangeiro, mas sim fruto da liderança de um só homem, antigo combatente das milícias do Afeganistão, à época da invasão desse país pela União Soviética, e que após a derrota e retirada dos exércitos comunistas de Moscou, decidira enfrentar o outrora aliado e financiador de suas operações militares - os EUA - em nome de princípios religiosos islâmicos e da construção de sua dimensão política: o grande Islã.
O ato de Osama Bin Laden contra civis indefesos em solo norte-americano desencadeou a mais formidável operação civil-militar que levou a revogação temporária de direitos civis - confidencialidade de comunicações, prisões secretas onde foram denunciadas terríveis torturas, além de contingenciamento de garantias legais e de escândalos como Abu Ghraib. Criou-se no discurso até léxico para despertar a memória das antigas potências inimigas do Eixo nazi-fascista com a categorização do chamado Eixo do Mal, no qual estavam elencados países que os EUA e aliados identificavam como de alguma forma associados ao terrorismo internacional.
Entretanto, apesar de todo o aparato tecnológico militar, dos milhões de dólares gastos com o pagamento de uma poderosa rede de informações no Oriente, nada se sabia ao certo sobre o paradeiro do famigerado Bin Laden, que superasse ao já descrito por Robert Fisk em seu já clássico "A Grande Guerra pela Civilização: A Conquista do Oriente Médio" (Planeta, 2005): ou seja, que o inimigo público número 1 da América escondia-se no deserto, em locais de difícil acesso, protegido pela confidencialidade de poucos contatos que jamais utilizavam telefones, computadores ou qualquer outra forma material para registro de dados e informações.
Daí que a notícia de morte daquele notório assassino político, surpreendido por ataque de um comando de forças especiais da Marinha norte-americana, não em caverna ou no deserto, mas no conforto suburbano de uma cidade de médio porte no Paquistão, correu na internete como fogo em campo de palha, assanhando as redes sociais nos dois hemisférios terrestres. É verdade que, em seguida ao fato logo comemorado por uma malta de quase imberbes em frente a Casa Branca, restaram mais perguntas que respostas sobre essa secretíssima operação militar conduzida em solo e espaço aéreo do Paquistão, país com que a Casa Branca se relaciona mantendo a mão no coldre dada a flagrante relação de dubiedade que esse estado mantem com a resistência islâmica, ou os ditos insurgentes como é comum no léxico da grande guerra pela civilização.
Como tudo na vida, e em horas graves não diferimos, o humor compareceu e houve quem na rede mundial, como traduzindo o pensamento dos soldados em combate no Oriente Médio, cunhasse a tirada viral OK, o cara morreu. Podermos voltar para casa? No mundo concreto da política internacional e da guerra, entretanto, a resposta óbvia e dura ao desejo de retorno é Nunca, pois a engrenagem do sistema encontrou seu moto contínuo que alimenta um sangrento trabalho de Sísifo. Dez anos se passaram desde o ataque ao World Trade Center, tempo suficiente para que os responsáveis pelo ato criminoso reorganizassem e desenhassem estratégias e saídas em caso de morte do seu maior líder. Além do mais, os últimos acontecimentos que sacodem a estabilidade dos governos do Oriente Médio sinalizam que a pax americana para a região tem menos solidez do que as dunas de areia frente ao vento do Saara.
Não sobra, portanto, ética que ordene ou imponha limites nessas trincheiras inextinguíveis, estejam elas no campo de batalha nos arredores de Kandahar ou entre as paredes das editorias de veículos ocidentais de comunicação. Nesse último caso, ilumina com agudez e sensibilidade a dimensão da tragédia, o brilhante artigo de Robert Fisk, publicado hoje, no The Independent. Nesse artigo - March 2007: Robert Fisk on Bin Laden at 50 (Março de 2007: Robert Fisk sobre Bin Laden aos 50), comove-me a indelével lição de ética jornalística com que Fisk ilumina o campo de batalha onde por regra aquela escasseia, sufocada pelo entrechoque das mais poderosas forças sociais conduzidas pelo homem: o mercado e o nacional-fundamentalismo a leste e a oeste.

2 comentários:

Adelina Braglia disse...

Esse é um bom blog. Bom, bonito e bem feito.

Abração

Itajaí de Albuquerque  disse...

Adelina, obrigado por seu elogio.
De retorno tb. o abração.